Editoriais
i

O ‘crash’ do petróleo

As preocupações sobre a economia chinesa afundam os preços e sacodem as Bolsas

Painel informativo da Bolsa de Madri que mostra o valor do prêmio de risco em alguns países da zona do euro.
Painel informativo da Bolsa de Madri que mostra o valor do prêmio de risco em alguns países da zona do euro.Emilio Naranjo (EFE)

MAIS INFORMAÇÕES

Seria excessivo interpretar as convulsões das Bolsas mundiais como o efeito direto da queda do preço do petróleo. Os temores que afetam a economia global, causa final das frequentes quedas (na terça-feira os mercados europeus caíram entre 2% e 3% em mais um dia desastroso), têm raízes mais profundas; o crash dos preços do petróleo é apenas uma ramificação perigosa que pode ter consequências danosas para a estabilidade de vários países produtores.

O núcleo dessa crise está na China. Os mercados de investimento entendem que Pequim não está sendo capaz de recuperar o nível de crescimento suficiente para sustentar o emprego; o dinheiro está fugindo do país, a ponto de que algumas estimativas particulares quantificam a fuga de capitais em cerca de 140 bilhões de dólares (cerca de 575 bilhões de reais) em dezembro; as reservas chinesas de divisas caíram cerca de 500 bilhões em 2015.

A crise chinesa está semeando o pânico nas expectativas de crescimento global, como divulgou na terça-feira — com muita moderação — o Fundo Monetário Internacional. A cadeia causal já está formada e só poderá ser rompida se Pequim demonstrar que pode reconduzir sua economia a taxas superiores a 9%, se for capaz de construir um mercado de ações relativamente estável e se não lhe escapar a desvalorização do renminbi.

O crash do petróleo é um efeito colateral dessa crise, mas com efeitos devastadores. Desde agosto se pode observar que existe uma correlação praticamente exata entre a queda da moeda chinesa e a queda do preço do brent. É verdade que a queda dos preços pode ser explicada por fatores conjunturais: o excesso de oferta (embora não explique a brusca queda dos preços), a entrada do Irã no mercado da produção (por enquanto modesta), a vontade política da Arábia Saudita de punir países como Rússia e Venezuela ou a tática diabólica de baixar os preços adotada pelos sauditas para acabar com o fracking, que acabou por ser irreversível.

Mas o fator decisivo é que no curto prazo ninguém espera a recuperação chinesa nem a do grupo de países emergentes. Com um agravante que faz do naufrágio do petróleo um pesadelo estratégico de curto prazo: a OPEP perdeu a capacidade de controlar a produção e, por conseguinte, os preços. Os países consumidores organizaram políticas de economia de energia que, mesmo a duras penas, estão dando resultados; o inverno não está sendo rigoroso e o consumo baixou; mas a OPEP não pode modular a produção, porque seus membros não sobreviveriam com quotas menores de mercado.

Provavelmente o pior ainda está por vir. Sem necessidade de recorrer ao catastrofismo daqueles que sustentam que está acontecendo um terremoto pior do que o crash de 2008, é preciso notar que vários países produtores já estão enfrentando sérias dificuldades. É muito provável que tais dificuldades os levem a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (o caso mais evidente é a Venezuela). Se a crise da China e sua perigosa ramificação do crash do petróleo não for corrigida, a economia mundial corre o risco de uma desaceleração brusca e perigosa.

Arquivado Em: