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Do furor ao encerramento: a fugaz história do Vine

O app chegou a ter o maior crescimento do mundo, mas fechou em apenas três anos.

Vine fecha Ampliar foto
Grupo de pessoas grava vídeos com seus celulares. Reuters

O Twitter anunciou o fim do Vine. A empresa divulgou a notícia horas depois de publicar seus resultados trimestrais, dizendo que vai reestruturar suas prioridades e demitir 9% dos funcionários. Isso era impensável em 2013, quando o Vine era o aplicativo que mais crescia no mundo, segundo o GlobalWebIndex. O número de usuários aumentava quase quatro vezes mais rápido que os do WhatsApp e do Instagram.

O encanto da rede social eram suas limitações. Os vídeos, com duração máxima de seis segundos, eram o espaço perfeito para pequenas histórias virais de tom humorístico. Graças ao formato inovador, o Vine alcançou o ápice em agosto de 2014, quando 3,6% dos usuários de Android nos Estados Unidos usavam o aplicativo pelo menos uma vez por mês, segundo a empresa de análise de dados 7Park Data. Hoje, só 0,66% dessa base de usuários utiliza o Vine, de acordo com a empresa. “Limitar os vídeos a seis segundos de duração produz um movimento viral muito rápido, mas também faz com que os consumidores possam ver todo o conteúdo popular de uma só vez”, diz Byrne Hobart, analista da 7Park.

O Vine viveu o auge em agosto de 2014, quando 3,6% dos usuários do Android nos EUA usavam o aplicativo pelo menos uma vez por mês

Para Marcos Morales, responsável pela área digital da agência de comunicação Tinkle, o formato era a maldição da rede social. “Vídeos de tão curta duração exigem produtores com uma enorme capacidade criativa”, diz.

Em 2013 e 2014, o Vine era a sensação entre os mais jovens — um público difícil de atingir através da TV. Por isso, as marcas estavam muito interessadas em captar sua atenção. As estrelas do Vine começaram a colaborar com as marcas e a gerar renda. Mas os jovens foram atraídos por novas propostas, como Instagram e Snapchat. As estrelas começaram então a migrar em busca de público e receita. Sem elas, o Vine ficou cada vez com menos atrativos para oferecer.

“Muitos viners começaram a criar seu próprio canal no YouTube para atrair seus seguidores e ganhar dinheiro, o que no Vine é praticamente impossível”, diz Dani Argü, um usuário popular do app na Espanha.

“O Vine nunca esteve realmente vinculado ao Twitter ou a qualquer outra rede social. Por isso, o conteúdo nunca teve o potencial de viralizar de fato, em comparação com o que acontece hoje em outras plataformas”, diz Jan Dawson, analista da Jackdaw Research, indicando um problema adicional do formato do aplicativo.

As estrelas do Vine começaram a colaborar com as marcas e a gerar renda

O Vine tinha 200 milhões de usuários ativos por mês, segundo a última cifra oficial do Twitter divulgada em 2015. O Snapchat conta com 150 milhões de usuários ativos por dia; o Instagram, 300 milhões. “O Vine foi perdendo importância à medida que o YouTube atraía mais usuários influentes e o Snapshat e o Instagram ajustavam suas propostas às demandas do público e dos criadores”, diz Hobart.

O Twitter tentou frear a queda e a morte do Vine oferecendo opções mais lucrativas e interessantes para os criadores com a compra da Niche, uma plataforma para conectar usuários influentes com marcas. Também foi possível ver vídeos mais longos com um anúncio pré-carregado antes da reprodução. Mas essas soluções chegaram tarde e não conseguiram conter a sangria de usuários.

Rus Yusupov, cofundador do Vine que foi demitido pelo Twitter no ano passado, mostrou sua insatisfação com os rumos da empresa através de um tuíte em que pedia aos empreendedores que não vendessem suas empresas.

O Twitter tentou frear a queda e a morte do Vine, oferecendo opções mais lucrativas e interessantes para os criadores com a compra da Niche

Vine saía do foco do Twitter

O Vine não responde à nova estratégia que Jack Dorsey utiliza para reconduzir os rumos e os resultados da empresa, que continua sem poder fazer crescer significativamente nem rentabilizar sua rede social. O Twitter é agora uma plataforma focada na informação e no entretenimento em tempo real.

A empresa já está fazendo mudanças para alcançar essas metas, usando a aprendizagem automática para mostrar o mais importante acima da timeline e transmitindo eventos ao vivo, como os debates à Presidência dos EUA e o conteúdo da NFL, a liga de futebol americano. O Twitter diz que o número de usuários ativos por dia tem aumentado graças a essas alterações.

Seu aplicativo na Apple TV, que integrou a apresentação dos novos produtos da empresa da maçã, é voltado única e exclusivamente ao tempo real através do Periscope, seu aplicativo para telefones que permite retransmitir vídeos ao vivo, e de suas colaborações com meios de comunicação.

Nesse segmento, seu rival mais evidente é o Facebook Live, uma das minas de receita publicitária de Mark Zuckerberg.

“[O Vine] não se encaixa no novo foco do Twitter, que é o vídeo ao vivo e as notícias. Não serve para isso e não gera receita. Portanto, era obviamente um dos primeiros candidatos aos cortes do Twitter”, diz Dawson.

O Twitter agora é uma plataforma focada na informação e no entretenimento em tempo real

O Vine morreu, mas o conteúdo que popularizou a rede social continua vivo no Instagram e no Snapchat, enquanto Dorsey tenta encontrar o caminho do Twitter entre rumores de venda que perdem força e à pressão de Wall Street.

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