Editoriais
São da responsabilidade do editor e transmitem a visão do diário sobre assuntos atuais – tanto nacionais como internacionais

Outro modelo trabalhista

É urgente um acordo sobre o emprego baseado no aumento do investimento e do consumo

Luis de Guindos, ministro da Economia.
Luis de Guindos, ministro da Economia.CLAUDIO ÁLVAREZ

O próximo Governo terá de tomar muitas decisões urgentes e várias importantes para manter o crescimento no médio prazo. Uma das mais relevantes, pois envolve o modelo de contratação e de rendimentos, será esclarecer que tipo de mercado de trabalho a economia necessita. A Pesquisa da População Ativa (EPA na sigla em espanhol) do terceiro trimestre indica que o modelo implantado pela reforma trabalhista não resolveu os problemas estruturais do emprego. Permitiu a sobrevivência das empresas prejudicadas pela crise e reduziu os custos trabalhistas, mas tornou precária a contratação. A boa notícia é que o desemprego continua a diminuir — pelos efeitos do turismo e da hotelaria —, ao ponto de a taxa de desemprego estar abaixo de 20% (18,9%) pela primeira vez nos últimos seis anos. Mas as estatísticas não bastam para descrever e compreender a realidade; além de a taxa continuar a ser a mais alta da UE depois da Grécia, os problemas do desemprego entre os jovens, do desemprego de longa duração e dos empregos temporários (a taxa já é de 27%) se instalaram e contiveram as oportunidades de crescimento.

Mais informações
Editorial | Outro ajuste doloroso
Partido socialista espanhol permitirá que conservadores governem para evitar terceira eleição

Com altas taxas de desemprego entre os jovens, mais de 2,5 milhões de desempregados de longa duração e uma legislação trabalhista que penaliza a confiança no salário, no médio prazo não se pode sustentar uma recuperação. E isso poderá ser comprovado em 2017, quando cessarem os efeitos do petróleo barato e do euro fraco. Com elevado desemprego estrutural tampouco é possível um padrão de crescimento diferente do atual, dependente da construção e do turismo. O novo Governo terá de escolher entre manter um modelo econômico que evoca aquela Espanha como “país de garçons e pedreiros”, sustentado por uma contratação precária e com um custo público muito elevado de desemprego, ou construir um mercado de trabalho mais estável, mais flexível e mais bem organizado para distribuir as ofertas de trabalho disponíveis.

O novo mercado de trabalho deveria ser coerente com as decisões econômicas a médio e longo prazo (mais investimento público e privado em produtos com maior valor agregado, aumento do tamanho médio das empresas, redução dos custos de produção), uma tributação diferente e uma concepção administrativa mais ágil.

Mas estes são objetivos de médio prazo, que exigem reformas coordenadas nos mercados e na Administração. No curto prazo, com urgência, o mercado de trabalho precisa de decisões drásticas sobre a oferta e a procura dos postos de trabalho existentes. Portanto, é imperativo converter os serviços de emprego em centros efetivos de colocação; simplificar a contratação (Bruxelas tem vários modelos a oferecer); considerar variantes ou adaptações de financiamento público parcial dos salários quando as empresas viáveis enfrentem uma recessão; estimular a criação imediata de emprego não por meio de isenções fiscais, bonificações à cotização e tarifas fixas (financiadas em última análise pela poupança das pensões), que já demonstraram sua ineficácia, mas por meio de políticas de estímulo ao investimento e ao consumo. Com o acordo dos agentes sociais. E tudo isso, se é com dinheiro público europeu, melhor.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS