Literatura

Os tiranos à mesa

Livro analisa gostos culinários e as manias gastronômicas de déspotas de todo o mundo

Adolf Hitler, rodeado por correligionários nazistas em uma mesa, em Berlim, em 1933.
Adolf Hitler, rodeado por correligionários nazistas em uma mesa, em Berlim, em 1933.Print Collector (Getty Images)

Os gostos culinários dos ditadores evidenciam seus excessos e sua complexa relação com o alimento. Os jantares feitos por Josef Stalin em sua dacha (fazenda, em russo) com os principais dirigentes soviéticos duravam seis horas e incluíam brincadeiras que sempre acabavam com os comensais – todos que não eram Stalin – humilhados. Benito Mussolini, que odiava massa, tinha um desinteresse bem pouco italiano pelos alimentos; costumava comer uma salada feita à base de alhos crus temperados com azeite e limão. E Saddam Hussein fazia metáforas ao comer azeitonas: dizia que cuspia o caroço da mesma forma que um dia iria cuspir os israelenses do Oriente Médio. A refeição do mandatário iraquiano era preparada simultaneamente em suas 12 residências, porque não se sabia em qual delas ele apareceria.

MAIS INFORMAÇÕES

Aprendemos isso e muito mais lendo o livro Dictator’s Dinners. A Bad Taste Guide to Entertaining Tyrants (na tradução livre, O Jantar do Ditador. Um Guia de Mau Gosto para Entreter Tiranos, da editora Gilgamesh Publishing, ainda sem edição no Brasil). A obra inclui trinta receitas com os pratos preferidos de cada déspota, caso alguém queira cozinhar em casa um cuscuz com carne de camelo a Muamar al Kadafi, uma salada de peixe ao estilo Pol Pot e a pomba recheada com língua e pistache que Hitler adorava. Esse, certamente, não era um vegetariano tão convicto como se pensa, mas comia pouca carne por influência de Richard Wagner, que dizia que o povo alemão jamais seria onívoro se não fosse pela influência judaica.

Victoria Clark e Melissa Scott, duas experientes jornalistas britânicas que trabalharam como correspondentes em lugares onde os ditadores mandavam e desmandavam como o Iraque e a Romênia, decidiram escrever o livro durante uma sobremesa. “Estávamos falando sobre a atualidade internacional. A ideia apareceu e decidimos colocá-la em prática imediatamente”, dizem. O volume, publicado meses atrás no Reino Unido, foi traduzido para vários idiomas (ainda não em português) e agora suas autoras preparam uma sequência que será editada no final do ano, dedicada às últimas refeições de vários personagens ilustres.

O arroz de Mao Tsé-Tung era cultivado em uma chácara especial

De sua excursão à despensa de 26 chefes de Estado já mortos ou afastados – Fidel Castro e o etíope Mengistu Haile Mariam, que se encontram no livro, não estão mais no poder – pode-se dizer que a história dá razão a essa moderna frase que afirma que “você é o que come”. E que poucas coisas explicam tanto uma pessoa como o que coloca em seu prato na intimidade de sua casa, ou de seu palácio presidencial.

Entre a seleção, existem alguns ditadores ascéticos, como António de Oliveira Salazar. Solteiro convicto – dizia que não existia outra esposa a não ser Portugal – e poupador, tomava café de cevada e uma torrada sem recheio de café da manhã e seu prato preferido eram sardinhas na brasa com feijões, uma discretíssima revanche contra a pobreza de sua infância, quando precisava dividir um único peixe com suas irmãs.

Mussolini também entra no campo dos austeros. Apesar de ter feito da produção de trigo um símbolo da Itália fascista e até chegou a escrever um poema ao pão – “orgulho do trabalhador, poema do sacrifício” – não consumia carne e vinho como mostra de estoicismo. “Tinha problemas de estômago e não podia se permitir ser autoindulgente, mas gostava mesmo era da ideia de macho que sabe negar-se os prazeres”, defendem as autoras.

Mao Tsé-Tung, em 1961, após nadar em um lago de Lushan.
Mao Tsé-Tung, em 1961, após nadar em um lago de Lushan.ChinaFotoPress

Os melhores alimentos

São a exceção. A maior parte dos ditadores usou seu ilimitado domínio para ter os melhores alimentos. Clark atribui tal comportamento ao fato de que “muitos deles eram de origem humilde e ao chegar ao poder adoraram poder se dar a esses luxos. Podiam enfim tomar champanhe no café da manhã, como fazia o congolês Mobutu Sese Seko, e bistecas, como Ceaucescu. O iugoslavo Tito também gostava muito de comida e das aparências. Ele era, de alguma maneira, o comunista glamoroso”.

Apesar do gosto por comer bem do cubano Fidel Castro ser bem conhecido, ele que tem opiniões bem definidas sobre como se deve cozinhar a lagosta – 11 minutos no forno ou seis minutos se for feita em um espeto na brasa, para temperar depois com manteiga, alho e limão – e em sua época ter gastado milhões de pesos em suas tentativas de produzir uísque e foie gras em Cuba, Clark não hesita em conceder o duvidoso título de “tirano mais afeito à gastronomia” a Kim Jong-Il. O mandatário norte-coreano enviava seu chef por todo o mundo para que ele conseguisse caviar iraniano, mangas tailandesas, salsichas dinamarquesas e bolinhos de arroz japoneses temperados com artemísia que poderiam custar até 388 reais a unidade. O Querido Líder empregava um chef somente para preparar sushi. Kenji Fujimoto contou em um livro no qual revelou os excessos de seu ex-chefe que ele gostava de comer o peixe “tão fresco que ainda se movia”.

Hitler adorava pomba recheada com língua e pistache

Kim Jong-Il seria também o mais importante cliente do conhaque Hennessy. Teria garrafas armazenadas no valor de mais de 2,7 milhões de reais que guardava em sua multimilionária adega.

Mas talvez sua maior extravagância fosse obrigar várias dezenas de mulheres a selecionar cada grão de arroz que ingeria, para que todos fossem do mesmo tamanho e da mesma cor. Depois, eram cozinhados sobre fogo vivo utilizando somente lenha de um tipo específico de árvore, que cresce nas proximidades da fronteira com a China. Outro ditador asiático, Mao Tsé-Tung, possuía essa mesma obsessão. Seu arroz era cultivado em uma chácara especial para seu consumo, regada pelo mesmo manancial da antiga corte imperial.

Fidel Castro, depois de uma refeição em Nova York, em 1960.
Fidel Castro, depois de uma refeição em Nova York, em 1960.REUTERS

Medo do veneno

As autoras se esmeraram na investigação dos detalhes domésticos de cada ditador, mas admitem que com alguns é difícil separar a realidade da lenda. Eles mesmos tiveram o cuidado de divulgar mitos sobre seus hábitos alimentares que os fizeram parecer ainda mais temíveis. Por isso as dúvidas sobre o suposto canibalismo do general ugandês Idi Amin e de Jean Bedel Bokassa, o ditador que se autoproclamou imperador da atual República Centro-africana em uma cerimônia inspirada em Napoleão. “Os dois foram inocentados sobre o fato de comer carne humana, e no caso de Bokassa houve até mesmo um julgamento no qual chamaram seu cozinheiro para testemunhar, mas é perfeitamente possível que o tenham feito. E se não o fizeram, é uma boa tática fazer com que seus inimigos acreditassem, para causar-lhes medo”, diz Clark.

A autora também notou o fato de encontrar lendas semelhantes em países diferentes: “Frequentemente, ao buscar informação sobre os ditadores latino-americanos, afirmava-se que bebiam sangue de recém-nascidos para manterem-se jovens. Falavam isso sobre o dominicano Trujillo e o paraguaio Stroessner”.

Para quase todos os mandatários, a comida era seu maior prazer e, também, sua principal fonte de ansiedade, pois temiam morrer envenenados. Controlavam de maneira obsessiva o que comiam e muitos tinham diversos provadores de alimentos na folha de pagamento. Em uma ocasião, Uday, o sanguinário filho de Saddam Hussein, bateu em um deles até matá-lo e foi castigado por seu pai com uma surra e várias semanas na cadeia. E depois, certamente, foi degustar uma carpa na brasa. Temperada com patê de tamarindo e um pouco de cúrcuma.

Francisco Franco: merluza e pedaços de golfinho

No livro Dictator's dinners, atribuem a Francisco Franco uma atitude "extremamente séria" em relação à comida e frisam sua obsessão pela caça e pesca. Algo que o separava de seus congêneres fascistas Hitler e Mussolini já que, ao contrário desses dois, Franco acreditava que o vegetarianismo era uma tendência perigosamente socialista.

A cozinha em El Pardo era espanholíssima e burguesa, como demonstram os menus escritos à máquina descobertos em 2014 e supervisionados por Carmen Polo. Franco gostava de novilho, cozidos, de uma sopa de peixe feita com merluza, amêijoas e mexilhões, e os ovos a Aurora, recheados e cobertos com molho branco. Nada disso estava nas mesas da maior parte dos espanhóis durante os difíceis anos do pós-guerra. Na época, Franco gostou da ideia de José Luis Arrese, que seria depois ministro da Habitação, de dar “pedaços de carne de golfinho” aos pobres para mitigar a fome, segundo sua correspondência com Serrano Suñer.

Ainda hoje é bastante recorrente a provável lenda urbana de que foi Franco o responsável pelo costume de servir paella às quintas nos restaurantes. Dizem que esse era o dia da semana no qual o ditador entrava nos restaurantes de Madri sem avisar e ficava enfurecido se não tinham arroz.

Arquivado Em: