Transexualidade

“Sou Sara”

"Meu nome é Sara, tenho 37 anos, sou uma mulher trans, pansexual, mãe de duas crianças"

Daniela (à esquerda) e Sara (à direita).
Daniela (à esquerda) e Sara (à direita).Arquivo pessoal

Sara* é companheira de Daniela há quase seis anos. Elas vivem juntas em Buenos Aires com os dois filhos. Em depoimento, ela conta seu processo de transição e como vivem juntas uma vida diferente aos padrões estabelecidos pela sociedade.

“Meu nome é Sara, tenho trinta e sete anos, nasci em Buenos Aires, sou uma mulher trans e pansexual, o que significa que posso me sentir atraída sexualmente por pessoas de qualquer gênero. Sou mãe de duas crianças, fruto de uma relação lésbica e estável com minha companheira Daniela, mulher cisgênera [satisfeita com o gênero ao qual foi designada ao nascer] com quem divido a vida faz seis anos, mas conheço há quase vinte. Estou em transição, com a ajuda de hormônios, há quase dois anos.

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Por quase 35 anos da minha vida fui vista e reconhecida como um homem, apesar de saber desde os cinco que eu sou mulher, muito antes do meu desejo sexual aflorar. E a transgeneridade é uma experiência que não está diretamente ligada à sexualidade. Mas o que é exatamente ser uma mulher trans e por que é necessário me identificar assim?

Ser uma mulher trans significa que não tenho conformidade suficiente com o gênero ao qual fui designada ao nascer e me identifico mais com o feminino. Essa não ­conformidade pode levar algumas de nós a transicionar, ou seja, fazer a transição de um gênero para outro. Mas nem sempre, e isso não invalida a transgeneridade como experiência única e real.

Eu existo e me identifico como mulher trans para que esse termo possa ser esticado e usado por outras pessoas como eu, que navegam pelo espectro de gênero de forma mais fluída, mas se identificam primordialmente com o feminino.

Existe um tabu tão grande em torno da transgeneridade que eu passei minha infância esperando a puberdade para me tornar mulher naturalmente, pois tinha a plena convicção de que o desejo era a força motriz do ser humano, e alguém que sempre soube que era mulher, não poderia crescer para ser outra coisa.

Cresci no Brasil. Quando completei meus 12, 13 anos, meu corpo se tornou tudo que eu não queria. Junto com a puberdade vieram a depressão e o início dos pensamentos suicidas. Não há nada pior do que se sentir uma estranha em teu próprio corpo, não ter paz.

E onde estavam as pessoas trans que eu poderia ter me identificado ao crescer? Marginalizadas. Eu teria amado ter visto mais pessoas trans na televisão, nos quadrinhos e nos livros de história. A chacota era a única coisa para o que as pessoas trans serviam na grande mídia. Eu teria amado escutar que o ser menino e o ser menina são construções sociais, que gênero é representação, performance, atuação, se preferir.

O dogma de gênero lança raízes profundas na psique de qualquer um e a marginalização das pessoas trans me deixou numa bolha por mais de vinte anos. Foi nessa época que tive meu primeiro contato com as travestis que têm que se prostituir na rua. De repente eu descobri o que é que acontecia com gente como eu. Eu não era a única.

Eu teria amado escutar que se você se descobre trans, você não vai precisar se prostituir para conseguir sobreviver. Que a expectativa das trans supera os 30 anos de idade na média. Que você não vai ser expulsa de casa. Que não existe nenhuma entidade julgando você. Que a medicina e a psicologia não estão contra nós, mas nos ajudando, e que a sociedade estava pronta para abraçar a diferença e a diversidade. Eu teria amado ouvir que está tudo bem em ser você mesma, que você não tem que ceder, que você pode viver do jeito que você é e que não tem que deixar ninguém te dizer o contrário.

Mas a verdade é que a marginalização constante das identidades trans, produto da sociedade machista cis-­hetero­ normativa, que destila altas doses de misoginia e não tolera dissidências, é capaz de manter muita gente no armário. Eu demorei quase dez anos depois da minha primeira puberdade para tentar transicionar mas me senti tão frustrada, confusa e desamparada que acabei tentando suicídio. Ao me abrir para minha família naquele momento não obtive apoio algum.

Aos 35, em uma relação estável e com duas crianças em casa para cuidar, resolvi começar outra vez a transicionar e a partir do momento em que comecei minha terapia hormonal, comecei a me sentir em casa na minha própria pele. Coisas que para qualquer pessoa podem ser banais, pra mim começavam a me trazer alívio. Minha pele ficou mais fina, a barba menos espessa, os pelos do corpo foram sumindo, o formato do meu rosto foi ficando mais cheio e até as entradas no cabelo que eu tinha foram diminuindo.

Meu corpo começou a acumular gordura nos lugares certos. E isso nos primeiros meses de terapia. Esse processo veio acompanhado pela saída do armário. Mensagens e papos com familiares e amigos, explicando e contando como deveriam me tratar, se ainda o quisessem, foram acontecendo.

Tenho sorte. Sou privilegiada. Não tinha casa para ser expulsa, não tinha como perder meu emprego, meus amigos não me abandonaram, e apesar de ter ouvido algumas frases bem doídas, como 'nossa, escondeu bem', ou ‘pra que transicionar? Você está melhor assim’, ninguém me tratou mal.

É verdade, as pessoas olham muito pra mim na rua. Minha companheira nunca tinha sido discriminada, apesar de saber o que é assédio, e agora, saindo comigo, muitas vezes me pedia para ‘não dar tanto na cara’, a fim de evitar conflitos desnecessários. É verdade também que tenho uma voz grossa, o que faz com que a maioria dos desconhecidos me trate por senhor, mas não posso me queixar. Somos o único casal de lésbicas de uma escola com mais de 60 famílias e apesar de nenhuma das nossas duas crianças terem qualquer problema com a minha transgeneridade, sei bem o que isso pode trazer no futuro.

Minha vivência serve para expandir a noção do que é ser mulher trans, para expandir a noção de maternidade, para empoderar travestis, porque eu também sou trans como elas, apesar dos meus privilégios, e foram elas que lutaram, e continuam lutando, pelos direitos adquiridos aqui na Argentina. Serve para dar pras minhas crianças uma vida futura com menos amarras de gênero, serve para repensarmos o feminino.

Tive sorte de poder contar com a internet, onde pessoas como Daniela Andrade e Sofia Favero estão presentes e ativas, explicando e ajudando muitas pessoas trans e combatendo transfobia. Tive a sorte de ter a Laerte como referência de alguém que transiciona aos olhos do grande público. Tive a sorte de ter a Laverne Cox expondo realidades trans para os que se ligam na gringa, mas mais do que isso, tive a sorte de ter nascido na Argentina, que aprovou a Lei de Identidade de Gênero mais avançada do mundo meses depois de eu ter começado minha transição. Depois que nos mudamos para cá, há dois anos, facilitou a minha mudança de documentos, coisa que no Brasil é um martírio.

Há pessoas ao redor do mundo que continuam a sofrer violências diárias somente por serem trans. Na maioria dos países ser trans é ilegal! Em outros pode significar uma sentença de morte, e na maioria, é uma sentença de morte não dada pelo estado, mas pelas multidões linchadoras e vigilantes solitários da sociedade cis-­hetero­ normativa. A identidade trans ainda consta como doença mental no CID [Classificação Internacional de Doenças]... e a lista de problemas poderia seguir...

Eu não me engano. Somos nós que temos que nos levantar e mostrar para outras que também podem fazer isso. É um ato político o ‘ser você mesma’, quando esse ‘você mesma’ está constantemente sendo apagado e você é tratada como uma sub­pessoa pela sociedade.

Minha contribuição é pequena e minha dívida é grande, mas também tenho hoje, como toda pessoa trans deveria poder ter, a coragem e orgulho de dizer: Sou Sara”.

*Sara optou por não publicar seu sobrenome. 

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