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Delírio protecionista

Trump ensaia com o automóvel a volta a uma economia fechada

Donald Trump, em segundo plano, fala com Mike Pence.
Donald Trump, em segundo plano, fala com Mike Pence. (ASSOCIATED PRESS)

A ameaça de Donald Trump de impor tarifas aos carros de empresas norte-americanas fabricados no México que forem vendidos nos Estados Unidos causou, como era de se esperar, preocupação — próxima ao pânico — na indústria automobilística e, em particular, no ramo de componentes. As razões da preocupação devem ser encontradas, em primeiro lugar, no fato de que o presidente eleito confirmou o frenesi protecionista que anunciou durante a campanha. Cada vez há menos dúvidas de que, no que diz respeito à indústria e ao comércio, Trump não vai abandonar a ideia regressiva de que a economia dos EUA é para os americanos, com as consequências que isso implica: bloqueio de mercados, aumento de custos e perda de receitas, para os Estados Unidos e o resto do mundo.

Trump, pelo menos o que transmite via Twitter, parece ignorar que a maioria das indústrias tecnologicamente avançadas, como a automotiva, opera com cálculos integrados e subcontratação de componentes ao menor preço. Através da nacionalização do emprego e da produção, Trump vai transformar a produção de automóveis de seu país em uma indústria local.

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Para a Espanha, o desvario protecionista tem consequências graves. A indústria espanhola de componentes automotivos está crescendo, tem um alto grau de autonomia financeira e é uma das principais razões pelas quais as grandes empresas de automóveis investem na Espanha. Ela vende aos EUA quase 4% de suas exportações, e 1,75% para o México. Os dois mercados podem fechar devido à Trumpeconomics e começar, assim, uma espiral de perdas de postos de trabalho, produção e renda que irá envolver mercados relacionados.

Mas a indústria automobilística parece ser apenas a primeira peça afetada pela alienação protecionista. Com o álibi de Trump e sob o guarda-chuva do Brexit, o Reino Unido está considerando a cobrança de taxas para empresas britânicas que empregam trabalhadores estrangeiros. A partir do momento que uma disposição assim aparece em público já é uma evidência de que a ideia de um mercado de trabalho europeu fracassou. Os países ou regiões econômicas se fecharão em suas próprias fronteiras, os custos de transação vão se multiplicar e a consequência lógica será um empobrecimento global, incluindo os Estados Unidos. O protecionismo não é o remédio contra os excessos da globalização.

Se não houver posições firmes contra esta série de absurdos que pode ser vista no horizonte, a economia mundial caminha para um estrangulamento grave da riqueza, que se traduzirá logicamente em mais desigualdade entre países e entre segmentos de renda dentro do próprio país. O cenário que se desenha não é animador. A Trumpeconomics conduzirá necessariamente a um aumento da taxa de juros e uma rápida revalorização do dólar; o impacto sobre a política monetária do euro não vai demorar a chegar e irá estagnar no médio prazo, também afetada por fatores conjunturais (petróleo). A questão é: a Europa e o Japão possuem respostas adequadas contra o delírio protecionista?

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