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FESTIVAL DE CANNES 2015
Opinião

Brilhante e emotivo Paolo Sorrentino

Caine e Keitel são dois atores excelentes a serviço de um diretor que cria sensações lindas

Brilhante e emotivo Paolo Sorrentino

Há diretores cujo estilo visual pode ser identificado para qualquer cinéfilo mesmo que seu nome não apareça nos créditos. Alfred Hitchcock foi, no passado, o máximo representante desse virtuosismo. Atualmente é Martin Scorsese. E também o diretor italiano Paolo Sorrentino. A linguagem e a narrativa desse homem provocam fascinação no olhar do espectador e deixam marcas. Claro, essa forma de se expressar, essa câmera deslumbrante, terminaria sendo inútil e superficial se o conteúdo fosse fraco ou falso. Mas no cinema de Sorrentino, as imagens e os sons estão a serviço de um mundo apaixonante.

Eu não percebi, na primeira apresentação em Cannes de A Grande Beleza, a imensa arte que existe nesse filme. Saí desconcertado, com a sensação de que tudo era excessivo. É um filme pelo qual me apaixonei nas seguintes vezes que assisti. Os festivais não são os melhores lugares para desfrutar da grandeza de determinado cinema. A culpa não é deles, mas do cansaço, da saturação e das condições anímicas do espectador.

Por isso fui à estreia de Youth, o último filme desse diretor, descansado, relaxado, bem dormido, com boas expectativas. E não me decepcionei. Senti seu encanto do princípio até o final. É brilhante, mas também emotivo. Dessa vez o circo de Sorrentino está situado em um hotel e balneário precioso nos Alpes suíços, habitado por uma fauna tão heterodoxa quanto surpreendente. Convivem monges budistas cujo espírito flutua, uma espécie de Maradona em lamentável estado físico e mental, uma Miss Universo com o cérebro perfeitamente mobiliado, um casal de anciãos que parecem se odiar, mas no qual sobrevive um furioso e mútuo desejo carnal, um ator filosófico que odeia ter obtido sucesso interpretando um robô. É um universo entre surrealista e pitoresco. Com todos esses personagens é possível rir ou sentir inquietude. Mas o protagonismo, a reflexão fundamental de Youth, é sobretudo trágico.

Os fantasmas do passado

O filme fala da devastação que impõe a velhice, quando apenas restam as lembranças, as dúvidas sobre a forma na qual se vive a existência, a forçada convivência com o deterioro do corpo e do cérebro, o retorno dos fantasmas do passado. É protagonizada por dois idosos que foram amigos íntimos desde sua juventude. Os dois são artistas consagrados. Um deles é um lendário diretor de cinema que mantém o entusiasmo para tentar rodar um filme que significaria um testamento à altura de sua obra. O outro, compositor e diretor de orquestra cujas criações foram veneradas, sente apenas apatia em relação a sua arte e se nega obstinadamente a voltar aos palcos para dirigir uma de suas mais antigas e famosas óperas, que será apresentada para a rainha da Inglaterra. Juntos vão repassar suas vidas, suas obsessões, seus amores, os segredos que foram guardados, suas culpas, os momentos de plenitude, os anseios que foram frustrados, o medo em relação ao iminente nada. Michael Caine e Harvey Keitel dão vida à cumplicidade entre esses dois homens angustiados. Quero dizer: conseguem transformá-los em personagens complexos, magnéticos e críveis. São dois atores excelentes a serviço de um diretor que cria sensações lindas, imaginativo e profundo, lírico e amante do grotesco, mágico sem precisar fazer muitos esforços.

Mountains may depart, do prestigioso diretor chinês Jia Zhang-Ke, muda o formato da tela na metade da história. Não sei o motivo. É um filme com vocação de melodrama. Descreve a existência de vários personagens, que abandona de vez em quando sem dar explicações, de 1999 a 2025. São dois amigos apaixonados pela mesma garota. Acabarão mal tanto os supostos ganhadores quanto o perdedor. Durante a primeira hora sou tomado pelo tédio, o tom é aborrecido, os atores me parecem ruins. Mas na segunda parte, protagonizada pela relação entre um filho atormentado e errático do antigo casal e uma professora que tem o dobro de sua idade, exilados na Austrália e interpretados por um ator e uma atriz muito bons, consegue me colocar dentro de um filme que parecia destinado ao naufrágio. Imagino que os sinólogos valorizarão mais que eu o retrato que o diretor pretende fazer sobre a vertiginosa transformação da China nos últimos tempos.

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