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As vozes dos militantes

Cinco filiados do PT que foram ao Congresso da Bahia discutem os caminhos do partido

Delegados no Congresso do PT. Ampliar foto
Delegados no Congresso do PT.

Militantes petistas ouvidos pelo EL PAÍS, durante o V Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizado em Salvador e que terminou neste sábado, discutem os rumos da legenda, que enfrenta uma crise institucional. Para os filiados, o partido precisa se abrir para mais diálogo e retornar às suas origens. Abaixo as entrevistas com cinco participantes do encontro.

O povo tinha esperança no PT e nós erramos porque caímos numa armadilha”

Gilson Nunes Vitorio, 68, vendedor ambulante, membro do movimento negro de São Paulo. Filiado ao PT há 25 anos

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

Gilson, 68, vendedor ambulante. ampliar foto
Gilson, 68, vendedor ambulante.

Resposta. O descrédito é da política em geral. O povo tinha esperança no PT e nós erramos porque caímos numa armadilha que foi preparada há algum tempo no Congresso. Acho que para recuperar isso, precisamos ouvir nossas bases. As deliberações desse Congresso precisam ser ouvidas. Também precisávamos ter uma boa reforma política, reforma tributária. Os movimentos sociais precisam de mais espaço para se apresentarem, as centrais sindicais mais espaço para colocar suas pautas para serem discutidas. Quem constrói o país são os trabalhadores. Precisamos retomar nossas origens.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

R. Isso acontece porque o PT defende a classe trabalhadora. Naturalmente a burguesia não quer perder o poder. Eles dominaram o Brasil desde 1500 e não querem deixar o poder de lado. Aí criminaliza o PT por erros que eles também têm. Querem nos acusar porque esse sistema foi implantado por quem sempre governou o país. Foram eles que impuseram os privilégios à burguesia, os privilégios aos amigos.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. O PT tem de ter uma visão crítica de governos. Precisa saber como se governa. Nos Estados sempre tivemos críticas à Polícia Militar. E temos de saber controlá-la quando somos governo. Se ela comete uma chacina, independente de quem for, tem de apurar. Não dá para defender a questão sem uma apuração. O Governo aqui da Bahia errou ao defender a polícia sem ter uma investigação sobre ela. Sobre Minas Gerais, tudo deve ser aprofundado. Sem uma investigação decente, não se sabe a verdade. Não precisamos temer, se não devemos nada. Só temos de cobrar lisura de nossos filiados.

“Temos de rediscutir como a política está no Brasil”

Cássio Maciel dos Santos, 26 anos, administrador, membro do movimento LGBT do Amapá. Filiado ao PT há seis anos.

Cássio, 26, do movimento LGBT do Amapá. ampliar foto
Cássio, 26, do movimento LGBT do Amapá.

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

Resposta. Temos de rediscutir como a política está no Brasil. Enfrentamos algumas dificuldades por conta da crise mundial. Precisamos estar preparados para administrar o Brasil. Sou da coordenação regional LGBT do Partido dos Trabalhadores e tenho trabalhado pela criminalização da homofobia. E hoje notamos que é necessário enfrentar um Congresso muito conservador. Por isso, o PT precisa se preparar, precisa ouvir bem suas bases, os movimentos sociais, dar espaço para que possamos nos manifestar. Quando o PT e o Governo nos escutam as coisas funcionam. Desde o Governo Lula já tivemos várias conferências LGBT, avançamos no combate das doenças sexualmente transmissíveis, mas queremos mais. Precisamos muito conseguir o apoio para a criminalização da homofobia.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

R. As pessoas até do próprio PT começaram a acreditar no que a mídia fala. Acreditam que o partido é composto de ladrão. E sabemos que isso muitas vezes é mentira ou há um exagero. Alguns cometeram erros e isso tudo tem de ser discutido. Temos de saber ao certo quem errou e onde nós acertamos. Essa análise é pouco feita.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. O problema nos Estados não são apenas do PT, tem sido geral. Não conheço esses casos específicos, mas em todas as regiões há o problema da crise econômica. Mas é claro quando somos de um partido do Governo, cabe a gente medir as estratégias de fazer a política.

“O partido tem de voltar para as bases e reacender a militância”

Írio Correia, 55, microempresário em Santa Catarina, cadeirante, filiado ao há 35 anos

Írio Correia, 55, microempresário. ampliar foto
Írio Correia, 55, microempresário.

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

Resposta. O partido tem de voltar para as bases e reacender a militância que ele sempre teve. É fundamental a gente ter ciência de o que sofremos hoje é uma série de ataques que coloca o partido na defensiva. Temos de ir para uma ofensiva, resgatando a militância fazendo com que ela possa ser reanimada e fazer a transformação que esse país precisa e o PT já faz há 12 anos.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

R. A elite e a mídia desse país acham que já perderam demais. Eles acham que as pessoas não possam mais ascender. Nesses 12 anos mais de 32 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza e isso choca a elite do país, que vem disputando com a classe trabalhadora os aeroportos, as rodovias, que agora podem comprar carro, podem viajar de avião, estudar. Isso choca a elite que sempre teve o país em suas mãos, administrando ao seu bel prazer.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. O PT tem de agir nos Estados e no país com bastante transparência. Esse Congresso vem reforçar a transparência e a luta do partido que tem em sua origem a classe trabalhadora. Precisa resgatar as origens para lidar com qualquer problema de gestão.

“Para sair dessa crise precisamos defender o trabalhador”

Maria Lúcia Machado, 57, professora no Pará, filiada ao PT há 27 anos

Maria Lúcia Machado, 57, professora no Pará. ampliar foto
Maria Lúcia Machado, 57, professora no Pará.

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

Resposta. A sociedade tem de entender que quando se governa não governa sozinho. Os interesses no Governo são de diversos setores, de várias camadas. Há bons a maus momentos. Estamos passando por um momento desfavorável, mas não em função simplesmente do PT. Só que precisamos entender que para sair dessa crise precisamos defender o trabalhador. Precisamos ouvir nossas bases. Infelizmente, tudo de ruim que sempre ocorreu na política só cai para o lado do PT. Com os outros partidos a Justiça não vê. O PT é sempre o único castigado.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

R. Porque o leme do barco conduzido pelo PT segue na direção dos trabalhadores. Não está mais no sentido das elites. Segue para os mais pobres e isso incomoda. A postura que a mídia toma mostra que só há dois projetos em jogo. Mesmo que o nosso tenha sido mal feito em alguns momentos, ainda é melhor do que o projeto das elites. Por isso, queimar o PT agora seria a alternativa para 2018. Essa tática é para evitar não só o Lula, mas qualquer representante da legenda que queira se candidatar.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. O PT tem de ser o mais correto possível e por isso o povo cobra muito ainda o PT, em qualquer esfera, municipal, estadual, nacional. Podemos ter falhas, mas precisamos corrigir nossos rumos. Temos de mostrar para os outros que os partidos têm de ser sérios e precisam ser valorizados. O que tem sido feito no Brasil é para que ninguém tenha um partido. E as instituições precisam ser valorizadas.

“O partido precisa repensar a forma de comunicação com a militância”

Neide Aparecida da Silva, 62, professora em Goiás, filiada ao PT há 29 anos

Pergunta. Qual é a saída para o PT conseguir melhorar sua imagem?

Neide, 62, professora em Goiás. ampliar foto
Neide, 62, professora em Goiás.

Resposta. Temos sofridos duros ataques de uma parte da imprensa, a mesma que dizia que quando o partido foi criado na década de 80 não conseguiria se estruturar. Aquela que sempre diz que o partido vai acabar. Esse Congresso mostra que isso não é verdadeiro. Sem dizer de forma alguma que o partido cometeu vários erros, como todos nós. Acho que o ataque maior é porque não houve ainda uma questão bem resolvida com relação às últimas eleições. Aqueles que perderam não se conformam que perderam no voto e uma forma de desgastar o governo é desgastando o partido de quem está no governo. E isso acaba se impregnando na militância, que não faz uma leitura do que ocorre de verdade. Que só acredita na mídia. De qualquer forma, nossa militância, nossa base social, os movimentos que nos apoiaram precisam ser mais ouvidos. O partido precisa repensar a forma de comunicação com a militância. Tem de se aproximar da juventude para não perdermos nossos referenciais. Em 2005 [na crise do mensalão], com todas as denúncias que sofremos corríamos o sério risco de perder o Governo. Mas com nossa militância atuando, conseguimos manter o presidente Lula. Isso precisa ser lembrado e usado como exemplo. O Governo vive um paradoxo porque se afasta dos movimentos que sempre o apoiaram para se aproximar de alguns aliados que exigem cargos em troca de apoio.

P. O PT, ao lado de outras siglas, está no centro do escândalo da Petrobras. Alguns dirigentes dizem que o partido está sendo injustamente criminalizado. O sr. concorda?

R. O objetivo inicial era para derrubar a presidenta Dilma. Mas isso está cada vez mais difícil. Agora, está na ordem do dia o ex-presidente Lula porque é um possível nome para 2018. É uma forma da oposição se fortalecer para 2018.

P. Além do problema nacional, há Estados como a Bahia e Minas Gerais em que os governadores do PT enfrentam problemas. O primeiro foi criticado pela forma como reagiu a chacina de Cabula, pela qual PMs são acusados. O segundo tem sua mulher investigada pela PF. Como lidar com essas questões regionais?

R. Qualquer denúncia deve ser apurada. Agora, o rigor com os membros do PT é maior do que o rigor com os filiados aos outros partidos. Vejo partidos que recebem as verbas, as doações das mesmas empresas que doam para o Partido dos Trabalhadores e nada acontece com eles. Eles nunca são vistos como corruptos. As mesmas empresas financiaram todos os partidos, de maneira legal. Mas para o PT, sempre olham de outra maneira. Não acho que o PT tenha mais ou menos erros do que outros partidos.

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