Crise na GréciaEditoriais
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Linhas vermelhas

A Grécia deve compreender as razões de seus parceiros se quiser superar crise de liquidez

Dois meses depois do grande princípio de acordo alcançado entre a Grécia de Alexis Tsipras e o grupo da zona do euro para mover uma ponte entre o segundo resgate (quase finalizado) e o terceiro (ainda pendente) da economia grega, as negociações emperraram. Ainda pior: a tensão entre os protagonistas aumentou até o extremo, como demonstrado esta semana pela reunião do Eurogrupo (os 10 ministros da Fazenda da zona do euro).

Enquanto isso, na ausência de um acordo, a República Helênica enfrenta uma crise de liquidez recorrente e exponencial, assim como a contínua deterioração de sua economia real, mal disfarçada pela abertura da temporada turística. Essa crise de liquidez ainda não é propriamente trágica, devido à limitada quantia de recursos urgentes para contê-la. Mas é perigosa, porque poderia gerar a qualquer momento um acidente indesejado. O esgotamento dos recursos públicos levou o Governo de Tsipras a confiscar as reservas dos municípios, uma medida polêmica e questionada que simboliza a gravidade do momento.

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Certamente essa tensão se prolongará até quando puder se sustentar. Sempre é assim nas negociações europeias, sobretudo quando, mais do que o entusiasmo pelo acordo, alguns dos atores parece preferir adotar todas as táticas do jogador de cartas, com o objetivo de esgotar a paciência de seus parceiros. Além disso, convém não esquecer que o que está sendo finalizado é apenas a culminação do segundo resgate, e faz sentido que nem o devedor nem seus credores se precipitem em fazer concessões que possam deteriorar suas respectivas posições para a negociação do terceiro, que é chave. Por isso, a própria continuidade da discussão não incentiva objetivamente um acordo rápido: um paradoxo inquietante, uma vez que esse resultado seria o melhor cenário para todos.

Melhor, especialmente para a Grécia, a parte mais frágil e que mais joga na partida. Seria conveniente aos cidadãos gregos que seus dirigentes entendessem o (considerável) grau de sensatez inerente às implícitas linhas vermelhas da UE: não desfazer o caminho de consolidação fiscal (ajuste do orçamento) alcançado na Grécia, embora possa ser obtido com algumas medidas diferentes; não pensar que com sua ajuda financeira a situação do país resgatado (em generosidade das pensões ou valores do salário mínimo) seja mais favorável que a própria; rejeitar que a justificativa moral para costurar a fratura social grega possa ser usada como chantagem contra seus parceiros, que não são todos ricos; exigir que as medidas alternativas propostas sejam proporcionais, sem cálculos ilusórios de receitas galopantes nem otimismo inverossímil na redução de gastos.

Se Atenas desdenha essas posições e apenas pensa nas suas — às vezes justificadas — razões, tudo se tornará ainda pior.