Um enorme vazio faz com que nossa galáxia viaje a dois milhões de quilômetros por hora

Duas grandes forças governam o movimento da Via Láctea pelo universo

A Via Láctea vista do telescópio ALMA, no Chile.
A Via Láctea vista do telescópio ALMA, no Chile.ESO

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Enquanto lê estas linhas, você atravessa o universo numa velocidade de dois milhões de quilômetros por hora. Não se trata de uma fantasia, mas de um fato confirmado que até agora os astrônomos não sabiam explicar direito.

A teoria mais aceita diz que o superaglomerado Sharpley, a maior concentração de galáxias no universo próximo da Terra, nos atrai com a sua força gravitacional, acelerando a Via Láctea a essa vertiginosa velocidade. Mas tal proposta não condiz com as observações do movimento e da trajetória do grupo local, o aglomerado de galáxias que engloba Andrômeda e a Via Láctea, nossa diminuta vizinhança na imensidão do universo.

Agora, um novo estudo publicado hoje aponta para um segundo culpado. Trata-se de uma enorme região do universo, situada a cerca 500 milhões de anos-luz e que, em termos cosmológicos, está vazia.

O astrofísico Yehuda Hoffman, da Universidade Hebraica de Jerusalém, realizou com a sua equipe uma simulação em três dimensões do movimento da Via Láctea pelo universo próximo. Baseou-se em observações da velocidade de 8.000 galáxias com o telescópio espacial Hubble e outros instrumentos. Os resultados, publicados em Nature Astronomy, confirmam a existência dessa região com uma baixa densidade de estrelas e galáxias, que repele a Via Láctea justo na direção do superaglomerado Sharpley. E este, por sua vez, a atrai com a massa de suas milhares de galáxias. A soma de ambas as forças faz com que a Via Láctea viaje a dois milhões de quilômetros por hora com relação à velocidade constante da radiação cósmica de micro-ondas, gerada após o Big Bang.

O universo se expande a uma velocidade definida pela constante de Hubble, explica Hoffman. Se subtraímos essa aceleração, o “efeito líquido [da nova região] sobre a Via Láctea é de repulsão”, afirma. “Até agora só existiam pequenos indícios desse vazio, e ninguém havia conseguido quantificar seus efeitos ou localizá-lo.” Esse vazio, batizado de “repulsor de dois polos”, “colabora com a outra metade da história para explicar integralmente o movimento da galáxia da forma como observamos”, diz o cientista.

O novo mapa mostra como o “atrator” e o “repulsor” influem numa área do universo de aproximadamente 500 milhões de anos-luz e que contém outras grandes concentrações de matéria, como o superaglomerado Perseu-Pisces, o aglomerado Hércules, a constelação Lepus, o superaglomerado Laniakea e o superaglomerado que habitamos. “Até onde sabemos, esta é a maior reconstrução do universo local já realizada”, diz Hoffman.

A nova região do universo descrita no estudo não está realmente vazia, mas tem menos estrelas e galáxias que o normal. Portanto, é muito menos densa que os grupos de aglomerados galácticos. A equipe de Hoffman espera que, no futuro, seja possível observar a luz das estrelas nessa região.

O astrônomo também afirma que as características observadas para a Via Láctea não têm nada de especial num universo que contém cerca de dois bilhões de galáxias. “Seu comportamento parece muito comum e se encaixa perfeitamente com o modelo básico da cosmologia”, que descreve a estrutura e a evolução do cosmo a partir do Big Bang, ressalta. “Nesse sentido, Copérnico tinha razão: não há nada que nos faça especiais dentro do universo.”

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