CONGRESSO NACIONAL DO PT

As vozes dos parlamentares

Cinco nomes do PT no Legislativo defendem o Governo e veem tática para desgastar Lula

Parlamentares do PT.
Parlamentares do PT.

Durante o V Congresso do PT em Salvador, o EL PAÍS ouviu dez integrantes da legenda sobre os desafios do partido. As cinco líderanças entrevistadas, entre deputados e senadores, fizeram discursos bem semelhantes entre si e culparam, em parte, a mídia brasileira pela má avaliação da sigla diante da população. Só um deles defendeu que o partido atue de maneira mais independentemente do Governo.

“Há um desejo forte de desqualificação do PT para 2018”

Delcídio do Amaral, 60, senador por Mato Grosso do Sul, líder do Governo no Senado. Filiado ao PT há 14 anos

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

O líder do Governo, Delcídio Amaral.
O líder do Governo, Delcídio Amaral.Jane de Araújo.

Resposta. O PT tem de entender o quadro que vivenciamos. O Brasil mudou e o PT foi um dos grandes responsáveis pela mudança do quadro social. As pessoas têm expectativas maiores com relação ao seu futuro. O PT tem de buscar debater essas questões e fazer uma discussão sincera, transparente de todos os temas. O PT precisa se renovar, entender que é da dinâmica do processo você reciclar uma série de ideias.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

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R. Se existem problemas, com relação aos dirigentes ou militantes do partido, isso a Justiça vai dizer. Mas não dá para carimbar o PT, está errado. O PT tem uma grande história, de preocupação com o país, com os menos favorecidos. Os 12 anos de Governo do PT mudaram o Brasil. Não podemos agora retroagir. E essa criminalização é para prejudicar nosso projeto para 2018. Não digo que não erramos. Erros aconteceram e procuramos aprender com eles. Mas há um desejo forte de desqualificação do PT para 2018. E se a economia melhorar, e acho que ela melhora, vamos muito forte.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. O PT governa Estados importantes e está tomando as medidas e cautelas necessárias para implementar as políticas que sempre implantou, principalmente as humanistas. O curioso é que a turma só fala do PT. E o Paraná, com o Beto Richa, ninguém fala? Isso é para você ver como as coisas são colocadas de maneira tendenciosa. É como se o PT fosse o grande responsável pelos males do país e não é isso. Temos de ter equilíbrio. É no diálogo que construímos um país melhor.

“Ao criminalizar o partido, o foco que buscam atingir é na figura do Lula”

Luiz Sérgio, 57, deputado federal pelo Rio de Janeiro, filiado ao PT há 35 anos.

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

O deputado Luiz Sérgio.
O deputado Luiz Sérgio.

Resposta. O PT tem de defender com a sua militância com entusiasmo o que conseguimos realizar porque somos também muito criticados pelos nossos acertos, que se constituíram em retirar milhares de pessoas da pobreza, criar oportunidades, diminuir o fosso que existe no Brasil entre os mais ricos e os mais pobres. Isso é a ética política, de você conseguir implementar o que estava no objetivo de criação de seu partido. Demos a oportunidade de formar uma geração de jovens que não sabe o que é passar fome. Tivemos uma série de avanços na área social e isso tem assustado um grupo político-econômico que sempre usufruiu do poder para eles. Como eles levaram meses para cair a ficha e entender que haviam perdido as eleições, mesmo tento o maior arco político, empresarial e da mídia, hoje concentram fogo em buscar desgastar a imagem de nossa maior liderança política. E fazem isso porque veem no presidente Lula uma ameaça para as eleições de 2018. Temos de ter clareza o que está em jogo.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

R. Ao criminalizar o partido, o foco que buscam atingir é na figura do Lula que, mesmo com todo esse processo, é reconhecido como o melhor presidente do Brasil e uma liderança forte e competitiva.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. O PT tem de ter uma firmeza como o Fernando Pimentel fez em Belo Horizonte, convocar uma coletiva e deixar as coisas sempre muito claras. Nesse caso dele foi uma manipulação no Estado de Minas Gerais. A ação da Polícia Federal em relação ao governador beirou o absurdo. O problema é que, em muitos momentos, esses absurdos não são denunciados. Por exemplo, a mídia fala muito do chamado mensalão do PT, mas o do PSDB é como se não existisse. Fala do cartel da Petrobras, mas o cartel do trem de São Paulo é como se não tivesse ocorrido. Fala que a Camargo Corrêa doou para o Instituto Lula, algo transparente, mas esquecem que ela doou muito mais para o Instituto Fernando Henrique Cardoso. A eleição de 2014 mostrou que o eleitorado não se deixa na sua totalidade se levar. Hoje, as pessoas pesquisam, não são meros consumidores de enlatados. Agora no caso de Cabula, quando ocorre uma chacina, há uma indignação. Tenho a certeza que o mais indignado de todos é o governador, que vai apurar e botar na cadeia os responsáveis por isso.

“As pessoas precisam entender que no PT não há um bando de soldadinhos de chumbo”

Arlindo Chinaglia, 65, deputado federal por São Paulo. Filiado ao PT há 35 anos.

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

O deputado Arlindo Chinaglia.
O deputado Arlindo Chinaglia.Câmara dos Deputados

Resposta. Precisamos recuperar a credibilidade. As pessoas precisam entender que no PT não há um bando de soldadinhos de chumbo. O que muitas vezes entendem como uma deficiência no partido, um racha, não é. O problema é que o PT perdeu o vigor da divergência. Ele se habituou a apresentar um rol de realizações governamentais. O PT por si só perdeu a capacidade de polarizar em temas nacionais. Quem polariza é o Governo. Quando o PT perde o Governo, ele acaba junto? Não pode.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

R. O ex-governador Jacques Wagner falou algo interessante um dia desses. Ele falou que quando o pecador peca, é esperado. Mas quando o pregador peca, é mais complicado. O PT, em seu surgimento, com uma presunção indevida, tinha orgulho de batalhar pela ética. A presunção era que só nós poderíamos batalhar pela ética. Quando você entra no décimo terceiro ano de um Governo, e escândalos ocorrem em qualquer gestão, nossos adversários de sempre se aproveitaram. E o PT perdeu condição de fazer esse enfrentamento porque ele primeiro tem de defender a governabilidade. Então, como você ataca um outro partido que é infinitamente ficha-suja e está na base do Governo se você tem de compor com essa legenda. O Fernando Henrique Cardoso falou lá atrás que essa era a aliança do atraso. E é por isso que a gente insiste em uma reforma política.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. Não domino esses fatos. Mas no caso da mulher do Pimentel, ele disse que foi um equívoco da PF. Ou ele tem razão ou não. Somos obrigados a ter a paciência para se apurar a veracidade dos fatos. Há descuidos hoje do aparelho do Estado. Vocês [jornalistas] são parte desse descuido pelo papel que tem a imprensa. Muitos órgãos de controle fazem tabelinhas com a imprensa e isso é usado como uma tese. Você cria um constrangimento e a partir dali você teria supostamente mais eficácia diante de alguns tratamentos. Agora, nesse momento a direita está muito assanhada, ela deu o golpe, ela apoiou a tortura e se coloca como o centro moralizador desse país. Ninguém tem esse moral para cima de nós.

“Só vemos o PT pagar, ser crucificado”

Moema Gramacho, 57, deputada federal pela Bahia. Filiada ao PT há 35 anos.

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

A deputada Moema Gramacho.
A deputada Moema Gramacho.

Resposta. Temos de melhorar a imagem do Governo com os avanços econômicos. É o momento inclusive de gerar muito mais empregos, com ações de infraestrutura. Não podemos deixar que o PAC e o Minha Casa Minha Vida sofram. Agora, internamente no PT, temos de chamar o nosso Congresso Constituinte, porque a gente precisa reoxigenar o partido, mudando a direção. Isso significa que temos de saber ser Governo, mas também ser propositivo garantindo que haja um debate com uma inflexão do PT sobre o Governo. Precisamos discutir uma condução compartilhada e transparente das finanças do partido, onde a gente possa saber tudo o que foi arrecadado, onde foi investido. Também defendemos o fim da sustentação empresarial. Queremos que o partido tenha sua autonomia sem depender do poder econômico dos empresários. Temos também de discutir a política de alianças, não só para as eleições, mas também para ter uma base de sustentação. Não podemos ter uma base fluída, que é base, mas não é base. Temos ainda que punir todos aqueles que comprovadamente praticarem ilícitos. Não podemos fazer como a mídia e fazer pré-julgamentos.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

R. Só vemos o PT pagar, ser crucificado. Se você ver as doações de campanha, as empresas que estão sendo investigadas na Lava Jato doaram para a Dilma e para o Aécio. A maioria dos deputados recebem financiamento empresarial, assim como a maioria dos partidos. Todos receberam, mas só o PT é crucificado. Isso porque eles não estão preocupados como nossos erros, só com nossos acertos. Qual o partido que governou esse país e governou para quem mais precisa? A oposição e parte da mídia oligárquica não aceitam nossos acertos. E não aceitam ver o Lula tendo a possibilidade de voltar a governar o país. Massacrar o PT, fazer com que Dilma e Lula sangrem é única chance para evitar o retorno de Lula.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. O PT tem lidado de forma coerente e responsável. Quem não tem lidado é parte da mídia e da oposição. O que o Beto Richa fez no Paraná contra os professores grevistas é inconcebível. Houve um massacre quando os professores exigiam o seu direito. O que a Câmara dos Deputados fez com a juventude que só queria ouvir a decisão sobre a redução da maioridade penal foi demais. Entendo que tenha deputado que queira ver nossos jovens morrerem ou sofrerem mais com a redução da maioridade, mas querer matar ou ferir esses jovens usando gás de pimenta em um ambiente fechado é absurdo. No caso de Cabula, o governador pode ter feito uma fala infeliz, mas ele defende a apuração. Ele sabe que foi um problema grave. Sua frase foi mal interpretada. Ele não é a favor da chacina.

“Se o Governo melhorar, o PT melhora junto.”

Humberto Costa, 58 anos, senador pelo Pernambuco. Filiado ao PT há 35 anos.

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

O senador Humberto Costa.
O senador Humberto Costa.A. B.

Resposta. Precisamos mostrar o real quadro para nossa militância. Muito do que ocorre hoje aí tem uma articulação política no sentido de desgastar o PT e que a própria mídia oposicionista puxa e recebe suporte da oposição. O PT abandonou uma prática de diálogo com a sociedade para uma ação mais institucional. Acabou se acomodando com a política pré-existente. Temos de fazer uma autocrítica de tomarmos a decisão de resgatar algumas coisas da vivência do PT e defendermos as soluções definitivas. E se o Governo melhorar, o PT melhora junto.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

R. Tem um objetivo claro, que a direita do Brasil tem, a mídia tem e alguns segmentos políticos ideológicos que existem na máquina do Estado querem também. O objetivo principal é atingir o ex-presidente Lula. Temos de reagir a isso. Se não houver reação, eles vão conseguir o que procuram.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. O caso de Minas Gerais já ficou claro que é uma armação. Ficou claro que se usava o nome de uma militante do partido para uma prestação de uso de campanhas falsas, que havia sido montada por uma pessoa do DEM, com má intenção. Qualquer investigação é uma preocupação que temos de ter, mas até o presente momento não há nada que justifique o que tem sido feito por essas forças. E sobre as outras questões administrativas dos governos, cada um tem sua autonomia. Mas se houver algo que exija o posicionamento do partido, a direção do PT tomará.


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