_
_
_
_
Tribuna
São da responsabilidade do editor e transmitem a visão do diário sobre assuntos atuais – tanto nacionais como internacionais

Arrependidos, às urnas!

Acreditei na mensagem de regeneração do Podemos e votei neles. Agora, aprendida a lição, eu me arrependo

Pablo Iglesias.
Pablo Iglesias.ANDREA COMAS (REUTERS)
Mais informações
As marcas do 15-M: os indignados espanhóis e os partidos políticos
Coalizão Podemos-Esquerda Unida tira o PSOE do segundo lugar
Mais eleitores ficarão em casa nas próximas eleições da Espanha

Tomei a decisão, que agora lamento, de votar no Podemos acreditando em sua mensagem de regeneração, transparência e decência. Acreditando que obrigaria, no vilipendiado bipartidarismo, uma reflexão autocrítica do PSOE; que traria uma rejuvenescida vivacidade ao Parlamento; e votos que dariam uma maioria definitiva à esquerda progressista.

Uma esperança irresponsável, diga-se, em vista do que aconteceu. Pablo Iglesias conseguiu o oposto: reavivar as tendências caciquistas dos barões socialistas; sua contribuição parlamentar foi a impostura, os maus modos na Câmara e a mais banal retórica. Finalmente, o imperdoável: ofereceu um balão de oxigênio a Rajoy e sua direita reacionária, que estava na UTI.

É preciso ser muito sectário para aceitar a liquidação do “Estado de bem-estar”; da educação pública e da saúde; dos auxílios às pessoas necessitadas, aos dependentes; da recuperação da memória histórica e da dignidade dos assassinados pelo franquismo; para perdoar a destruição do tecido cultural e o despejo das famílias; para permitir a perpetuação do nacional-catolicismo no currículo escolar; para fechar os olhos às anistias fiscais para os grandes fraudadores ou à corrupção generalizada em toda a gestão pública. É preciso ser muito sectário para tudo isso e aceitar que essa realidade desumana continue, hoje em dia, assolando aos cidadãos deste país por razões estratégicas ignotas.

Continuamos neste pântano do PP de Mariano Rajoy graças ao apoio – impensável – do Podemos.

Essa é a realidade, por mais distorções dialéticas que se apliquem sobre ela. Nem em nossos piores pesadelos muitos dos indignados cidadãos do 15 de Março que ocupamos as praças das cidades teríamos sonhado com esse cenário iníquo. As críticas e ressalvas iniciais àquelas espontâneas mobilizações do 15 de Março em todo o país eram por seu caráter de assembleia popular. Pablo Iglesias o resolveu rapidamente. Aquela espontaneidade foi substituída por um férreo presidencialismo. E a denúncia do poder, da “velha casta” política, ocultava o propósito de criar uma “nova casta” controlada por sua liderança.

Estamos diante do enorme paradoxo de que, para enviar à oposição o PP de Mariano Rajoy, temos de fazer o mesmo com o partido de Pablo Iglesias.

O 15 de Março que capitalizou o Podemos foi um impulso fresco, renovador, popular, que se manifestou nas eleições municipais e regionais. Mas em vez de entendê-lo como o início de um caminho compartilhado, Pablo Iglesias o interpretou como uma projeção personalista. Vaidade e arrogância substituíram a reflexão inteligente.

Quando todas as forças progressistas e reformistas estavam de acordo em expulsar Mariano Rajoy e a corrupção da vida pública, Pablo Iglesias votou contra e salvou o PP de uma derrota certa. A razão era que lhe negava a vice-presidência e alguns ministérios como espólio do acordo. Se este país quiser um Governo de progresso conosco, deve ter pensado, não será de graça.

Agora que as coisas estão mais claras e que a “realidade virtual” parece ter sido aceita, com sua parafernália tecnológica, os cidadãos de esquerda – honrados, sem traumas nem rancores, educados na boa conversação como modo de convivência e não permanentemente vociferantes e mal-humorados – , todos os que cometemos o imperdoável equívoco desse voto emocional, deveríamos nos unir para oferecer a Pablo Iglesias a presidência virtual de um Governo, e a seus ideólogos (liquidados os críticos), todos os ministérios virtuais que desejarem.

Talvez assim nos libertemos do principal obstáculo a este país que aspira a ser uma sociedade decente, aberta e livre.

Para consegui-lo é preciso vencer o desencanto e voltar às urnas com a lição bem aprendida. Temos de afastar a tendência melancólica da esquerda, das forças de renovação e do progresso, a abdicar ante o “mal inevitável” da direita conservadora reacionária que não tem outra estratégia que a de manipular o medo, nem outro horizonte que o de consolidar a selvagem desigualdade econômica e social.

Nossa oportunidade e nosso futuro estão em nosso voto. Cidadãos de bem: às urnas!

Alberto Corazón é pintor, escultor e membro da Real Academia de Belas Artes.

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo

¿Quieres añadir otro usuario a tu suscripción?

Si continúas leyendo en este dispositivo, no se podrá leer en el otro.

¿Por qué estás viendo esto?

Flecha

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo y solo puedes acceder a EL PAÍS desde un dispositivo a la vez.

Si quieres compartir tu cuenta, cambia tu suscripción a la modalidad Premium, así podrás añadir otro usuario. Cada uno accederá con su propia cuenta de email, lo que os permitirá personalizar vuestra experiencia en EL PAÍS.

En el caso de no saber quién está usando tu cuenta, te recomendamos cambiar tu contraseña aquí.

Si decides continuar compartiendo tu cuenta, este mensaje se mostrará en tu dispositivo y en el de la otra persona que está usando tu cuenta de forma indefinida, afectando a tu experiencia de lectura. Puedes consultar aquí los términos y condiciones de la suscripción digital.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_