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Apesar da Lava Jato, país tem engenharia para obras, diz ministro

Prisão de presidentes das maiores empreiteiras do país colocou em xeque as concessões, mas Barbosa não vê risco de contágio

Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa.
Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa.

A detenção de Marcelo Odebrecht, juntamente com a de Otávio Marques de Azevedo, presidente da empreiteira Andrade Gutierrez, pode abrir uma nova fissura no Governo de Dilma Rousseff? O pacote de concessões, anunciado no dia 9 de junho pela presidenta e sua equipe econômica, tende a ficar comprometido quando os número 1 das maiores empreiteiras estão na cadeia. Se não, quem se encarregará das obras? O plano ambicioso de investimento em infraestrutura no valor de 200 bilhões de reais é uma das peças fundamentais para reanimar a economia brasileira e, por sua vez, tirar Dilma do “volume morto” das pesquisas de opinião.

O levantamento do instituto Datafolha, divulgado este final de semana, mostra que a opinião pública está implacável com Rousseff. Sua taxa de reprovação chega a 65%, porcentagem negativa que ela nunca havia atingido em seus dois mandatos. A rejeição do eleitorado à atual mandatária só é comparável à que o ex-presidente Fernando Collor de Mello recebeu em 1992, antes de ser destituído pelo processo de impeachment.

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, disse ao EL PAÍS que “de forma alguma” essa nova etapa da operação Lava Jato vai afetar os planos do Governo. “O Brasil continua tendo capacidade de engenharia e construção para realizar essas obras”, afirma. O juiz federal responsável pela operação Lava Jato, Sérgio Moro, já se manifestou contrário a que essas empresas (e outras que estão sob investigação) assumam os contratos “para não colocar sob suspeita esse pacote de concessões”. Segundo Moro, o pacote de concessões traz o risco de reiterar “práticas corruptas”. Barbosa preferiu não repercutir o comentário do juiz. Já o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, prontificou-se a dizer que, enquanto não houver comprovação, essas empresas gozam de presunção de inocência e não existe nada que as impeça de participar de uma licitação.

Barbosa explica que a preocupação do Governo é viabilizar a nova etapa do Programa de Investimentos em Logística “oferecendo bons projetos. Se os empreendimentos forem atrativos, aparecerão interessados. Definimos os projetos a partir de consultas ao setor privado que já manifestou interesse”, diz.

Nesta segunda, a Odebrecht publicou um comunicado nos jornais para rebater as acusações que justificaram a detenção da alta cúpula da empresa. E classificou como “afronta aos princípios mais básicos do Estado de Direito” sustentar a prisão para evitar “reiteração criminosa”.

Tudo seria complicado por si só, mas o nó engrossa com o ajuste fiscal, o desemprego crescente e a crise que já consumiu o poder de consumo dos brasileiros, enquanto a inflação não cede. Ou seja, agora tudo é mais grave e a pesquisa Datafolha reflete essa sensação de desalento.

O Governo agora mesmo prevê um recuo de 1,2% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2015, mas os principais ministros afirmam que a recuperação econômica começará a ser notada no último trimestre deste ano. Os cidadãos comuns são muito mais pessimistas. Segundo a mesma pesquisa, a maioria dos brasileiros está convencida de que a situação econômica, o desemprego e a inflação vão piorar muito nos próximos meses.

O próprio ex-presidente Lula, do mesmo partido de Dilma, o Partido dos Trabalhadores (PT), reconheceu recentemente a absoluta falta de popularidade do Governo. Em reunião com líderes religiosos do país, Lula se referiu assim ao índice de avaliação presidencial: “Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto, e eu estou no volume morto.” Depois acusou a presidenta de passar muito tempo em reuniões reservadas em Brasília e não sair às ruas para falar com os brasileiros. “Aquele gabinete é uma desgraça. Não entra ninguém para dar notícia boa. Outro dia fiz essa pergunta para a Dilma: ‘Companheira, você lembra qual foi a última notícia boa que demos ao Brasil? Ela não lembrava’.”

É certo que a popularidade do carismático Lula também caiu. Na mesma pesquisa da Folha, Lula aparece em segundo lugar nas intenções de voto (25%) numa hipotética eleição presidencial, atrás do candidato conservador Aécio Neves, senador do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Se em vez de Aécio o adversário fosse o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, também do PSDB, Lula chegaria à primeira posição, com 26%.

Amigo de Lula, Marcelo Odebrecht está preso por operações suspeitas que podem caracterizar o suborno de altos executivos da petroleira para obter contratos. O ex-presidente viajou com o empresário a muitos lugares a fim de abrir mercados para a empreiteira usando sua influência e seus contatos. Com a prisão de Odebrecht, a imprensa brasileira diz que o cerco em torno de Lula está se fechando. Há também quem diga que o empresário guarda informação sigilosa capaz de fazer tremer reputação do ex-presidente e – também nesse caso – do Governo.