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Turquia autoritária

Prisão preventiva do diretor do prestigioso jornal turco Cumhuriyet e oito de seus trabalhadores confirma o giro repressivo de Erdogan

A prisão preventiva decretada contra o diretor do prestigioso jornal turco Cumhuriyet e oito de seus trabalhadores, entre jornalistas, diretores e um cartunista, é a gota que faz o copo transbordar no deslizamento da Turquia para um Estado autoritário pilotado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan.

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Desde que sufocou a tentativa de golpe de Estado em julho passado, a gestão de Erdogan usou uma repressão absolutamente desproporcional, não apenas contra os elementos conspiradores, mas contra qualquer sinal de oposição. Na pior tradição autoritária, o presidente turco usou o golpe para varrer dentro de seu país, e usando métodos de duvidosa legalidade, qualquer crítica que poderia ser feita contra ele. Apenas no que diz respeito à liberdade de informação fechou 170 meios, ordenou a demissão de 2.500 jornalistas e prendeu mais de 700 jornalistas. A acusação de terrorista ou conspirador se tornou o estigma com o qual o presidente turco está decretando a morte civil de milhares de seus compatriotas. Nenhum setor está livre; mais de 30.000 professores foram retirados da sala de aula, o mesmo destino de milhares de funcionários, soldados, policiais e até árbitros de futebol.

A segunda equação das bravatas autoritárias de Erdogan tem a ver com a União Europeia, que ameaçou encher de refugiados se Bruxelas continuar questionando suas políticas internas. Com gestos como este, o velho desejo da Turquia de ser parte das instituições do velho continente se complica cada vez mais enquanto vai desaparecendo seu projeto de se tornar uma referência de modernização para os países vizinhos. O país que Atatürk tinha conseguido resgatar do longo sonho medieval para impulsioná-lo no sentido do secularismo e da democracia está em perigo, com Erdogan, de voltar aos lugares mais infaustos de seu passado.