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Na periferia de SP, maioria discorda de que “bandido bom é bandido morto”

Pesquisa mostra que moradores de áreas violentas são contra mais armas nas ruas

Estudo da Unifesp mostra pedido por maior policiamento e avaliação de que PM é racista

Um dos mortos na chacina de Osasco.
Um dos mortos na chacina de Osasco. Nivaldo Lima

Questões de segurança pública que envolvem a sociedade brasileira são alvo frequente de pesquisas de opinião, mas poucas delas se concentram na periferia das grandes cidades, onde a violência explode. Um recente grupo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) quis romper essa lógica, deslocando-se a Heliópolis, Capão Redondo, Perus, Guaianases e Osasco – localidades com altos índices de criminalidade na Grande São Paulo – para escutar a voz de homens e mulheres a partir de 16 anos sobre o tema.

O estudo, comandado pela professora de Relações Internacionais Esther Solano, abordou, de um lado, a percepção de quase 600 pessoas sobre o ambiente em que vivem e, de outro, possíveis soluções para problemas relacionados a bandidos, polícia, políticos, leis etc. Segundo mais de 93% dos entrevistados no fim de outubro, são necessárias ações mais duras para combater o crime nesses bairros e, para isso, mais de 90% delas é a favor de se aumentar a presença da polícia na rua. Pensando nesse fim, cerca de 74% inclusive votaria num político que fosse mais linha dura na luta contra o crime.

Um discurso que ecoa, em grande parte, as ansiedades da população brasileira como um todo é, no entanto, pontuado por sensações próprias de quem está familiarizado com ações policiais truculentas (como a chacina que resultou no assassinato de 19 pessoas em Osasco em 13 de agosto), mortes e armas. Na contramão da frase “bandido bom é bandido morto”, que, segundo pesquisa recente do Instituto Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, conta com a simpatia de metade da população (geral) das grandes cidades brasileiras, pouco mais de 60% são contrários à ideia de que a polícia deva matar bandidos.

Da mesma forma, vetando a proposta da chamada bancada da bala no Câmara de Deputados de liberar o porte de armas nas ruas de todo o país, quase 74% dos entrevistados diz que não se sentiria mais seguro portando uma arma – justamente o argumento em que se baseia o projeto de lei que quer praticamente acabar com o Estatuto do Desarmamento. A maioria, porém, apoia a redução da maioridade penal (74,7%).

Dos escutados (57,3% homens e 42,5% mulheres), a maioria parda (40%) e com ensino médio completo (37,2%) e renda inferior a 1.576 reais, 60% já teve (ou conhece alguém que teve) problemas policiais e acha (66,7%) que ela é violenta. Eles reconhecem a polícia como racista (62,6%) e acham (90,1%) que a lei não é igual entre ricos e pobres.

“Esse projeto nasceu da conclusão de que não é comum a universidade deixar seu ambiente elitista para ir à periferia. Mas também da inquietação que sentimos ao ver dados do Datafolha como os que dizem que para muitos brasileiros ‘bandido bom é bandido morto’”, explica Esther Solano. Para a socióloga, “o discurso punitivo está muito forte no país, em grande parte graças à mídia, com programas como Brasil Urgente”, ela opina, em referência ao programa na TV Bandeirantes de José Luiz Datena, que pretende concorrer à prefeitura de São Paulo em 2016.

Para Jurema Werneck, integrante da ONG Criola, é fato que a cultura da violência impera hoje no Brasil, porém o que as respostas da pesquisa da Unifesp revelam, de certo modo, é apenas senso comum. “Contra a violência, é claro que a solução é dureza e polícia. Essa não é uma invenção da periferia, é sua própria experiência. Quem vive lá não é alienado, pensa como quem vive nos Jardins. A diferença é que é violentada todos os dias, e as pessoas dos Jardins não”, analisa. E conclui: “O interessante nesse caso são questões como o porte indiscriminado de armas, o racismo da polícia e a lei de um jeito para ricos e de outro para pobres, que mostram justamente a voz da experiência”.

Jurema, que é médica e atuou em favelas do Rio de Janeiro através de programas da Prefeitura, acredita que estudos como esse – ao se concentrar em áreas em que direitos humanos são constantemente ameaçados – revelam o lado mais nefasto da violência. “Minha experiência é ver que diante das armas, do sangue e dos corpos no chão as pessoas adoecem mais, ficam fisicamente mais doentes. Emocionalmente, nem falar.” Ela lê as opiniões da pesquisa relacionadas a mais polícia nas ruas e políticos mais duros como um pedido básico de segurança. “Mas o que as pessoas querem é uma polícia ideal, que cuide de fato. Como isso nunca existiu, a construção de uma mentalidade punitiva vem crescendo no Brasil há muito tempo. É nesse contexto que o discurso de um Datena ou de um Bolsonaro têm ressonância”, avalia a ativista.

Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, está de acordo: “Há 40 anos percebemos a prática de extermínio de jovens negros na periferia por policiais. Só no ano passado, foram 976 mortos – um recorde histórico, que no entanto não é identificado pela sociedade como um problema”. Em vez disso, são acolhidas e difundidas “soluções populistas de confinamento ou eliminação dos suspeitos, vistas como mágicas e que nos mantém dentro de um absurdo círculo vicioso”. Segurança, em resumo, é uma demanda da periferia, sim, como é da cidade em geral. Mais violência, defende o especialista, nunca.

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