A desgraça de treinar o Real Madrid

Falamos de um trabalho bem pago, mas que acarreta uma busca constante da infelicidade

Rafa Benítez em ação no Real Madrid x Levante.
Rafa Benítez em ação no Real Madrid x Levante.Ballesteros (EFE)

O Real Madrid é dirigido sem respirar, ao sabor da maré, com a água no pescoço. Parece uma forma cômoda de se trabalhar como treinador, em um primeiro olhar, mas é preciso se acostumar desde jovem para achar prazeroso tantos aborrecimentos. Não existem técnicos nascidos para viver prazerosamente no Real, como em um casamento exemplar no qual se colocam toalhas limpas todas as semanas, e o casal se diz “te adoro” a todo instante. Nesse clube treina-se perigosamente, a ponto de mandar tudo para o inferno. Terá ocasião para viver tranquilo no dia em que cair para a Segunda Divisão. Nem mesmo o sucesso permanente é desculpa para que o ambiente não seja um caldeirão, e não se possa despedir o treinador porque ele faz muito bem seu trabalho.

A temporada se torna asfixiante até mesmo antes que a contratação do técnico se concretize. Sempre existirá alguém para dar uma patada sem mais nem menos, e é preciso suportar. Em sua primeira entrevista o treinador do Real Madrid já precisa explicar seu modo de ser, e se com esse caráter, e sua ideia de futebol, poderá agradar todos os jogadores, o presidente, o sócio, o torcedor, toda a imprensa, o pessoal do bar, diferenciando os sóbrios dos ébrios, e o Twitter, onde, de alguma forma, todos estão. De modo que, se tiver sorte, sai com dois botões a menos na camisa.

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Naturalmente, até no Real Madrid, vive-se algumas semanas tranquilas por ano. São as piores. Intranquilizam. Em metade dessa calma é possível escutar um tique-taque, que às vezes é o relógio de uma bomba. Sob um grande silêncio o treinador do Real sempre ouve vozes. Prestem atenção nos dias em que o Campeonato Espanhol dá lugar aos jogos da seleção. São as condições perfeitas para não acontecer nada, e surgiram os problemas com Benítez, com Sergio Ramos, com Bale, com Benzema, com Modric e com outros que não me lembro, mas que também tiveram problemas.

Falamos de um trabalho bem pago, que permite alternar entre a roupa de treino e tênis coloridos e o terno e gravata, mas que acarreta uma busca constante da infelicidade. O técnico vive à deriva, em meio ao oceano, agarrado em uma boia de madeira. Não percebe, mas o naufrágio é um lugar seguro. É preciso estar maluco para querer ser feliz no banco do Real Madrid. Jardiel Poncela já alertou que na vida poucos sonhos tornam-se realidade; a maior parte deles fica para trás. Esse é um. O que não impede que todo técnico queira ser um infeliz no banco do Real.

Todo dia, quando o técnico chega no treino, a Cidade Esportiva está em polvorosa. Não é um problema, na realidade, mas um trâmite, certo estado natural das coisas. Os problemas lentamente entram nos eixos, para que no dia seguinte possa estar tudo de pernas para o ar novamente e os acontecimentos sigam seu caminho natural. No fundo, o Real Madrid não é um clube como outro qualquer, mas o próprio fogo brincando de ser uma equipe de futebol.

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