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Trump contra a Europa

Próximo presidente dos Estados Unidos cria tensão nas relações transatlânticas

Preparativos em Washington para a posse de Donald Trump.
Preparativos em Washington para a posse de Donald Trump.Aaron P. Bernstein (AFP)

Não há dia em que não aumentem os sinais de que o mandato do Donald Trump vai significar um duro teste para as relações transatlânticas. Aos ataques contra México e China, países que já apontou como inimigos comerciais e ameaçou com tarifas punitivas, o próximo presidente somou agora um duro ataque contra a União Europeia e a OTAN.

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Acusou a primeira de ser um projeto fracassado do qual todos os membros deveriam, seguindo o Reino Unido, querer sair. E despreza a segunda como uma organização “obsoleta” cujo tempo já passou. Trump afirma que a União Europeia foi criada com o objetivo de competir comercialmente com os EUA e promete que assim que tomar posse vai oferecer ao Reino Unido um acordo comercial preferencial. Nos dois casos mostra um preocupante e perigoso desconhecimento tanto da realidade europeia como dos benefícios que, para as duas partes, teve e tem compartilhar um espaço transatlântico aberto, seguro, livre e próspero.

Mas não é só a ignorância de Trump que preocupa – por mais que queira ajudar a primeira-ministra britânica, Theresa May, em seu desejo de avançar para uma saída rápida da UE, o Reino Unido não pode assinar acordos comerciais com os EUA antes de completar seu acordo de saída, o que poderia levar até dois anos –, mas o fato de responsabilizar a UE, e a Alemanha em particular, de ter provocado o Brexit inundando o Reino Unido de refugiados sírios. É uma afirmação estritamente falsa. Londres decidiu desde o início da crise síria ficar fora da solidariedade e dos princípios europeus nesta matéria.

Dos ataques a Angela Merkel por sua política de asilo e refúgio e a ameaça de impor tarifas de 30%-35% ao fabricante de automóveis alemão BMW se decidir continuar com seus investimentos na cidade mexicana de San Luis Potosí (onde Trump já conseguiu que a Ford retirasse um investimento de 1,6 bilhão de dólares), podemos imaginar –junto com os elogios a Vladimir Putin e o pedido de fim das sanções contra a Rússia – um futuro muito pouco lisonjeira para a Europa. Se somarmos a isso o anúncio de Trump de que imediatamente depois de sua posse planeja endurecer as condições de entrada nos EUA de cidadãos europeus, teremos uma agenda transatlântica que logo estará cheia de atritos e desentendimentos.

Obama foi capaz de compreender que uma Europa unida era melhor para os interesses dos EUA do que uma Europa dividida. Por isso pediu aos britânicos que ficassem na UE e lutassem para aperfeiçoá-la. Agora teremos em Washington um presidente que simpatiza com os eurofóbicos, incentiva a divisão europeia e alimenta a tensão transatlântica. A Europa não pode continuar ignorando a evidência, nem esperar que isso não dê em nada. Deve expressar em voz alta sua preocupação pela concepção do continente e o rumo das relações transatlânticas que Trump está desenhando e emitindo para seu Governo uma mensagem clara e forte sobre sua determinação de agir de forma unida na defesa dos interesses dos europeus.