OPINIÃO

O menino de três pulmões

A vida de Isaquias Queiroz, o primeiro canoísta brasileiro a conseguir saborear o mel da vitória

Juegos Olímpicos de Río 2016
Isaquias Queiroz e Erlon de Souza. EFE

Era final de agosto de 2013 quando uma mãe habituada a más notícias recebeu um telefonema de um de seus filhos de uma cidade alemã da qual mal tinha ouvido falar. As lágrimas do filho, do outro lado da linha, só fizeram crescer os seus temores, e em décimos de segundos passaram pela sua mente as lembranças das tantas tragédias pelas quais o seu caçula havia passado, desde pequeno, ao longo de toda a vida. O coração acelerado por um mau pressentimento, conseguiu perguntar o que havia acontecido dessa vez, até que Isaquias, finalmente, a acalmou com uma notícia boa: “Teu filho é campeão do mundo”.

A vida de Isaquias Queiroz, primeiro canoísta brasileiro a saborear o mel da vitória, parece ter sido escrita por um grupo de roteiristas excelentes, preocupados em fundir esporte e momentos épicos, em construir uma nova lenda capaz de iluminar os sonhos de futuros campeões. Aos quatro anos de idade, ele sofreu uma grave queimadura ao derramar sobre a barriga um recipiente com água fervente. Aos seis anos, saiu ileso de um dos inúmeros sequestros que a cada ano acabam com a tranquilidade de centenas de famílias no Brasil. Aos dez, depois de se deparar com uma serpente morta e subir em uma árvore para vê-la mais de perto, caiu de costas sobre uma pedra e feriu um dos rins, que teve de ser retirado.

Em meio a muita risada, ele costuma contar que, no mesmo dia em que lhe retiraram aquele rim maltratado, o cirurgião decidiu introduzir no seu corpo um terceiro pulmão e que, por isso, nunca se sentiu inferior diante de seus adversários, muito pelo contrário. No ano passado, já consagrado como campeão do mundo em Duisburg, Moscou e Milão, seu carro perdeu a direção e saiu da estrada quando ele se dirigia ao aeroporto para buscar seu irmão. O veículo ficou totalmente destroçado depois de várias capotadas, mas Isaquias saiu milagrosamente ileso, sem nenhuma contusão significativa que pusesse em risco o seu objetivo seguinte: a glória olímpica no Rio de Janeiro, em casa, diante de seu povo. 

Há apenas alguns dias, o atleta conquistava a primeira medalha olímpica da história da canoagem brasileira: uma prata com sabor de ouro para esse rapaz tarimbado pelas tragédias e que parece destinado a se tornar uma lenda das águas calmas desde que a sua mãe lhe deu à luz na cidade de Ubaitaba, no Estado da Bahia, um nome tupi-guarani que significa “cidade de canoas”. Logo depois, o atleta recebeu um bronze na canoa individual 200 metros masculino. E, neste sábado, conseguiu um feito histórico: se tornou o primeiro brasileiro a conseguir três medalhas em uma mesma edição dos Jogos Olímpicos, ao receber a prata na prova em dupla ao lado de Erlon Souza. O menino dos três pulmões é, agora, o campeão das três medalhas.

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