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ANÁLISE

Para as mulheres que querem tudo

Fico emocionada que haja mulheres com a coragem de se colocar no centro das atenções para que o que ainda não é habitual seja visto. Para que os direitos das mulheres sejam objeto de debate

A deputada Carolina Bescansa com o filho, no Congresso.
A deputada Carolina Bescansa com o filho, no Congresso. EFE

Acontece que, para que no Congresso todas as atenções se concentrem nos assuntos que afetam as mulheres, é preciso armar uma polêmica. Seja por levar um bebê ao plenário e amamentá-lo, como fez na quarta-feira a deputada do Podemos, Carolina Bescansa, ou com o peito nu, como o Femen. Não são elas quem questiono, mas aqueles que as criticam porque partem do princípio de que não se deve continuar lutando. Mas se o recém-eleito presidente do Congresso, Patxi López, a esta altura ainda tem que lembrar Clara Campoamor [1888-1972, política espanhola e pioneira da militância feminista] e fazer um balanço das vítimas da violência machista em seu discurso é porque nem tudo foi alcançado.

Fico emocionada que haja mulheres com a coragem de se colocar no centro das atenções para que  o que ainda não é habitual seja visto. Para que os direitos das mulheres sejam objeto de debate. Bescansa quis fazer a foto? Claro. Assim como todo o espectro parlamentar. Como os ambientalistas que vão à Câmara de bicicleta, os que colocam uma mordaça na boca ou falam catalão na tribuna para serem repreendidos e expulsos. Assim é a política.

As críticas à deputada do Podemos foram dirigidas a questionar que ela defendeu com o gesto a conciliação entre trabalho e filhos, a que já está resolvendo “seu” problema, pois há berçário no Congresso, ao fato de levar o bebê para o trabalho, quando a maioria não pode fazê-lo. Mas acredito que o que ela salientou, provavelmente sem querer, não é a conciliação em si, mas algo que afeta todas as mulheres que decidem ser mães: em algum momento têm de escolher entre a profissão ou os filhos. E a escolha de Bescansa é bem clara: não quer perder nenhuma das duas coisas. Não é novidade que ela vá a todos os lugares com seu filho. Já o fazia nos comícios; respeitemos ao menos a coerência.

A diferença é que este caminho até agora não tinha sido visto publicamente. Mas é tão legítimo como o da vice-presidenta do Governo Soraya Sáenz de Santamaría quando decidiu não renunciar ao cargo para o qual havia se preparado a vida toda. Ou o de Elvira Fernández, Viri, esposa de Mariano Rajoy, que interrompeu uma carreira de executiva para cuidar de seus dois filhos em La Moncloa. Ou o de Carme Chacón, que compatibilizou a criação de seu bebê com o cargo de ministra da Defesa.

Ouvi críticas à deputada do Podemos na base de que ela “pode” levar o bebê para o trabalho e tê-lo ao lado. Exatamente. Nós escolhemos quando podemos. Há milhares de mães que, se quiserem trabalhar, dependem de avós, pais desempregados ou de ter dinheiro para pagar uma babá. Ou que, tendo a logística resolvida, não conseguem suportar a pressão no trabalho ou sentem que estão abandonando seus filhos. Porque, infelizmente para todas elas, a Espanha e muitos locais do mundo continuam no fim da fila em matéria de conciliação entre trabalho e filhos.

E assim, só escolhem aquelas que podem. Mas o fato de que haja berçários não nos obriga a deixar as crianças num deles se escolhemos criá-las com apego. Que tenhamos filhos não nos obriga a nos ocupar deles durante as 24 horas do dia se temos ambição profissional. O desejável é que as mulheres (e os homens) possam escolher. Entre ser mãe em tempo integral ou não. Além disso, existe o caminho intermediário, aquele que Bescansa escolheu. E em nome das que queriam ter tido tudo e não puderam, agradeço à deputada do Podemos por fazer o que tem vontade.

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