Crise política no Brasil

Lula vai a Brasília e volta à linha de frente de defesa de Dilma na crise

Para apoiadores, presidenta cita a crise política e diz que ela enverga, mas não quebra

Lula com o chapéu que é a marca da Marcha das Margaridas.
Lula com o chapéu que é a marca da Marcha das Margaridas.Fernando Bizerra Jr. (EFE)

A poucos dias de mais um novo protesto agendado contra o Governo Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou à cena e reassumiu a linha de frente de defesa da gestão petista que enfrenta grave crise política. Lula viajou à Brasília e, em dois dias, participou de atos que serviram para reafirmar o apoio à Rousseff e para tentar ajudá-la na articulação junto ao Congresso Nacional. O próximo passo de Lula é viajar pelo país para defender programas do Governo federal, como havia anunciado em junho.

Na manhã de quarta-feira, o petista, que chegou a ser sondado para compor uma vaga no ministério de Rousseff mas declinou, se encontrou com a cúpula do PMDB no Palácio do Jaburu, a residência oficial do vice-presidente Michel Temer. Entre os convidados estavam o ex-presidente José Sarney e o presidente do Senado, Renan Calheiros, que apresentou um polêmico pacote de projetos para o Governo na segunda-feira passada. No encontro com os peemedebistas, a ideia era acalmar seus aliados e evitar que haja uma nova debandada da base dilmista no Congresso Nacional. Nas últimas semanas, o Governo sofreu severas derrotas na Câmara dos Deputados e agora tenta recompor sua base para evitar que sejam aprovados novos projetos que impliquem no aumento de gastos federais. Conforme participantes do encontro, o ex-presidente elogiou a atuação de Temer assim como o plano de Calheiros. E pediu que ambos ajudem na aproximação com Eduardo Cunha, o presidente da Câmara que rompeu com a gestão petista e foi o responsável por uma série de derrotas no Legislativo.

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Movimentos sociais

Na noite anterior, Lula estrelou o ato de abertura da Marcha das Margaridas, evento promovido pelas mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura que reuniu 30.000 pessoas no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Lula pediu para que as pessoas não avaliassem os últimos seis meses da gestão Rousseff, mas, sim os quatro anos do primeiro governo dela. Disse que o país passa por um momento difícil, mas que a culpa não é da presidenta (que tem só 8% de aprovação popular), e sim, dos banqueiros internacionais. “Por que essa gente está raivosa com a presidenta Dilma, se as eleições acabaram em 26 de outubro?”, indagou o presidente de honra do PT. "Eu lembro que em 2005, quando os mesmos que estão atacando a Dilma, diziam que iam fazer impeachment do Lula, eu disse para eles: 'Se vocês quiserem me cortar, vocês vão ter que ir para a rua disputar o povo brasileiro'", discursou.

Nesta quarta foi a vez de Rousseff falar às trabalhadoras rurais: “Quero, mais uma vez, reafirmar a nossa parceria e me somar a vocês nessa mobilização por justiça, por autonomia, por igualdade, liberdade, democracia e não ao retrocesso”, discursou a presidenta, no Mané Garrincha.

A participação de Rousseff e Lula no ato da Contag é parte da estratégia do Governo e do PT de recorrer à militância organizada e aos movimentos sociais como colchão de contenção da crise e contraponto aos protestos de domingo. Nesta quinta, a presidenta vai se reunir com os movimentos sociais no Palácio do Planalto.

Nas arquibancadas, era comum ouvir gritos de apoio à presidenta e outros contra Eduardo Cunha e o ministro da fazenda Joaquim Levy, que tenta promover o ajuste fiscal. “Fora já. Fora daqui, o Eduardo Cunha junto com o Levy”. Em um dos momentos do evento, a organizadora do encontro, Alessandra Lunas, criticou o Legislativo. “A ameaça que vemos é no Congresso, que não consegue ouvir as vozes do nosso povo”. Foi a deixa para o público voltar a entoar o “fora, Cunha e Levy” e para a presidenta dar um leve sorriso de canto de boca.

Ao encerrar suas palavras no estádio, Rousseff fez uma referência à crise política citando um trecho de uma música composta pelo pernambucano Lenine e pelo paulista Carlos Rennó: “Nos maus tempos da lida, eu envergo, mas não quebro”.

TCU dá 15 dias para presidenta explicar pedaladas fiscais

Para coroar o momento de respiro do Planalto na crise política, o Tribunal de Contas da União (TCU) concedeu nesta quarta mais 15 dias para o Governo federal apresentar explicações sobre as "pedaladas fiscais" e deu um alívio, ainda que temporário, para a gestão Dilma Rousseff. Com a prorrogação do prazo, a gestão petista conseguiu adiar para o fim do mês, ou para o início de setembro, a análise das contas do Governo do ano de 2014.

O objetivo da gestão petista é prorrogar o julgamento o maior tempo possível para que seja possível recompor sua esfacelada base na Câmara dos Deputados e evite dar início a um processo de impeachment no Legislativo. Isso tudo levando em conta que o deverá rejeitar as finanças de Rousseff já que ela usou irregularmente recursos de bancos públicos para pagar benefícios sociais, como o programa Bolsa Família.

A ampliação do prazo e a reaproximação do Governo com Renan Calheiros, o presidente do Senado que é um dos alvos da operação Lava Jato, deram uma injeção de otimismo nos membros da coalização governista. Nos últimos dois dias era comum ouvir discursos de que em breve o país sairá das crises econômica e política. Alguns deles, como o líder do Governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE) disse que momentos turbulentos como esse eram importantes para que os governantes pudessem agir com mais humildade.

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