Editoriais
São da responsabilidade do editor e transmitem a visão do diário sobre assuntos atuais – tanto nacionais como internacionais

Fracasso parlamentar

Não há garantia de que o próximo Congresso acabe com a incerteza na Espanha

Mariano Rajoy numa entrevista coletiva depois de comunicar o Rei que não tem apoio suficiente para tomar posse.
Mariano Rajoy numa entrevista coletiva depois de comunicar o Rei que não tem apoio suficiente para tomar posse.Zipi (EFE)

Como esperado, as conversas do Rei da Espanha com os partidos políticos só constataram o fracasso de qualquer solução possível de governo a partir da atual composição do Congresso. Os partidos, que se acusam mutuamente da responsabilidade por esse final, correrão o risco de se medir novamente nas urnas, sem garantia alguma de que o próximo Parlamento seja capaz de acabar com a incerteza que pesou sobre o atual. Além do desprestígio dos partidos políticos, a principal conclusão do que aconteceu é desoladora para a instituição que representa os eleitores.

Mais informações

Com exceção dos partidos PSOE e de Cidadãos, os principais setores parlamentares não levaram suficientemente em conta que a primeira das obrigações atribuídas pela Constituição ao Congresso é eleger um presidente de Governo. E esse trabalho é tão importante que seu descumprimento torna impossível a continuidade da legislatura. O Parlamento sustenta a legitimidade de todo o sistema político que emana das urnas, e por isso é grave constatar sua impotência, reflexo daquela sofrida pelos grupos que o compõem.

Na legislatura anterior, acusou-se o Governo de Rajoy, com razão, de ignorar as câmeras e diminuir a importância do poder legislativo –uma imputação semelhante àquela lançada contra anteriores Parlamentos de maioria absoluta socialista. Por isso era importante verificar o funcionamento de uma instituição integrada por minorias. A experiência não foi satisfatória: aquelas foram incapazes de chegar a um acordo sobre uma geometria capaz de iluminar e apoiar um Governo, ao modo em que esses problemas são resolvidos em outros países europeus que não têm maiorias absolutas. Por isso a legislatura caminha para um fim abrupto.

À falta se concentrar no essencial, manteve-se a aparência de um regime parlamentar. Tudo começou com pequenos espetáculos: formas imaginativas de acatamento da Constituição, combates pela localização física no plenário e até mesmo um beijo entre Pablo Iglesias e Xavier Domènech numa sessão plenária. Tomar o Parlamento como um palco de programa de televisão indica quão pouco alguns acreditam na instituição como centro do trabalho político. É verdade que o edifício serviu de sede para as negociações para a investidura do chefe de Governo e a ratificação do pacto entre PSOE e Cidadãos. Mas foram tramitadas cerca de vinte iniciativas sobre questões tão sérias como a revogação da reforma trabalhista e a da LOMCE [Lei Orgânica para a Melhoria da Qualidade da Educação, na sigla em espanhol], ou a implementação da “lei 25” de emergência social, sabendo que todas elas cairiam com a legislatura se os grupos parlamentares não conseguissem dar posse a um chefe de Governo.

A Espanha terá que votar novamente, seis meses depois de tê-lo feito. Nenhum problema foi resolvido no período transcorrido e o adiamento das soluções tampouco resolve os existentes. No entanto, é preciso impedir que a crise e o desânimo tomem conta do país: isso obriga todos os partidos a agir de maneira mais responsável antes e depois de 26 de junho.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: