Festival de Cannes 2015

As mil e uma noites da crise portuguesa

O diretor Miguel Gomes estreia na Quinzena dos Realizadores três filmes que misturam os míticos contos árabes com a realidade de seu país

Fotograma do filme português 'Arabian nights', de Miguel Gomes, apresentado em Cannes na Quinzena de Realizadores.
Fotograma do filme português 'Arabian nights', de Miguel Gomes, apresentado em Cannes na Quinzena de Realizadores.

Ainda restam formas criativas de contar a crise sem cair no óbvio cinema social, de dar uma guinada criativa à realidade e usar a fábula para que o espectador desfrute do conto sem receber uma mensagem atrás da outra. Nanni Moretti utiliza o artifício de uma diretora que roda um filme sobre uma fábrica em greve em Mia Madre (Minha Mãe), que compete em Cannes, e o português Miguel Gomes vai ainda mais longe ao usar os contos de As mil e uma noites, com Sherazade desfiando história após história para entreter o rei, a fim de mostrar o Portugal em Arabian Nights.

Gomes (Lisboa, 1972) nunca escolheu o caminho fácil. Seu terceiro filme, Tabu (de 2012, que estreou no Brasil), prêmios Alfred Bauer e FIPRESCI no Festival de Berlim, jogava com o passado das colônias portuguesas na África, o presente e um maravilhoso preto e branco para falar do amor e da solidão. De quebra, confirmava sua figura como um dos cineastas europeus emergentes mais interessantes. Agora apresenta um trabalho de 381 minutos que dividiu em três partes – e que assim é projetado em Cannes, com um dia de distância entre as projeções. “A primeira é mais barroca, com uma mudança contínua de narrador. A segunda é mais austera... Embora não gostemos dessa palavra na Espanha e em Portugal, certo? Bom, não é a austeridade de Angela Merkel. E certamente é mais escura e trágica, mas com humor. O protagonista não é uma pessoa, e sim um coletivo, os portugueses, e essa comunidade está desesperada. No final, o filme termina num tempo mais... descontrolado.”

O diretor – que fala um castelhano impecável – não é muito otimista nem pessoalmente nem no filme: a sociedade que mostra se degrada “até se aproximar de um mundo Mad Max”, embora a parte final de sua trilogia seja “mais ligeira e leve – daí ser chamada de El Encantado”. Enfurnado numa produção de 14 meses, ainda que tenham sido apenas 16 semanas de gravação, Gomes filmava e montava, e assim descobriu o formato: “Percebi que, como o livro, precisava dividi-la em três partes. Não era preciso contar histórias, mas manter sua diversidade. E, como o tom também muda, ficou claro que havia três filmes diferentes. Eles não podiam ser vistos um depois do outro – o público precisaria de um intervalo para curti-los. Afinal, é o mesmo que ocorre com Sherazade, não? Cada noite ela conta uma história, não fica falando sem parar. É preciso criar o desejo de querer ver mais. Mais ou menos como acontece em Guerra nas Estrelas.” Cannes atendeu ao seu desejo e projeta cada episódio com 48 horas de diferença. Sentado na tenda da Quinzena, montada sobre a arena de La Croisette, o português fuma e sorve um pouco de vinho branco, enquanto ritmicamente hipnotiza com seu discurso, do mesmo jeito que faz com seu cinema.

Gomes sempre sonhou em adaptar As mil e uma noites. “Se alguém fizesse uma adaptação integral do livro, seria um blockbuster. Mas não sou rico. Então mantive sua estrutura complexa, sua riqueza, e fui escolhendo histórias reais da crise portuguesa que tinham tanto dramatismo como surrealismo. Aconteceram coisas tão absurdas em meu país que o público só acreditaria nelas se fossem contadas por Sherazade”, afirma. Por isso, Gomes viajou e rodou por todo o seu país. “Pode ser que as histórias dos habitantes não tenham nada de grandioso nem de novelesco, mas elas ocorrem. E pode ser que, para que as vejamos, precisemos recorrer ao lado fabulador do cinema. Não bastam as reportagens nem o jornalismo. Em tempos de crise, nasce um imaginário coletivo ao qual devemos estar atentos para captá-lo e refleti-lo, um espírito na sociedade que vale a pena mostrar. Na metade da terceira parte, Sherazade entra em crise. Está farta de histórias dramáticas, não quer continuar contando nada, não acredita que ninguém sobreviva a tanta dor. E só continua o seu trabalho quando entende que a narração é feita para que as histórias se prolonguem no tempo e se propaguem, para que passem de pessoa a pessoa. Esse é o espírito: não filmo para mim, mas para que meus filmes sejam vistos pelo maior número possível de pessoas. Quanto mais gente, melhor.”

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