Twitter perde usuários em 2015

Rede social sofre pela primeira vez um retrocesso na criação de novos perfis – dois milhões a menos

EMMANUEL DUNAND (AFP)

O Twitter está em plena reinvenção, mas os investidores e usuários não acompanham o novo caminho. No último trimestre de 2015 – o primeiro depois de Jack Dorsey ser efetivado no cargo de executivo-chefe –, o número de usuários ativos nessa rede social caiu de 307 para 305 milhões. Os analistas esperavam um aumento de até três milhões de usuários, chegando a 310 milhões. Com o resultado aferido, o Twitter fica com o mesmo número de usuários ativos que o Facebook tinha em 2009.

Mas a rede dos 140 caracteres alcançou seus objetivos de faturamento, que era estimado em 710 milhões de dólares (2,79 bilhões de reais) no quarto trimestre, um aumento de 48% em relação ao ano anterior. Trata-se de um resultado que foi muito bem recebido em Wall Street, onde as ações do Twitter fecharam em alta de 4,03%, após uma sessão muito volátil, marcada por fortes altas e baixas.

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Desde a chegada de Dorsey ao comando, o valor das ações do Twitter já caiu 50%. Quando a empresa abriu seu capital, cada título valia 26 dólares. Depois chegou a 54, e manteve-se numa média de 30.

Os resultados financeiros mostram também que o Twitter tem dificuldades para se expandir fora dos Estados Unidos, seu país de origem, que representa 65% do faturamento da empresa, apesar de reunir apenas 20% dos seus usuários.

Ainda por cima, o Twitter perde dinheiro: 521 milhões de dólares em 2015, e 577 milhões no ano anterior.

Em outubro, a companhia demitiu 8% da sua força de trabalho, principalmente desenvolvedores de software. Com esses cortes, veio à tona um dos seus problemas mais profundos, extensivo a todo o Vale do Silício: a falta de diversidade. A maior parte da equipe do Twitter integra uma elite cuja visão do mundo condiciona os rumos do produto, e isso dificulta a penetração numa base de usuários maior. A estagnação no número de contas (excetuando-se determinados setores dos EUA) é a sua maior preocupação. Enquanto o Facebook já supera 1,5 bilhão de usuários, sendo mais de um bilhão deles conectando-se diariamente pelo celular, o Twitter tem problemas para ultrapassar a fronteira dos 400 milhões. E isso que, a seu favor, ele tem o fato de já ter nascido no celular, ou seja, ser a primeira rede social nativa desse formato.

Há um ano, o Twitter comprou o Periscope, à época um produto inacabado. Hoje esse é um aplicativo crucial para a sua estratégia de futuro. Serve para fazer vídeos ao vivo e manter a audiência interessada – algo equivalente àquilo que o Twitter fazia inicialmente com as mensagens de 140 caracteres, mas tendo as imagens em movimento como suporte. Essa é uma aposta tão importante para a empresa que ela escolheu o formato Periscope para apresentar seu balanço e para oferecer uma sessão de perguntas e respostas sobre seus planos futuros.

Os resultados financeiros mostram que o Twitter tem dificuldades para se expandir fora dos EUA

Dorsey se dirigiu aos acionistas para acalmar os ânimos: “Em 2016, minha prioridade é recrutar, ter os melhores talentos. Marketing, engenharia e design são chaves”, afirmou. Entre os produtos a serem impulsionados, o vídeo tem lugar prioritário, junto com a timeline, que é a página inicial do Twitter. “Graças ao que acabamos de apresentar, já não será mais preciso publicar várias meses a mesma mensagem para garantir que ela seja vista. O que é importante virá à luz.”

“O ao vivo é o mais importante, especialmente em vídeo. Vamos dar as melhores ferramentas para os criadores e geradores de influência”, acrescentou o executivo.

Ele se mostrou otimista quanto aos dois grandes eventos deste ano. “Os anos eleitorais [nos EUA] são fantásticos para nós. E também os Jogos Olímpicos.”

Dorsey precisou responder a uma pergunta que, por seu semblante, já era esperada, apesar de ser desagradável: como ele organiza sua agenda para ser ao mesmo tempo executivo-chefe do Twitter e do Square? “Tenho uma fórmula flexível. Vou atendendo aquilo que exige mais atenção, e estou conectado com os líderes de ambas as empresas.”

Os cargos de direção passaram por mudanças no último mês, com a saída dos responsáveis por mídia, recursos humanos e engenharia. Entretanto, a despedida mais dolorosa para a empresa de San Francisco foi a de Kevin Weil, seu diretor de produto. Em sua despedida, ele alegou a necessidade de passar mais tempo com sua família, mas dois dias depois foi contratado pelo Instagram, empresa pertencente ao arquirrival Facebook. O Twitter estaria cogitando medidas judiciais contra Weil por causa da quantidade de informações privilegiadas que ele leva consigo. Kayvon Beykpour, diretor do Periscope, ocupará seu lugar na direção do Twitter. Ainda não foram anunciadas as mudanças no conselho da empresa, onde investidores pedem pelo menos duas substituições.

Nos últimos dias, o Twitter se esforçou em renovar o produto a fim de impulsionar a ação. Em menos de uma semana, ele lançou um novo suporte publicitário em vídeo para que os anúncios sejam vistos no centro da tela do celular, fechou 125.000 contas associadas ao Estado Islâmico e, com certa polêmica prévia, lançou um algoritmo que oferece em primeiro lugar o conteúdo mais relevante segundo os interesses de cada perfil.

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