Crise econômica mundial

China quer recuperar mercado ante a desaceleração do comércio mundial

Autoridades utilizam as desvalorizações para deter a contínua queda de sua balança

Mulher passa em frente à sede do Banco Popular da China, em Pequim.
Mulher passa em frente à sede do Banco Popular da China, em Pequim.PETAR KUJUNDZIC (REUTERS)

As autoridades chinesas querem recuperar sua parte do bolo no comércio mundial após a contínua deterioração de sua balança comercial devido à queda das exportações. Essa é a principal razão pela qual, após um longo período de apreciação de sua moeda, o yuan, tenham optado por desvalorizar sua divisa. O problema é que essa tentativa pode se chocar com o fato de que o comércio mundial retraiu na primeira metade de 2015 e não dá sinais de recuperação. A China também tenta colocar o yuan na cesta de grandes divisas, frear a saída de capitais e ganhar a confiança do FMI.

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A cadência é de três ou quatro anos. O verão de 2008 foi o do colapso da Lehman Brothers, que deu o verdadeiro tiro de partida para a Grande Recessão. O de 2011 foi o da crise da dívida soberana europeia, cujas cicatrizes ainda são visíveis em boa parte do Velho Continente. E muitos temem que o verão de 2015 seja lembrado como o do ponto de inflexão na economia chinesa, aquele em que mudou definitivamente de rumo depois de uma expansão que rompe qualquer esquema cíclico.

Embora oficialmente o crescimento da segunda potência mundial se mantenha em 7%, número marcado em vermelho em Pequim, são poucos os analistas que confiam nesse dado e começam a ser maioria as vozes autorizadas que rebaixam o crescimento a quase metade: entre 3,5% e 4%.

Altamente dependente do setor externo, o gigante asiático deu uma freada brusca quando suas exportações começaram a enfraquecer. Em julho, as vendas chinesas ao exterior caíram 8,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em cinco dos sete primeiros meses do ano, as exportações se situaram em terreno negativo. E a reação do Governo chinês a essa encruzilhada foi lançar mão de uma ferramenta clássica da política econômica: uma desvalorização em três etapas (segunda-feira, terça-feira e quarta-feira) de sua moeda.

Até aí tudo parece lógico. A grande fábrica global exporta menos, sua produção desacelera, busca uma saída cambial para o beco em que se meteu e, de passagem, manda uma mensagem de força ao resto do mundo. Entretanto, para compreender o que realmente acontece em Pequim é preciso olhar um pouco mais adiante e observar o que ocorre no resto do planeta.

“A China não é a causa do problema, mas o reflexo”, diz o economista José Carlos Díez. “O problema real é que o comércio mundial parou”. O início abrupto do que muitos analistas temem que acabe se tornando o princípio de uma saga chinesa ocultou um dado essencial para entender o quebra-cabeças: o comércio mundial travou.

Depois de um 2014 de forte crescimento, que culminou em recorde histórico, os dados dos cinco primeiros meses de 2015 apontam para um ponto de inflexão. As transações comerciais mundiais caíram 3,4% em volume e 17% em preço, segundo o índice elaborado mensalmente pelo instituto holandês CPB. Em paralelo, o Índice Seco do Báltico, que reflete o custo de transporte das mercadorias a granel e que guarda uma forte correlação com o dado de movimento comercial geral, caiu 13% desde a segunda-feira passada, dia em que o Banco Popular da China iniciou a desvalorização do yuan. A esses dados preocupantes soma-se uma segunda derivada: os emergentes também vivem maus momentos arrastados pelo baixo preço das matérias primas e temem que se acrescente a seus males a incipiente debilidade chinesa.

Internamente, na China se aproxima o fim de várias bolhas e, no resto do mundo, a economia mundial não consegue deslanchar

O estatístico Juan Ignacio Crespo faz uma análise em dois planos: internamente, na China se aproxima o fim de várias bolhas [sobretudo imobiliária e bursátil] e, no resto do mundo, a economia mundial não consegue deslanchar. “Os principais motores pararam”, afirma. O fraco crescimento das duas principais economias europeias, França e Alemanha, no segundo trimestre comprovam seu diagnóstico.

“É evidente que, nos três últimos meses, as perspectivas da economia mundial pioraram; há muitos fatores que não contribuem exatamente para o crescimento do comércio”, acrescenta Alfredo Pastor, professor da escola de negócios IESE e ex-secretário de Estado de Economia.

Embora descarte um ataque de pânico na China, esse especialista no gigante asiático qualifica de “difícil” o momento que sua economia atravessa por vários motivos: a lentidão do principal parceiro comercial chinês, a UE, que não consegue recuperar vigor, e as dificuldades de Pequim para concretizar a anunciada transição de um modelo apoiado nas exportações para outro sustentado pelo consumo interno.

Resta ver qual será a reação das outras grandes potências: ninguém perde de vista que nem a Europa, nem os Estados Unidos podem permitir um declínio chinês com potencial de se transformar em pesadelo se a doença contaminar o resto do mundo emergente, já abalado depois de uma década de forte crescimento. Menos ainda se for gerada (ou acompanhada) por uma retração do comércio mundial cujos primeiros sinais já se observam.

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