Astronomia

A maior chuva de meteoros do ano

2015 se despede com um espetáculo das Gemínideas. Entenda o que é o fenômeno

Composição da chuva de estrelas fugaces Gemínidas sobre o vulcão Teide (Tenerife, Ilhas Canárias), em 2013 / J.C. CASADO - IAC.

No espaço interplanetário podemos encontrar milhões de partículas de pó e gelo, assim como pequenas rochas, que são como restos fósseis da formação de nosso sistema solar. Quando um desses objetos, chamados meteoroides, entra na atmosfera terrestre em alta velocidade, o atrito com o ar provoca um aumento da sua temperatura, e os materiais que o compõem se sublimam (passam do estado sólido diretamente para o gasoso), dando lugar ao traço luminoso popularmente conhecido como estrela cadente, mas que a astronomia denomina de meteoro. Se o tamanho do meteoroide for suficiente para que ele não se desintegre totalmente antes de chegar à superfície terrestre, então falamos em meteorito.

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Grande parte dos meteoros que observamos numa noite qualquer –os chamados esporádicos– não guardam qualquer relação entre si. Em determinadas épocas do ano, entretanto, a Terra atravessa zonas onde a densidade de meteoroides é maior. Falamos então de uma chuva de meteoros (ou inclusive tempestade, se a sua atividade chegar a milhares de estrelas cadentes por hora), com duas características principais: 1) a atividade, que pode se prolongar por semanas, apresenta um pico durante algumas horas; 2) se extrapolarmos as trajetórias dos meteoros, eles parecem proceder de um mesmo ponto do céu, chamado radiante. Trata-se de um efeito de perspectiva semelhante ao que ocorre quando as margens de uma estrada reta parecem convergir à distância, já que as trajetórias das partículas na atmosfera terrestre são paralelas.

As chuvas de meteoros recebem o nome da constelação onde se localiza o radiante (acrescentando-se, em caso de confusão, a letra grega da estrela mais próxima). Assim, falamos de Persêidas, Leônidas e Gemínideas (ou Geminidas), com radiantes em Perseu, Leão e Gêmeos, respectivamente. Para o ano 2015, o máximo de atividade das Geminídeas estava prevista para as 15h desta segunda-feira (horário de Brasília). Porém, como no Brasil é luz dia, o início do espetáculo astronômico pôde ser visto na madrugada de domingo e segunda. Já na Europa, a noite de 14 para 15 de dezembro –especialmente depois do pôr-do-sol do dia 14 – será o melhor momento para a sua observação.

Em determinadas épocas do ano a Terra atravessa zonas onde a densidade de meteoroides é maior: falamos então da chuva de meteoros

A maior parte das chuvas tem origem cometária. Os cometas são corpos de pó e gelo cujo movimento se caracteriza pela excentricidade de sua órbita e por sua alta inclinação com relação ao plano da eclíptica (plano definido pela órbita terrestre), chegando a se aproximar muito do Sol e retornando em seguida aos confins do Sistema Solar, onde permanecem congelados. À medida que se vão aproximando de seu periélio – maior aproximação do Sol –, o calor sublima os gases da superfície, como gêiseres, arrastando também o pó, que se mantém e, com os anos, se distribui na órbita do cometa. Quando a Terra cruza essa órbita, choca-se com as partículas de poeira – os meteoroides – que dão lugar às chuvas de meteoros.

Assim, por exemplo, a órbita do célebre cometa Halley (1P/Halley) cruza a terrestre em dois pontos diferentes, por isso dá lugar a duas chuvas de meteoros distintas, as η-Aquáridas, em maio, e as Oriônidas, em novembro (ver tabela 1). O caso do Halley não é comum se o compararmos com os demais formadores das chuvas, pois normalmente as trajetórias do cometa e da Terra só se cruzam em uma ocasião, como ocorre, por exemplo, com as Leônidas, uma chuva gerada pelo cometa 55P/Tempel-Tuttle.

Do ponto de visto astronômico, as Geminídeas são uma chuva única: sua origem não é um cometa, e sim o asteroide Phaeton

A grande maioria de chuvas de meteoros pode ser classificada como cometárias, embora algumas tenham origem asteroidal. Assim, as Geminídeas, as Quadrântidas e as Ariétidas têm como origem os asteroides 3200 Phaeton, 2003 EH1 e 1566 Icarus, respectivamente. A origem das Geminídeas, na verdade, era um mistério até que as sondas solares STEREO (NASA) confirmaram a aparição de uma pequena cauda no asteroide 3200 Phaeton (em sua máxima aproximação ao Sol, ou periélio, ver Lewitt, Li & Agarwal 2013), único objeto que se movia na mesma órbita que a nuvem de meteoroides que formava as Geminídeas. Desde então, o Phaethon 3200 ficou conhecido como “cometa rochoso”, ou seja, um asteroide que se aproxima muito do Sol, possibilitando assim que se forme uma cauda pela ruptura da superfície, devido ao gradiente de temperatura dia/noite (pode alcançar os 1.000 K, ou 727oC). No caso do Phaethon, o periélio é de apenas q=0,14 UA, ou 21 milhões de quilômetros (a distância mínima de Mercúrio ao Sol é de 46 milhões de quilômetros).

Nos dois últimos anos, o espetáculo das Geminídeas não decepcionou. No ano passado, com uma atividade que em alguns momentos chegou a superar os 150 meteoros por hora (ZHR, taxas horárias zenitais, na sigla em inglês, ver Geminídeas 2014), as Geminídeas foram, mais uma vez, a chuva mais espetacular do ano, apresentando uma atividade superior às Persêidas (ver Persêidas 2014). No portal sky-live.tv, a chuva de estrelas cadentes será transmitida ao vivo das localidades espanholas de Tenerife, La Palma, Fuerteventura (todas nas ilhas Canárias) e Cáceres (Estremadura).

Miquel Serra-Ricart é astrônomo do Instituto de Astrofísica das Canárias (IAC), doutor em Ciências Físicas e Administrador do Observatório de Teide. Participa do Grupo de Pesquisas do Sistema Solar do IAC, dirigido por Javier Licandro.

Miguel Rodríguez Alarcón é primeiranista da graduação de Física da Universidade Autônoma de Madri. Foi ganhador do concurso Rota das Estrelas 2015 – Canárias e do Prêmio da Fundação DISA para a Excelência Acadêmica (edição 2015).

A chuva de estrelas das Geminídeas é maior atividade de meteoros do ano de 2015

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