BIOLOGIA

Excesso de antioxidantes pode prejudicar a pele durante a juventude

Estudo mostra que uma maior oxidação das células ajuda a pele a se autorreparar O efeito é revertido quando os ratos usados no teste envelhecem

Frutas são uma fonte de antioxidantes, mas o consumo equilibrado é crucial para que os efeitos dessas moléculas sejam positivos.
Frutas são uma fonte de antioxidantes, mas o consumo equilibrado é crucial para que os efeitos dessas moléculas sejam positivos.Samuel Sanchez

Nos anos cinquenta, Denham Harman, pesquisador da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA), sugeriu que os culpados pelo envelhecimento eram os radicais livres, compostos químicos que oxidavam o organismo. Esses radicais surgem como resultado de atividades básicas da vida, como respirar, e em alguns casos são importantes para defender ao organismo contra germes ou alguns tipos de tumor. Entretanto, alguns hábitos nocivos, como o consumo de álcool ou tabaco, podem introduzir no organismo um excesso de radicais livres, oxidando excessivamente as células e acelerando o envelhecimento.

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Durante muito tempo, uma interpretação simplista da teoria dos radicais livres fez dos antioxidantes, presentes em alimentos como frutas e verduras ou em cápsulas, os antagonistas ideais para combater a passagem do tempo. Entretanto, estudos posteriores mostraram que os antioxidantes estão longe de ser um milagre.

Nesta semana, uma equipe científica do Instituto Buck (EUA), especializado no estudo do envelhecimento, obteve resultados que, entre outras coisas, sugerem que o consumo de grandes quantidades de antioxidantes durante a juventude poderia ter efeitos negativos para o envelhecimento da pele. Num trabalho publicado na revista PNAS, os cientistas explicam como criaram ratos que produziam grandes quantidades de radicais livres, os quais danificavam as mitocôndrias de sua pele. Os pesquisadores achavam que os ratos envelheceriam de maneira acelerada, mas observaram que ferimentos cutâneos curavam-se mais rapidamente neles do que em ratos normais. Entretanto, esse efeito se revertia com o passar do tempo. O dano nas mitocôndrias reduzia a produção de células-tronco, e os ratos mais velhos, que na juventude haviam tido uma pele que cicatrizava com rapidez, agora apresentavam mais dificuldades para curar suas feridas.

No caso dos fumantes, os suplementos antioxidantes podem aumentar o risco de câncer de pulmão

Estudos anteriores já demonstraram que reduzir a quantidade de radicais livres por meio de antioxidantes reduz o dano celular que leva ao envelhecimento. Entretanto, outros artigos científicos indicam que esses benefícios nem sempre ocorrem. De fato, apesar dos efeitos positivos dos antioxidantes com relação a enfermidades como o câncer que foram observados em animais e cultivos celulares de laboratório, os esforços para comprovar tais benefícios em humanos não foram bem sucedidos.

“Este estudo mostra que é essencial olharmos para todo o transcurso da vida quando examinamos os mecanismos implicados nos processos de envelhecimento”, afirmou em nota Judith Campisi, pesquisadora do Instituto Buck e responsável pelo estudo. “Esse processo não é simples. É possível que a natureza usasse os radicais livres para otimizar a saúde da pele, e, como esse processo não é nocivo para o organismo até uma idade avançada, além da idade reprodutiva, não houve necessidade evolutiva de alterar este mecanismo”, explicou Michael Velarde, primeiro autor do artigo.

Os resultados da equipe norte-americana se somam a outros que deixam claro que os antioxidantes, apesar dos seus efeitos positivos, não são uma panaceia, e em alguns casos podem ser prejudiciais. Um estudo publicado em 2014 na Science Transaltional Medicine apontava que, para alguns indivíduos com hábitos de risco, como fumar, o consumo de suplementos antioxidantes podia acelerar o desenvolvimento do câncer de pulmão. Esse resultado, obtido em ratos, amparava outros anteriores com resultados similares e indica que alguns antioxidantes, como a vitamina E, podem ser perniciosos ao fomentar o crescimento de alguns tumores. Como indica o estudo publicado nesta semana no PNAS, os radicais livres e a oxidação das células têm uma função no organismo que, apesar de acarretar o envelhecimento, é necessária. Mexer nesse equilíbrio para incliná-lo a nosso favor não será tão simples como tomar um comprimido antioxidante.

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