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O peruano Zambrano, ídolo do Chile

Expulsão do zagueiro abre caminho para o país-sede chegar a sua primeira final desde 87

Jogadores do Chile comemoram a classificação para a final.

O Chile realizou seu sonho de chegar à final da Copa América. Ninguém repara no seu futebol, mas o país está obcecado em ganhar um título. O fim justifica os meios, e ainda mais quando o adversário era o arquirrival Peru. O Clássico do Pacífico disputado na noite de segunda-feira em Santiago não foi grande coisa, e a rivalidade foi mais discreta do que muitos esperavam, apesar das polêmicas habituais, desta vez representadas pela expulsão de Zambrano. Uma tolice do zagueiro manchou a boa declaração de intenções do Peru. A equipe de Gareca se debateu com grandeza, personificada em Guerrero, ao passo que a de Sampaoli aproveitou as circunstâncias favoráveis para resolver o duelo com dois gols de Vargas. A condição de mandante pode ser decisiva para que o Chile se livre de vez da pecha de equipe derrotada, depois de conseguir reunir um bom elenco sob o comando do argentino Sampaoli.

O Peru entrou em campo com um atacante a menos e um zagueiro a mais, Carlos Zambrano, que não durou nem 20 minutos no gramado. Intimidado com a liturgia da partida, e decidido a deixar sua marca no Estádio Nacional, começou o jogo limpando bolas nos dois lados do gramado, cada jogada como se fosse a última e decisiva —primeiro contra Vidal e depois contra Alexis. Levou um cartão amarelo e, aos 15 minutos, saiu da área para colocar os calcanhares nas costas de Aránguiz. O árbitro, farto de adverti-lo reiteradamente, mandou Zambrano para o chuveiro e desmontou o plano de Gareca, que havia decidido enfrentar o Chile com apenas um atacante, circunstância que não impediu Farfán de arrematar na trave de Bravo aos 10 minutos.

Não há partida sem um lance destacado e punível, digno de ser debatido no dia seguinte pela torcida e pelo comitê disciplinar de uma Copa América que às vezes parece mais talhada para o noticiário policial do que para o esportivo. O inventário de cartões ameaça ser mais importante que o catálogo de gols. O vilão da noite de segunda-feira atende pelo nome de Zambrano, um jogador irresponsável na marcação e nas patadas, merecedor de castigo na América e na Europa. A inferioridade numérica desajustou o bom posicionamento exibido até então pelo Peru. A seleção de Gareca tem bom pé, ocupa o gramado racionalmente, e seus jogadores se posicionam sobre as linhas de fundo como se fossem equilibristas, jogando sobre as cordas-bambas do campo de forma artística e limpa, sempre em busca do arremate terminal de Guerrero.

A seleção de Sampaoli é generosa, esforçada e produtiva, respeitosa com a bola, independentemente do adversário

O jogo passou a ser favorável ao Chile graças à cabeça quente de Zambrano. A seleção de Sampaoli é generosa, esforçada e produtiva, respeitosa com a bola, independentemente de quem seja o adversário. A maioria das suas jogadas se prolonga, dura minutos, mas nem sempre se visualiza uma boa definição. Custou ao Chile encontrar o gol do Peru. Jogou distante da área rival enquanto eram 11 contra 11, e só se impôs quando teve um jogador mais —momento em que Gareca precisou reorganizar o time com a saída de Carrillo e o reposicionamento de Ballón. O Chile tinha dificuldades em se aprofundar, e o gol só chegou após uma jogada rocambolesca: Alexis centrou pela esquerda, Aránguiz deixou a bola passar, ela bateu na trave, e Vargas então a dominou e empurrou para a rede peruana.

Foi um gol a fórceps, como o futebol do Chile. A bola entrou chorando, devagarinho, e Vargas além disso estava impedido. O mérito da jogada foi de Aránguiz, que, sem tocar na bola, se deslocou muito bem no espaço para tirar o goleiro e deixar o atacante em condições de finalizar. O Peru, porém, não se entregou e, depois do intervalo, propôs uma partida mais aberta, deixando o estádio inteiro temendo por um lampejo goleador de Guerrero, transformado em jogador total, ponto de apoio para o gol contra de Medel após cruzamento de Advíncula, e involuntariamente decisivo, minutos depois, num contra-ataque finalizado por Vargas. Guerrero foi desarmado na metade do campo, e a reação chilena culminou numa bomba de Vargas de fora da área, para a qual Gallese não teve resposta.

CHILE 2 x 1 PERU

Chile: Claudio Bravo; Mauricio Isla, Gary Medel, José Rojas, Miiko Albornoz (min. 45, Eugenio Mena); Marcelo Díaz (min. 45, David Pizarro), Charles Aránguiz, Arturo Vidal; Jorge Valdivia (min. 84, Felipe Gutiérrez), Alexis Sánchez e Eduardo Vargas.

Peru: Pedro Gallese; Luis Advíncula, Carlos Ascues, Carlos Zambrano, Juan Manuel Vargas; Carlos Lobatón (min. 72, Yoshimar Yotún), Josepmir Ballón, Christian Cueva (min. 26, Christian Ramos), Jefferson Farfán; André Carrillo (min.72, Claudio Pizarro) e Paolo Guerrero.

Gols: 1 x 0, min. 42, Eduardo Vargas; 1 x 1, min. 60, Gary Medel, contra; 2 x 1, min. 64, Eduardo Vargas.

Árbitro: José Argote. Expulsou o peruano Carlos Zambrano (min. 20).

Estádio Nacional de Santiago, 45.651 espectadores.

O golaço do atacante chileno, deixando jogadores e torcedores assombrados, foi decisivo para a partida. Não era o dia de Alexis, e de nada serviram os passes em profundidade de Valdivia. Parecia que apenas dois atacantes estavam em campo: o chileno Vargas e o peruano Guerrero. O time de Sampaoli tem dificuldades para cadenciar o ritmo, joga sempre como se estivesse com taquicardia —o que é muito perigoso quando os passes errados se acumulam e o cansaço aparece. Aos trancos e barrancos, os chilenos acabaram fechando o seu gol, enquanto os peruanos reclamavam um pênalti como prêmio pelo esforço de Guerrero. Na noite de segunda, o maior inimigo do Peru foi seu zagueiro Zambrano, para sorte do Chile.

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