Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Quais são as 10 melhores ruas da Europa?

Espaços que resumem uma capital. Jornalistas contam quais são as suas ruas favoritas

Uma loja na rua Flassaders, em Barcelona. Ampliar foto
Uma loja na rua Flassaders, em Barcelona.

Ruas nas quais se respira liberdade e boa vida; para se percorrer, principalmente, a pé ou pedalando; que evidenciam a marca dos empreendedores locais e que resumem, de diferentes maneiras, o espírito das cidades nas quais estão. Ruas com paisagens, como a Dom Pedro V em Lisboa, que dá acesso ao melhor mirante da cidade. Ou uma rua marcada por um pórtico barroco e na qual o pavimento é feito apenas de pedras, como a Conde Duque em Madri. Ou, em Barcelona, a pequena e estreita rua Flassaders, que introduz o visitante à atmosfera de lojinhas do bairro do Born. Em Viena, a rua Spittelberg, que é o eixo da colina onde se monta o mercado de natal mais famoso da capital austríaca. Também em Londres, a rua Chiltern, onde os comerciantes conseguiram vetar a presença das grandes redes em favor dos pequenos negócios originais e artesanais. No total, são 10 passeios para fazer compras, ver exposições em galerias ou se sentar em um restaurante e ler um livro ou conversar. A realização de um relaxado modo de vida genuinamente europeu.

O Café Monocle na rua Chiltern, em Londres.
O Café Monocle na rua Chiltern, em Londres.

A rua chique do bairro

Por Pablo Guimón

São poucas as joias que ainda restam por descobrir no centro de Londres, os caçadores de tendências já dirigem seus passos, há muito tempo, a bairros cada vez mais periféricos. Mas há exceções. E a Chiltern Street é uma delas. Esta rua de impressionantes edifícios neogóticos vitorianos de tijolos vermelhos é um remanso de paz no meio do bairro de Marylebone e abriga alguns dos comércios mais exclusivos da cidade. Uma rua elegante, sem ostentação, com uma seleção cuidadosa e cosmopolita, à qual as grandes redes de lojas internacionais não podem pertencer.

Situada entre Baker Street e Marylebone High, a transformação dessa rua teve muito a ver com o guru do bom gosto global Tyler Brûlé. Na esquina, em Dorset Street, se encontram os escritórios londrinos da revista Monocle, criada por ele. E esse foi um dos motivos que o levaram a abrir, há dois anos, o Monocle Cafe. Um pequeno estabelecimento que parece uma caricatura do estilo de vida que reflete a revista. "Marylebone High estava se transformando em uma rua muito cara e movimentada", explicou Brûlé. "Chiltern te permite estar um pouco fora de tudo isso, é mais tranquila. Há um ambiente especial como o de comunidade, todos nos conhecemos e nos damos bem".

Já antes, orbitava em Chiltern Street outro planeta da excelente galáxia Monocle Trunk: um estabelecimento de culto ao mundo da moda masculina, com peças que seu diretor, Mats Klingberg, parceiro de Brûlé, obtém por todo o mundo. "Oferecemos um armário de clássicos modernos, evitando as modas passageiras", explicou Klingberg. Devido ao sucesso da loja, outra foi aberta em 2013 na mesma rua dedicada a acessórios. Essas, junto com outras como John Simmons, Sunspel e GreyFlannel, transformam a Chiltern em um destino fetiche da moda masculina de qualidade em Londres.

Mas há outro fator que contribuiu para incluir esta rua no mapa da Londres descolada: a abertura do hotel boutique Chiltern Firehouse, do americano André Balazs, famoso pela restauração de edifícios emblemáticos. O novo estabelecimento ocupa uma antiga estação de bombeiros, um dos exemplos mais importantes do estilo neogótico do final do século XIX que sobrevivem até hoje. Seu restaurante, a cargo do agraciado chef Nuno Mendes, é um dos preferidos das celebridades.

Cada estabelecimento de Chiltern merece uma parada. Os amantes da música encontrarão em Howarth (fabricantes e vendedores de oboés desde 1948) uma alucinante quantidade de instrumentos de sopro, acessórios e partituras. Caso a preferência seja por algo mais exótico, há instrumentos indianos na JAS Musicals.

Cadenhead's, a histórica engarrafadora de uísques escoceses, tem aqui sua loja londrina. E em Cire Trudon é possível comprar velas feitas por artesãos. Estabelecimentos de beleza e de vestidos para noivas e o estúdio de arte floral de Javier Salvador, remetem a um passado no qual Chiltern era uma rua especializada em moda nupcial. E a galeria Atlas, que também está aí, é uma das mais importantes de Londres dedicadas à fotografia.

Pessoas passeiam pela rua Francs-Bourgeois, em Paris.
Pessoas passeiam pela rua Francs-Bourgeois, em Paris.

O Le Marais e seus jardins secretos

Por Gabriela Cañas

No coração de Le Marais, o bairro da moda de Paris, há uma humilde rua na qual os edifícios de estilo haussmanniano não se alinham de maneira majestosa. Francs-Bourgeois é uma rua onde se pode fazer compras sem se arruinar financeiramente, contemplar os imponentes edifícios de pedra, parar para almoçar a qualquer hora do dia e, sobretudo, ter a impressão de descobrir, por si próprio, esses cantinhos secretos tão queridos pelos parisienses.

A rua só tem 60 números, e por isso o visitante não poderá se cansar ao percorrê-la, mas não convém se deixar enganar pelas vitrines simples e pelas fachadas de pedra do Museu dos Arquivos e do palacete Albret.

Uniqlo, a Zara japonesa de estilo informal que ainda não chegou à Espanha, é um dos comércios recomendáveis, e não só por seus preços. O local dá a oportunidade de descobrir parte das entranhas de Paris. Desça à planta do subsolo. O edifício pertencia à Sociedade de Cinzas, uma cooperativa de joalheiros e relojoeiros para trabalhar com as sobras de seus trabalhos em ouro e prata, e aí estão expostas as velhas máquinas de fundição. É uma relíquia que remonta à história da região marcada pelo judaísmo.

A fachada do restaurante Le Dôme du Marais, no número 53 da Francs-Bourgeois, não anuncia nada de especial, mas no interior, um recinto circular de cúpula transparente minuciosamente decorado, é surpreendente. Não passe sem dar a devida importância também ao número 8 da rua. Dentro, há um pátio tipicamente parisiense, uma galeria de arte dedicada à fotografia, YellowKorner, e um armarinho enorme e bem cuidado, herdado sem querer do passado, quando os fiandeiros do século XIV deram vida a essa área. E estão também os jardins: pequenos, quase secretos, nos cantos mais inesperados. Passear por Francs-Bourgeois, que conduz à Praça dos Vosgos, é muito aprazível, sobretudo nos domingos, quando a rua está fechada para veículos e uma banda compõe a trilha sonora da multidão que caminha por aí.

É um bom programa, mas essa idosa que dança ao compasso dos acordes atribui a eles o sabor do extraordinário. O senhor Pierre, dono do bistrô Camille, no número 24, aconselha: "É preciso vir também de noite. Tem um encantamento particular".

O mercado de domingo na rua Swinemünder, em Berlim.
O mercado de domingo na rua Swinemünder, em Berlim.

Música de Kraftwerk no mercadinho

Por Luis Doncel

Berlim não encanta por suas ruas. Não é Paris nem Roma, cidades que parecem pensadas para deixar os pedestres boquiabertos. Aqui, interessam mais os locais que aparecem em cada esquina, os cafés onde passar a tarde e edifícios de extraordinária ligeireza como a Neue Nationalgalerie. Por isso, é muito difícil escolher apenas uma rua. Mas, se for preciso fazê-lo, provavelmente ficaria com a Swinemünder Straße. À primeira vista, ela não tem nada de excepcional. Gosto porque, apesar de estar no gentrificado bairro de Mitte, ainda conserva casas sem restaurar, o que permite ter uma — distante — ideia de como era esta área do Leste há 25 anos, quando era uma das mais pobres da capital.

Os que estão aqui há mais tempo contam que agora veem essa época "em preto e branco". O passeio começaria na igreja de Sion, templo evangélico dos tempos do kaiser Guilherme I que se tornou famoso nos anos oitenta, quando seu porão acolhia uma sede de imprensa clandestina de onde se distribuíam folhetos e revistas que criticavam o regime comunista.

Ao deixar para trás a igreja, a fachada dos edifícios da esquerda vai mudando de cor — grená, azul, verde...— sob a sombra dos gigantescos bordos (um tipo de árvore) que, como é habitual em Berlim, são mais altos do que os edifícios. A alguns metros de distância, no número 120, vive Ilona Fichtner. Em sua sala, o líder da República Democrática Alemã (RDA) Erich Honecker tomou um café no dia 9 de fevereiro de 1984, para comemorar os dois milhões de imóveis restaurados pelo Estado.

Imediatamente depois, aparece a Arkonaplatz, praça onde, aos domingos, se organiza um dos mercados mais encantadores da cidade. Ao som do Fahr'n fahr'n fahr'n auf der Autobahn de Kraftwerk, que sai de um toca-discos à venda, se pode bisbilhotar histórias em quadrinhos antigos e edições do jornal Der Spiegel da semana dos atentados de 11 de Setembro. "O ataque do terror. Guerra no século XXI", anuncia a manchete.

Como tantas ruas nessa cidade composta por larguíssimas avenidas, percorrer a Swinemünder serve para conhecer as várias facetas de Berlim. Depois de passar pelos apartamentos de luxo recém-construídos na altura da Bernauer Straße, a rua se transforma em uma zona cheia de jardins e que termina em Wedding, que dizem há anos que vai a ser o próximo bairro da moda de Berlim, mas que nunca consegue se popularizar.

A entrada do centro cultural de Conde Duque, em Madri.
A entrada do centro cultural de Conde Duque, em Madri.

Modernos e barrocos

Por Mercedes Cebrián

Se somente tivéssemos a oportunidade de conhecer uma rua em Madri, por que escolher a rua do Conde Duque? Porque está ao lado da praça de Cristino Martos, essa atalaia que nos comunica, por sua vez, após descer umas escadas de pedra, com a rua Princesa, perto da Praça de Espanha, e que, ao mesmo tempo, nos isola desse xarope de franquias que reinam por aí abaixo.

E também porque no outro extremo, se a percorremos pela noite, se pode ver, iluminado, o posto de gasolina racionalista Gesa, projetado em 1927 por Fernández-Shaw (Alberto Aguilera, 18), e, felizmente, reconstruído nos anos 90.

E aí se pode encontrar tudo o que caracteriza Madri; ou seja, não somente edifícios galdosianos com sacadas, mas também o bloco feito de tijolos com terraços cobertos por vidro, árvores que prometem crescer mais e seus correspondentes bares galego e asturiano, este último com queijos tetilla, expostos por exigência.

E estão aí O Jardim Secreto, um café-restaurante muito adequado para primeiros encontros de casais que esperam trocar seus primeiros beijos nesse ambiente de país dos gnomos; e também o Sportivo, uma das lojas pioneiras em oferecer aos meninos madrilenhos roupa e acessórios importados, à qual se somou a sapataria Duke.

Além disso, a rua do Conde Duque conta com sua própria praça — a dos Guardias de Corps —, com solo de areia seca (poucas coisas são tão madrilenhas), ideal para tomar um vermute contemplando o busto de Clara Campoamor antes de ir a um espetáculo na imensidade militar que se transformou no emblema do bairro: o Centro Conde Duque. Ele foi construído a princípios do século XVIII por Pedro de Ribera, e seu portão churrigueresco (estilo de ornamentação exagerada empregado por Churriguera, um arquiteto e escultor barroco do final do século XVII), chama a atenção imediatamente, por contrariar o sóbrio padrão estético propagado pelo resto do edifício.

O centro está composto por três amplos pátios com terraço e cinemas de verão, por bibliotecas municipais e por sua estupenda sala de concertos. A poucos metros, está também o Museu ABC de Desenho e Ilustração. E ao redor de tudo isso, surgiram estabelecimentos como Panic, uma padaria com fogaças e mesa comunitária que causa furor entre os vizinhos; Cultivo, uma loja de laticínios cuja preciosa e tosca vitrine convida, mais do que a vender, a "despachar" os queijos artesanais, elaborados aí mesmo por mestres queijeiros da região que utilizam leite cru; e Tiradito, um restaurante peruano com seu próprio pisco-bar.

E nessa rua estão todos junto, com vontade de receber qualquer um que passe por aí.

Uma loja na rua Flassaders, em Barcelona.
Uma loja na rua Flassaders, em Barcelona.

Microcosmos em 46 números

Por Clara Blanchar

Parece mentira como pode caber tanta oferta em uma rua de apenas 46 números. Há uma adega, um herbanário centenário, um teatro de pequeno porte, uma joalheria artesanal, uma confeitaria de luxo, um restaurante de comida orgânica, um mercado de tapas espanholas para turistas (as típicas porções de comida para petiscar), uma loja de produtos alimentícios administrada por um paquistanês, outra de reformas de banheiros e várias de moda de alta e media costura. Estamos em Flassaders, uma estreita rua do bairro de Born, em Barcelona.

A palavra Flassaders vem de flassada, manta em catalão, e, como outras tantas ruas da área, antigamente concentrava aos artesãos do grêmio. No começo da manhã e nas últimas horas da tarde, às vezes, cheira a amaciante de roupa. O que é normal em uma passagem tão estreita.

Flassaders nasce um pouco mais em cima da rua Princesa e morre no passeio de Born. No meio, se alarga na praça de Jaume Sabartés, onde o Museu Picasso abriu um novo acesso e três espaços ao ar livre para tomar algo. Assim como as fachadas dos edifícios, não há local que não tenha uma longa história.

O mercado de tapas Princesa, com 17 postos de degustação, está em um palácio que data de 1400. O restaurante La Báscula, de comida orgânica, era uma antiga fábrica de doces e chocolates e tem esse nome porque se entra nele, literalmente, caminhando por cima da balança onde os carros eram pesados. Suas proprietárias foram corajosas, já que quando chegaram aí, em 2001, Born ainda não era um bairro famoso.

Antes disso, em 1997, foi inaugurada a loja Èstro, que vende sapatos e acessórios de couro e roupas de fibras naturais. Tudo desenhado e fabricado na Itália. Nessa rua, também se instalou JS Heritage, a linha casual de Javier Simorra; a loja de roupas para noivas e festas de Roser Marcè; e a joalheria artesanal Elisa Brunells, um clássico da cidade.

Outros locais são multimarcas, como Loisaida, que vende roupas de vários estilistas catalães, além de antiguidades. Tudo amenizado por música dos anos quarenta e cinquenta. É um luxo de local que ocupa o que foram os estábulos da antiga fábrica de moeda, La Seca, que hoje é um teatro de duas salas com uma estupenda programação.

O mirante de São Pedro de Alcântara, em Lisboa.
O mirante de São Pedro de Alcântara, em Lisboa.

À sombra das magnólias

Por Javier Martín

Há ruas que são e ruas que levam; ruas do dia e ruas da noite; ruas para crianças e ruas para amantes das compras; para caminhar e para dirigir. Em seus escassos 500 metros, a Dom Pedro V reúne tudo isso. Começa com o melhor mirante da cidade de um lado e o convento de São Pedro da Alcântara do outro, pois nesta rua têm igual atrativo ambas as calçadas, que nascem com exuberantes jacarandás roxos. Satisfeito o espírito, o resto é para os pecados do corpo. Vale a pena desfrutar da confeitaria São Roque e também – o dinheiro não será obstáculo – das empadas de frango da Doce Real um pouco mais à frente; entre uma e outra, o início da rua Rosa, íntima de dia, diabólica de noite; deixem-na para mais tarde, pois não convém desviar-se antes de chegar a uma fileira de boutiques que competem em última moda, para depois, cruzando a pista, retroceder cinco séculos.

Se há monumentos que justificam a visita a uma cidade, em certas ocasiões também ocorre o mesmo com algumas lojas. É o caso da Solar. Lucilia, sua apaixonada atendente, explica em um minuto a história do azulejo do século XVI ao XX com essas obras-primas em nossas mãos. A loja é uma tentação, pois quem não tem 20 euros para adquirir uma antiguidade? Ao contrário de todo mundo, Lucilia se ofende com os turistas que entram e saem em um piscar de olhos: "Mas se não viram nada!", recrimina-os no idioma que convier. O velho e o novo combinam tão bem como o luxo e os almoços econômicos de 5,95 euros (20 reais) por um correto arroz com peixe mais água e café no Tascardoso, já no outro extremo da rua.

A Dom Pedro V desemboca nos jardins do Príncipe Real, com seu velho cipreste e suas imensas magnólias ao redor do café da Esplanada. Ao cair da tarde, os dois quiosques da praça se enchem de gente bonita. É o lugar e a hora de passear os poodles e os Porsches, jantar no A Cevicheria e rematar no Pavilhão Chinês, outro lugar ímpar; tudo isso do dia para a noite, do convento para o bar, na Dom Pedro V, a rua das ruas.

A Via dei Coronari, em Roma.
A Via dei Coronari, em Roma.

O profano e o sagrado, de mãos dadas

por Pablo Ordaz

Nas luxuosas lojas de antiguidades situadas no início da Via dei Coronari, a dois passos da praça Navona, Silvio Berlusconi costumava comprar os presentes para as jovens convidadas de suas famosas festas. E ao final da rua à esquerda, Jorge Mario Bergoglio rezou diante da Madonna Dell'Archetto sua última oração antes de entrar no conclave de que saiu vestido de branco. Como diz o humorista Maurizio Crozza, Roma é a única cidade do mundo que é capital de dois Estados: "Um deles acredita em Deus e está sempre à espera do grande milagre; o outro é o Vaticano". A rua que, através da beleza, serve para unir esses dois mundos tão contraditórios se chama Via dei Coronari. Reúne, em seu meio quilômetro de estranha retidão – "na Itália, a distância mais curta entre dois pontos é o arabesco", dizia o escritor Ennio Flaiano –, os alicerces sobre os quais range a glória da cidade: o sagrado e o profano, o histórico e o efêmero, a praça com fonte e igreja e o beco – que dizem ser o mais estreito da cidade – que conduz a um palacete que no século XV pertencia a Fiammetta, a mais famosa cortesã da cidade, e que agora abriga a sede de um instituto financeiro.

Na metade da rua, e logo depois do pitoresco beco que abriga a Sorveteria do Teatro, está a igreja de San Salvatore in Lauro,construída no século XVI sobre a velha paróquia do século XI. Ali dentro, para admiração dos descrentes e devoção dos fiéis, são exibidas as relíquias de vários santos, sobretudo do capuchinho padre Pio (1887-1968), famoso pelos estigmas que tinha nas mãos. O percurso em direção à ponte de Sant'Angelo vai deixando registrado semana após semana que o pesadelo denunciado pelos moradores meses atrás já é uma realidade. Os velhos, discretos e belos estabelecimentos comerciais estão sendo substituídos a uma velocidade endemoniada por lojas de quinquilharias e bares de comida rápida. Também sobre os sampietrini – os típicos paralelepípedos romanos – da Via dei Coronari se constata a cada dia que a beleza de Roma é também sua maior ameaça.

Uma cervejaria no bairro de Spittelberg, em Viena.
Uma cervejaria no bairro de Spittelberg, em Viena.

Uma colina com atmosfera de povoado

Por José Miguel Roncero

Em grandes capitais como Viena, muitas ruas são amplas e majestosas, lembranças de um passado glorioso (este ano se comemora o 150º aniversário da Ringstrasse, a via circular que articula a expansão vienense). E outras ruas são pequenas, acolhedoras e evocam um passado em que a cidade mais parecia um grande povoado. O Spittelberg (o hospital da colina), situado no sétimo distrito vienense (Neubau) e a dois passos do bairro dos museus, é um bom exemplo.

O Spittelberg consiste, na realidade, de três ruas paralelas: Spittelberggasse, Schrankgasse e Gutenberggasse. A sensação, ao chegar ali, é de ter entrado em um pequeno povoado com calçamento de pedras, sem carros, silencioso. O passado rural e camponês dessa colina ainda respira em suas casas, algumas do século XVII. Vários edifícios parecem se erguer sobre a colina para obter a melhor vista. O Spittelberg foi, em outros tempos, uma área bem conhecida pela prostituição, frequentada por tipos suspeitos. O racionalismo burocrático vienense só se impôs no século XIX, quando a zona sucumbiu à simplicidade e elegância impostas pela arquitetura Biedermeier, da qual Spittelberg oferece excelentes amostras.

Daqueles dias de malandragem para cá, as coisas mudaram. Hoje se vai ao Spittelberg para passear, tomar um café ou beber com amigos, ou encontrar algo único para aquela pessoa especial. A colina se orgulha de oferecer gastronomia, diversão e cultura: um teatro, um cinema, cafés e bares tradicionais e contemporâneos, galerias de arte, lojas de design, chocolaterias e restaurantes. E há também muitas atividades de rua. No inverno, um dos mais famosos e alternativos mercados de Natal toma a colina. No verão é a vez das mesas na rua. E no primeiro fim de semana de cada mês há um mercado onde se vendem desde produtos de artesanato até antiguidades tiradas de algum porão próximo. Bem-vindos à colina.

A rua de Utrechtsestraat, em Amsterdã.
A rua de Utrechtsestraat, em Amsterdã.

Cinco séculos em 600 metros

por Isabel Ferrer

Situada entre duas praças centrais, a Rembrandtplein e a Frederiksplein, a rua de Utrecht (Utrechtestraat) nasceu em 1658 durante a grande ampliação de Amsterdã, uma das urbes mais prósperas da Europa naquela época, em pleno Século de Ouro. Embora seus 600 metros atravessem três dos canais mais importantes da cidade (Herengracht, Keizersgracht e Prinsengracht), não é uma rua que costuma ser lembrada por quem passeia pelo centro histórico. Seus edifícios são tipicamente holandeses, mas sem a embalagem daqueles erguidos pelos comerciantes que enriqueceram especulando com os tulipas. Além disso, é percorrida por uma linha de bonde e é preciso ter cuidado ao atravessar. No entanto, reúne em vários aspectos a essência de Amsterdã.

Sobrevivem apenas alguns imóveis de cinco séculos atrás, mas a sorte da Utrechtestraat está em seu comércio. Há moda, decoração, restaurantes, chocolaterias, joias e ateliês de ourivesaria e bijuteria, flores, retratistas, tatuagens, perfumarias, barbearias, confeitarias, delicatessen e sanduíches, lojas de ferragens, vinhos, revistas, imprensas, livrarias... Os bondes puxados a cavalo chegaram em 1877, e os elétricos, em 1904. Na atualidade, como também acontece progressivamente por toda a cidade, as bicicletas competem com carros e bondes.

Há chocolates artesanais na Van Soest Chocolatier; pães e bolos na Bakker Van Eijk; queijos na Kaashuis Tromp; roupa masculina sob medida na Romeyn Tailors, uma alfaiataria fundada em 1898; roupa e botas coloridas para mulheres na Lien & Giel; presentes inusitados na Jan; discos de vinil, CDs e DVDs, novos e de segunda mão, na Concerto, a maior loja do gênero no país. Aberto em 1967, o Sluizer é um restaurante que mistura clássicos como a sopa de tomate com receitas contemporâneas.

A Utrechtsestraat fica a um passo do museu Ermitage, a franquia holandesa da sala russa aberta em um antigo asilo. O teatro Carré, em um antigo circo, também está muito perto. À margem do rio Amstel, são parte da oferta cultural que coroa uma rua despretensiosa, mas com sabor autêntico.

A rua de Straedet, em Copenhague.
A rua de Straedet, em Copenhague.

Encontro no café do Beijo

Por Viveca Tallgren

No coração da parte medieval de Copenhague fica a Strædet, uma das ruas mais encantadoras da capital dinamarquesa. Paralela ao calçadão da Strøget, mas sem a movimentação ruidosa desta. Na Strædet (o beco) pode-se facilmente passar metade do dia entrando nas lojas e admirando seus belos edifícios do século XVIII.

Strædet é a denominação conjunta de três ruas seguidas, Farvergade, Kompagnistræde e Læderstræde, que desembocam na praça Amagertorv, perto do castelo de Christiansborg, sede do Parlamento.

Na Strædet há lojas de design de todo tipo: cerâmica, joias, roupa e móveis, além de exclusivas livrarias de segunda mão. Vale a pena visitar a loja da ceramista dinamarquesa Ditte Fischer, na Læderstræde 14. Quase em frente se encontra um dos cafés mais populares de Copenhague, o Kafe Kys (Café do Beijo).

Para comprar presentes ou alguma coisa bonita para a casa, a loja da desenhista Mette Grønlykke, na Læderstræde 5, tem grande variedade de almofadas, joias, abajures e cestaria, tudo em vivas cores. Um pouco mais adiante, na Kompagnistræde 8, fica a Kaiku, com sua exclusiva variedade de móveis, floreiras e outros itens domésticos de design moderno escandinavo. Na Frietzsches, com a fachada pintada de verde, são vendidas delicadas obras de cristal feitas à mão.

Na Strædet abundam os pequenos cafés e bares para todos os gostos, muitos com mesas na calçada durante o verão. O que têm em comum é que quase todos são bastante informais. O Hoppes, na Læderstræde 7, é um dos restaurantes mais populares, como também o RizRaz, na Kompagnistræde 20, que serve comida mediterrânea com um grande bufê vegetariano a bom preço.

O Bertels Salon, na Kompagnistræde 5, oferece café com seus famosas cheesecakes ao estilo nova-iorquino, e o Bar Maroc, um pouco mais à frente, serve chá de hortelã ao estilo marroquino com doces orientais. A Strædet tem até uma boa barbearia, a Atmosphair, onde trabalham três talentosas cabeleireiras.

MAIS INFORMAÇÕES