Igualdade de Gêneros

Uma mulher na nota de 20 dólares

Cédulas em circulação nos Estados Unidos têm somente rostos masculinos Campanha procura substituir o rosto do ex-presidente Jackson pelo de uma abolicionista

Montagem de uma nota de 20 dólares com o rosto de Harriet Tubman.
Montagem de uma nota de 20 dólares com o rosto de Harriet Tubman.Women on 20s

Os Estados Unidos, vejam só, nunca tiveram uma mulher estampando as cédulas de dólar norte-americano. O dinheiro mais famoso do mundo é dominado totalmente por homens ilustres, com a condição de que estejam mortos. A única exceção – não de carne e osso – é a Lady Liberty, figura simbólica representada na estátua da Liberdade, que apareceu em moedas a partir do século XIX. Também houve edições limitadas de moedas com as efígies da exploradora indígena Sacagawea e da protofeminista Susan B. Anthony. Mas, no papel-moeda, os norte-americanos não têm equivalentes à figura da poetisa Cecília Meireles ou da princesa Isabel, que décadas atrás já estampavam notas em circulação no Brasil.

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Mas uma campanha pretende mudar isso e colocar uma mulher na nota de 20 dólares antes de 2020, ano em que uma possivelmente – apenas possivelmente – uma mulher tentará pela primeira vez se reeleger presidenta dos EUA. A data não é aleatória, mas tampouco foi escolhida para coincidir com o final de um eventual primeiro mandato de Hillary Clinton na Casa Branca, caso ela consiga se eleger presidenta em 2016. Em 2020 completam-se cem anos do sufrágio universal nos Estados Unidos, o que contribui para a carga simbólica da atual reivindicação. Desde 1929 não há mudanças no dinheiro norte-americano.

Tudo começou há alguns anos, quando a construtora Barbara Ortiz Howard, sentindo-se em minoria num negócio dominado por homens, percebeu que as mulheres estavam sub-representadas até mesmo no dinheiro que passava por suas mãos todos os dias. Howard fez então o que se faz agora: mandou um e-mail a todas as mulheres que conhecia – de amigas a clientes – manifestando sua insatisfação e pedindo sugestões sobre qual mulher deveria aparecer numa cédula de dólar. Como não há possibilidade de criar novas cédulas (elas são 11, embora apenas 7 estejam em circulação), a pergunta seguinte naturalmente era: e quem vamos tirar?

A vencedora da votação foi Harriet Tubman, uma escrava que fugiu e  retornou ao sul dos EUA para libertar outros escravos

Com uma amiga, a jornalista Susan Ades Stone, Howard iniciou uma campanha na internet denominada Women on 20s (algo como Mulheres nos 20), que no domingo passado, Dia das Mães também nos EUA, revelou o nome da ganhadora, após uma votação que atraiu mais de 600.000 participantes desde 1º de março.

Substituir um dos homens presentes nas cédulas não é um processo longo e complicado que exija um debate no Congresso – como tantos outros assuntos neste país. Bastaria uma canetada do presidente Barack Obama para que o Tesouro fizesse isso. E Obama já declarou no passado sua simpatia pelo assunto, ao mencionar em um discurso a carta enviada por uma menina que se queixava da inexistência de mulheres nas verdinhas.

Entre mais de 15 candidatas – incluindo Rosa Parks, Eleanor Roosevelt, Betty Friedan, Patsy Mink e Frances Perkins –, a ganhadora foi Harriet Tubman, que fugiu da escravidão e ajudou muitos outros cativos a fazerem o mesmo, arriscando a sua própria vida ao voltar ao território Dixie. Em segundo lugar ficou Roosevelt, com Parks em terceiro. Em quarto lugar apareceu Wilma Mankiller, primeira mulher escolhida nas urnas como chefa da nação Cherokee, que morreu em 2010. Mas por que mencionar a quarta colocada? Não bastaria citar a segunda e a terceira?

Não, isso tem uma lógica. Tudo indica que o homem desalojado será Andrew Jackson, o presidente norte-americano que não só se manifestou contra o papel-moeda – ele deve ser revirar na tumba cada vez que um caixa eletrônico cospe notas de 20 com sua cara – como também obrigou a Nação Cherokee a percorrer um Caminho de Lágrimas (Trail of Tears), depois de assinar o decreto que expulsava os índios dos seus territórios. A vitória de Mankiller teria algo de justiça poética.