SRI MULYANI INDRAWATI | DIRETORA-GERENTE DO BANCO MUNDIAL

Banco Mundial: “Se o país cresce, não deve deixar de fora parte da população”

A diretora-gerente do órgão analisa os primeiros meses de Mauricio Macri à frente do Governo argentino

A diretora-gerente do Banco Mundial, Sri Mulyani Indrawati
A diretora-gerente do Banco Mundial, Sri Mulyani IndrawatiRicardo Ceppi

A ex-ministra da Economia da Indonésia Sri Mulyani Indrawati (Bandar Lampung, 1962) é a mão direita do presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim. A diretora-gerente do banco viajou para Buenos Aires para analisar o rumo econômico da Argentina e reunir-se com o presidente Mauricio Macri. Nesta entrevista ao EL PAÍS, Indrawati aplaude as reformas de Macri e se mostra preocupada com o Brexit e com o fato de que a globalização, da qual é grande defensora pelos benefícios que propiciou, por exemplo, na Ásia, seu continente, esteja fomentando alguns populismos. Para impedir isso, explica, é preciso corrigir seu impacto para que os pobres não fiquem de fora.

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Pergunta. Caminhamos para uma nova crise?

Resposta. Creio que todos nós reconhecemos que a recuperação econômica mundial não é tão forte como esperávamos. A queda do preço das matérias-primas golpeou muitos países exportadores de matérias-primas na América Latina, na África e em parte da Ásia. A economia global ainda está frágil e os países emergentes e em desenvolvimento, que tinham sido o motor do crescimento nos últimos anos, sofrem também essa fraqueza. O sentimento atual é que o risco de recessão é grande. Para a América Latina prevemos dois anos de crescimento negativo, algo sem precedentes nos últimos 30 anos.

P. Como o Brexit vai afetar a Europa e a América Latina?

"Existe um sentimiento contrário à globaliçao que poder ser usado por políticos populistas"

R. Uma das mensagens é que existe um sentimento contrário à globalização e à integração comercial e econômica, que pode ser usado por políticos populistas e debilitar a capacidade das economias para crescer, tanto na Europa como na América Latina. A segunda mensagem é que, se você obtém um bom crescimento, como o da Argentina, pelo boom do preço das matérias-primas na última década, você tem de fazer com que esse crescimento seja suficientemente inclusivo e não deixe de fora uma parte da população. Nós estamos prontos para apoiar todos os países que sofrem com a fraqueza do crescimento mundial e a incerteza adicional do Brexit.

P. Em uma entrevista recente, a presidenta do Chile, Michelle Bachelet, dizia que o populismo está crescendo por causa da globalização, pela concorrência com a Ásia, que tem salários mais baixos. Na Europa muitas pessoas veem que seus pais viveram melhor que elas, e culpam a globalização e a Ásia,

"É preciso escolher políticas que permitam à populaçao desfrutar do beneficio da globaliçao"

R. Na Ásia também acontece isso. A China, com seus salários em alta, pode competir? Não, não pode, por isso enfrenta um desafio. A economia global enfrenta sempre esses desafios. Como você pode fazer para que a sua população tenha capacidade para ser competitiva e possa se adaptar. Sempre há benefícios na globalização, como melhorias tecnológicas, informativas, em medicamentos, nos alimentos, mas ao mesmo tempo sabemos que há outra camada dessa globalização que não é benéfica para todo o mundo. Não estou dizendo que isso é fácil, mas dizer que isto é por culpa da globalização é um erro porque se nega o progresso feito nas últimas décadas.

P. O Governo argentino, de Mauricio Macri, está fazendo as coisas como o Banco Mundial quer?

Sri Mulyani Indrawati e Mauricio Macri em Buenos Aires
Sri Mulyani Indrawati e Mauricio Macri em Buenos Aires

R. As políticas do Governo durante seus primeiros seis meses foram muito impressionantes. A Argentina tinha que fortalecer seu marco macroeconômico e, ao mesmo tempo, fazer isso protegendo os pobres, e esta é exatamente a mensagem que o Banco Mundial apoia. A política de eliminação das restrições cambiais, das barreiras comerciais e o pagamento aos fundos de investimento proporcionou credibilidade. O Governo agora reconhece que para estimular o crescimento não deve confiar somente em sua economia doméstica, mas abrir-se e desenvolver o potencial do setor privado. Esta é uma opção estratégica do Governo e estamos dispostos a apoiá-la. Ao mesmo tempo, para fazer frente à fraqueza mundial e regional, você tem de estar certo de proteger os pobres.

P. O ajuste é duro demais? Segundo a Universidade Católica Argentina, nos primeiros meses do Governo de Macri há mais 1,4 milhão de pobres.

"O Governo de Macri fez uma opçao estratégica e estamos dispostos a apoiá-la"

R. Acredito que os ajustes sempre são duros em qualquer economia. O Governo argentino considera que o ajuste é inevitável porque tem que restaurar a política macroeconômica para que seja crível e sustentável, mas reconhece que o ajuste golpeará um setor da população e, por isso, combina o ajuste com medidas de proteção, que é a maneira correta de agir. As tarifas subsidiadas precisaram se ajustar mais aos preços de mercado e, se há recursos escassos, eles precisam ser dirigidos ao segmento que necessita de mais proteção. O Governo vai ampliar a política de proteção às crianças (o Benefício Universal por Filho) a outro 1,5 milhão de crianças que não estavam cobertas antes.

P. Muita gente na Argentina e Brasil teme que a abertura de mercados afunde a indústria nacional, como aconteceu nos anos 90. O que lhes diria?

"Macri reconhece que o ajuste golpeará um setor da populaçao e por isso o combina com medidas de proteçao"

R. Acredito que você não pode liberalizar a economia sem levar em conta o que isso vai significar para a economia e a população. Por que a indústria local não pode ser competitiva? Se você compara a Ásia e a América Latina verá diferenças no nível da educação das pessoas e da produtividade, e também no investimento em conectividade e infraestrutura, que aqui é muito menor. Os responsáveis pelas políticas públicas têm de olhar o próprio país, sua sociedade, e reformar a burocracia, melhorar a infraestrutura para torná-la mais eficiente e investir em capital humano para, desse modo, poder ser um dos jogadores da globalização, não uma de suas vítimas. É preciso escolher as políticas que permitam que a população desfrute do benefício da globalização, mas mantendo uma rede de proteção, porque a economia global não é sempre um lugar seguro.

P. O Brasil afundará ou conseguirá seguir em frente?

R. O peso de sua economia é o maior da América Latina, por isso, o que lhe acontece afeta toda a região. Viu-se que um mau governo e a corrupção não só destroçam a confiança das pessoas, mas também criam sérios riscos na economia. O Brasil está passando por um ajuste muito difícil e quanto antes restaurar a confiança de seu povo e a certeza em sua economia melhor será para o país e a região.

P. Em alguns países o Banco Mundial é visto como uma instituição que desapontou o mundo. O que lhes diria?

R. Nossa instituição é de 189 países, é realmente uma instituição global. Não somos uma instituição de Washington que aterrissa em um país e lhe diz que tem de fazer A, B e C. Aprendemos muito em nossos 70 anos de existência e agora somos mais humildes.