Seleccione Edição
Login
ANÁLISE

O Estado é Ela

Governo argentino tem o triste privilégio de deixar um país com 10 ou 15 milhões de pobres

Imagem distribuída pelo Ministério de Desenvolvimento Social sobre Cristina Kirchner. Ampliar foto
Imagem distribuída pelo Ministério de Desenvolvimento Social sobre Cristina Kirchner.

O surpreendente é que, em países como este, pessoas que afirmam ser de esquerda continuem defendendo o Governo. O grupo —familiar, em sua maioria— que governa a Argentina há 12 anos tem, agora que está de partida, algumas conquistas para mostrar; tem também o triste privilégio de deixar um país com 10 ou 15 milhões de pobres. E se alguém fica indignado com a imprecisão do número, deve ficar indignado com eles: ninguém sabe se a pobreza atinge 20 ou 30 por cento da população, porque há anos o Governo peronista deixou de medi-la para não ter de reconhecê-la, como deixou de medir a inflação para poder maquiá-la.

O que surpreende é que, em países como este, pessoas que afirmam ser de esquerda não queiram ver que esse Governo, que consideram de esquerda, fez com que os pobres de que tanto falam se tornassem cada vez mais dependentes. Apoiado por 10 anos de receitas extraordinárias devido aos preços extraordinários da soja, o peronismo selou a marginalização desses milhões que não recebem saúde decente nem educação de verdade nem empregos dignos nem esperança de consegui-los, por isso dependem das esmolas do Estado: uma verba miserável para que não morram de fome e continuem votando. Chamam isso de redistribuição e é totalmente o oposto: a melhor maneira de preservar as injustiças. O clientelismo é a forma peronista de democracia — e, portanto, nas eleições os votos são trocados por sacolas de comida.

É surpreendente e deveria nos surpreender, mas sabemos que os argumentos não têm muita utilidade. Vivemos em tempos de imagens, símbolos. Os que passaram meses sem entender as notícias que contavam que o Mediterrâneo se afundava com cadáveres rasgaram suas vestes diante da foto de um garotinho; o viram, se emocionaram e coisas aconteceram: um dia será preciso refletir sobre a utilidade da palavra neste mundo estranho.

Enquanto isso, talvez essa imagem peronista sirva para que pensem sobre esse Governo que defendem. Está em uma revista para crianças de 4 anos distribuída pelo Ministério do Desenvolvimento Social, liderado por Alicia Kirchner, cunhadíssima. É apresentada como um quebra-cabeças simples: você tem que juntar a parte inferior e a superior de três imagens. "Junte o quebra-cabeças para montar os desenhos e encontrará a Família, a Comunidade e o Estado trabalhando juntos para que seus direitos sejam respeitados", diz, com ressonâncias desconfortáveis, a instrução para as crianças. E, então, as imagens: a Família é uma família clássica, nuclear; a Comunidade é o edifício —sem pessoas— de um centro de assistência social; o Estado é Ela.

A caricatura a mostra quase engraçada: Cristina Fernández de Kirchner está sorridente, ruivinha, atravessada pela faixa presidencial para que ninguém duvide. A mensagem é eloquente: crianças de 4 anos, atenção, o Estado é esta senhora. Não é a soma de um governo, um parlamento, uma justiça, hospitais, escolas, professores, enfermeiros, vários funcionários públicos, símbolos, histórias; não, é ela. L’État c’est moi é uma frase famosa, mas, infelizmente, dita por um dos reis mais absolutistas da história: Luís XIV da França. Nesse pequeno desenho para crianças, a identificação entre Estado e líder político, na melhor tradição autoritária, também se faz absoluta. Fico surpreso —ainda me surpreendo — que pessoas que afirmam ser de esquerda tolerem isso.

A menos que continuem acreditando que ser de esquerda é promover o culto à personalidade no melhor estilo Stalin, Mao, Castro, Kim Il Sung. Ou que, empenhados em destruir as tentativas de deixar para trás esses estigmas e construir novas opções, lhes convenha insistir que a esquerda é isso.

MAIS INFORMAÇÕES