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MANEIRAS DE VIVER
Coluna
Artigos de opinião escritos ao estilo de seu autor. Estes textos se devem basear em fatos verificados e devem ser respeitosos para com as pessoas, embora suas ações se possam criticar. Todos os artigos de opinião escritos por indivíduos exteriores à equipe do EL PAÍS devem apresentar, junto com o nome do autor (independentemente do seu maior ou menor reconhecimento), um rodapé indicando o seu cargo, título académico, filiação política (caso exista) e ocupação principal, ou a ocupação relacionada com o tópico em questão

Adúlteros, porém leais

Como é difícil amar alguém por muito tempo, construir uma convivência duradoura, que não acabe se tornando tóxica de alguma forma

Rosa Montero

Acredito que os piratas da Impact Team que revelaram os nomes de 34 milhões de clientes do Ashley Madison, site que promove encontros entre pessoas casadas, vão continuar a se sentir orgulhosos do que fizeram, porque a imbecilidade costuma ser pertinaz. Esses talibãs da virtude conjugal dizem que cometeram essa aberração por razões éticas e para que o Ashley Madison fosse fechado. Eu não sei se a empresa vai fechar, mas o que realmente conseguiram foi destroçar estupidamente a vida de milhões de pessoas; já se sabe que os dados foram coletados por grupos criminosos, que agora estão ameaçando e chantageando as pessoas.

Me importa muito mais a lealdade do que a fidelidade sexual

Por dinheiro, é claro, mas também por influências e favores. Porque há adúlteros em todos os setores sociais, desde organizações de alta segurança como o Pentágono até partidos políticos. Na Espanha, por exemplo, é sabido que há três mulheres e dois homens que se tornaram clientes com os endereços virtuais do Congresso Nacional (não poderiam ser mais idiotas, diga-se de passagem). Enquanto escrevo este artigo e ele é publicado, não se conhecem seus nomes e espero que continue assim. Na Espanha há 800.000 usuários do Ashley Madison: ao que parece, somos um dos países mais infiéis. Só em Madri há 135.000; em Barcelona, 68.000. São Paulo ganha das duas: é a cidade com mais inscritos no site no mundo. Imagino o medo que devem estar sentindo agora quase todas essas pessoas. Não me parece justo.

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Reações à infidelidade

A vida é infinitamente complicada e uma das coisas mais complicadas da vida são as relações sentimentais e sobretudo esse conflito permanente que é o casal. Que difícil é amar alguém ao longo do tempo, construir uma convivência duradoura que não acabe se tornando tóxica de alguma forma. Amar sem cair na rotina, sem atribuir ao outro nossas próprias frustrações, sem devorar, sem tiranizar, sem empobrecer-se, sem se entediar. É algo tão tremendamente difícil que com os anos você vai compreendendo que cada um tenta seguir adiante como pode. Não há regras de sucesso, o que serve para um pode não servir ao outro, então não serei eu a determinar o que se deve fazer; se alguém acredita que para ser feliz é necessário um compromisso absoluto de fidelidade, então está ótimo.

No entanto, pessoalmente acredito que se dá uma importância excessiva ao sexo. E com frequência lamento ver como uma simples aventura que na realidade não foi nada, uma típica escapadinha, arruína casais com muita luta e muito amor nas costas. Na verdade, não acredito que o ser humano tenha nascido para a monogamia. Pelo menos, não para a vida toda. Há estudos evolucionistas que afirmam que a janela de fidelidade de nossa espécie abrange uns quatro ou cinco anos, que é o tempo necessário para parir um filho e para que ele se torne mais ou menos autônomo.

Tenham razão ou não, o certo é que a imensa maioria dos humanos sente desejos adúlteros pelo menos uma vez na vida. Muitos os realizam; segundo um estudo da Nordic Mist (2006), na Espanha há 37% de homens e 35% de mulheres que foram infiéis a seus cônjuges em algum momento. Outros tantos não se atrevem a levar esses desejos à prática, alguns por respeito ao cônjuge e a maioria, acredito, por medo de serem descobertos (se fosse garantido a 100% que ninguém jamais saberia, quantos se absteriam?), mas, na verdade, não vejo muita diferença entre seu cônjuge ter um amante casual e não tê-lo, mas fazer amor com você sonhando com outra pessoa. Ou, melhor dizendo, prefiro a primeira opção. Realmente, estou convencida de que com frequência essas relações extraconjugais passageiras melhoram a relação principal. Renovam, colocam em evidência, dão mais vida e mais valor. Tenho a suspeita de que quem reprime com frequência seus desejos adúlteros acaba despejando essa frustração e esse aborrecimento sobre seu cônjuge.

Há adúlteros em todos os setores sociais, desde organizações de alta segurança como o Pentágono até partidos políticos

Para mim, no fim das contas, importa muito mais a lealdade do que a fidelidade sexual. Me parece maior traição criticar amargamente o cônjuge pelas costas, com os amigos; ou nunca levar suas opiniões em conta; ou expô-lo ao ridículo publicamente; ou não o apoiar em um momento de verdadeira necessidade. Que fique claro que não estou advogando que se tenha relações paralelas por anos e anos. Ou melhor, já disse que cada um sabe o que faz, mas, convenhamos, para mim esse tipo de cônjuge não serviria. E também acredito que se a todo instante você tem 1.000 amantes, a relação principal não deve estar funcionando nada bem. Mas se você cuida dessa relação principal acima de tudo; se é discreto; se não expõe seu cônjuge, qual o problema de dormir com alguém alguma vez? Amigos e amigas que acabaram de descobrir uma infidelidade, por favor, pensem um pouco. Não joguem fora tudo o que vocês têm, tudo que passaram juntos, todo o carinho.

@BrunaHusky

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