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Mais, melhor Europa

Desafio populista exige resposta urgente

Donald Tusk, após a reunião do Conselho Europeu.
Donald Tusk, após a reunião do Conselho Europeu.J. WARNAND (EFE)

Desde sua fundação, este jornal tem como marca seu compromisso com o projeto europeu. Consciente de que a Espanha só conseguiria progredir junto com seus vizinhos e sabedor de que o marco europeu oferecia a mais firme garantia para que se pudessem realizar os direitos e liberdades a que aspiravam os espanhóis saindo do franquismo, este jornal sempre se colocou ao lado dos que, a cada passo, exibem “mais Europa”.

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Não mudamos. Continuamos a exigir “mais Europa”. Com, se possível, maior firmeza. Mas, acima de tudo, “melhor Europa”. O projeto europeu, apesar dos inegáveis avanços obtidos, está muito longe de chegar a um destino satisfatório. Pelo contrário, exatamente num momento em que sua existência é mais necessária que nunca, encontra-se submetido a tensões muito graves. Repetiu-se à exaustão que o projeto europeu precisa de crise para avançar. Não é verdade. Mal gerida, uma crise como a atual, na qual se encadeiam de forma muito perigosa fatores políticos, econômicos e de segurança, pode muito bem prejudicar, diluir ou até abrir as portas para um desmanche do projeto.

Enfrentar com sucesso o populismo eurofóbico que se espalha a nosso redor exige algo a mais que o habitual coro de lamentos sobre o desconhecimento das pessoas comuns a respeito das conquistas do projeto europeu, com sua habitual tradução em campanhas de comunicação que atingem apenas os já convencidos. Derrotar o populismo exige duas coisas: fatos palpáveis e uma liderança capacitada. Ambas estão em falta no projeto europeu.

Em relação aos fatos, estamos diante de um desafio econômico de primeira grandeza: fazer funcionar a união econômica e monetária a serviço do crescimento e do emprego. Sem isso não será possível sustentar os níveis de bem-estar que caracterizam a Europa como um espaço único no mundo em relação a prosperidade, direitos e liberdades e coesão social. Exatamente porque sabemos que a percepção de um Estado de bem-estar em recuo, a precarização do emprego e o surgimento de novas e profundas desigualdades constituem o principal alimento do populismo temos que avançar decididamente na dimensão cívica e social da UE. Para muitos, o projeto europeu ficou vinculado ao desemprego, à desigualdade, aos cortes, aos baixos salários e às diferenças entre classes sociais e territórios. Enquanto não for rompida essa associação, e a Europa não voltar a ser uma bandeira do progresso social, os populistas continuarão a ter argumentos para dar a um eleitorado ansioso em relação a seu futuro.

O projeto europeu precisa que seus líderes estejam à altura dos desafios que enfrenta

Apesar da urgência em avançar, estão paralisados os planos para completar a união econômica e monetária e dotar o euro dos instrumentos fiscais e governamentais adequados. Resistir, como faz o bloco liderado pela Alemanha, a adotar estímulos para incentivar o crescimento, justo quando as taxas de juros e a avaliação de crédito de entidades como o Banco Europeu de Investimentos permitiriam, e fazer isso apenas com base em preconceitos ideológicos e morais, é uma estratégia suicida.

Em relação à liderança, não podemos fazer mais do que lamentar a falta de visão dos principais líderes europeus, cada um encastelado em seu pequeno canto político. O referendo britânico deu a melhor prova de que tão ou mais ameaçadora que a existência de políticos oportunistas, que não hesitam em manipular os dados e as emoções para construir um relato que desenha a União Europeia como um ser ao mesmo tempo atrofiado e ameaçador (ou um ou outro, caberia exigir caso se esperasse um mínimo de coerência por parte desses novos demagogos), é a existência de líderes que não só titubeiam diante dos populistas como parecem aceitar sua lógica nacionalista e suas regras para o jogo.

Sem crescimento, emprego nem políticas sociais será impossível derrotar o populismo

De Merkel a Hollande, passando por Juncker e Tusk, as ideias sobre como sair desta crise são notáveis por sua ausência. Os populistas vestem a bandeira da democracia, da liberdade e do direito dos povos a decidir sobre seu futuro. Oferecem, como se viu no Reino Unido, uma visão idílica na qual é possível desfrutar de todas as vantagens oferecidas por um mundo globalizado e simultaneamente reivindicar a soberania, fechar as fronteiras e expulsar os estrangeiros. Só que por trás de todo esse marketing não há nada mais que os nacionalismos de sempre, excludentes e chauvinistas, que esboçam sociedades fechadas ao exterior e empobrecidas moralmente.

O projeto europeu precisa se proteger, mas tem que fazer isso de forma inteligente. Deve ser firme, recusando-se a diluir os êxitos alcançados para apaziguar os populistas. Mas tem também que ser flexível, mostrando sua capacidade de relançar o projeto europeu alicerçado em pactos que gerem prosperidade e segurança para os cidadãos.

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