JIM YONG KIM | PRESIDENTE DO BANCO MUNDIAL

“O mundo sabe como vivem os ricos e por isso exigirá mais igualdade”

O presidente do Banco Mundial diz que a instituição está preocupada com o Brasil

Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial, esta semana em Washington.
Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial, esta semana em Washington.Chris Goodney / Bloomberg

Jim Yong Kim (Seul, 1959) preside o Banco Mundial desde 2012 com o respaldo de Barack Obama. Médico naturalizado americano e responsável pelo programa para o HIV na Organização Mundial da Saúde (OMS), destacou-se em seu mandato pela atenção às crises sanitárias e à mudança climática. Também enfrentou críticas internas pela reforma que pretende fazer na organização. Jim Yong Kim concede esta entrevista em Washington, pouco antes de começar a reunião de primavera do Banco Mundial com o FMI. Não vê um problema de rivalidade na criação do novo Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura. Sempre responde que há muitas obras a realizar. “Esperamos colaborar estreitamente com eles”. Sua obsessão é o programa Rumo a Lima, uma revisão das necessidades essenciais para o desenvolvimento dos países emergentes ante a assembleia anual que acontecerá no Peru em outubro.

Pergunta. Na semana passada aconteceu um fato histórico, a aproximação entre os Estados Unidos e Cuba. Quais consequências prevê?

Resposta. É muito importante que países que não se falavam comecem a fazê-lo, mas é muito cedo ainda. Cuba era membro do Banco Mundial, depois saiu e, para retornar, há um processo especial a seguir. Primeiro deve incorporar-se ao FMI, devem chegar a um acordo de como medem o crescimento econômico e outros aspectos... Logo, depende de que papel querem desempenhar no Banco. No Congresso dos Estados Unidos há uma lei que diz que se o Banco Mundial emprestar dinheiro a Cuba, os Estados Unidos vão retirar esse valor, dólar por dólar, de suas contribuições ao Banco, assim temos que ver como resolver isso, mas há muitos passos prévios. Aplaudimos o início das conversações, mas temos de ver como serão.

P. A Argentina e a Venezuela estão em recessão, o Brasil estagnou…. Qual pode ser o motor da região?

R. É uma fotografia mista. Temos uma previsão muito mais brilhante para o México, porque está muito vinculada à economia americana – e seu crescimento é muito bom – e porque pôs em andamento reformas críticas no setor de gás e no de telecomunicações e isso produziu um grande efeito na confiança dos investidores. A desaceleração da China e sua menor demanda por matérias-primas teve um impacto enorme nas economias latino-americanas. O Brasil foi um agente muito importante nisso, os níveis de investimentos foram baixos e, com a situação do petróleo, estão ainda mais baixos. Estamos preocupados, mas há um claro compromisso em proteger os avanços dos últimos 20 anos na criação de classe média e na redução de desigualdade.

P. Mas houve algo decepcionante com as reformas da América Latina: nos anos 1990, muitos países empreenderam mudanças e privatizações e não evitaram a estagnação.

R. Muitas coisas aconteceram nos anos 1990 e esse processo recebeu críticas, que eu compartilho, como algumas privatizações. A privatização dos serviços sanitários do Peru foi feita com critérios ideológicos, por exemplo. Mas quando trabalhei ali, o país estava justamente se recuperando da hiperinflação. E por que ocorre essa hiperinflação? Porque não há uma separação saudável entre os ministros de Finanças e os bancos centrais. Muitas coisas que foram feitas nos anos 1990 foram importantes, como a separação de governos e autoridades monetárias, porque assim os bancos centrais não imprimiam dinheiro seguindo desejos políticos. O risco de hiperinflação é agora muito mais baixo graças a isso, por exemplo.

P. A maior parte das diferenças entre países são fruto dos últimos 200 anos. Um livro muito popular, Por que as Nações Fracassam, culpa as instituições. Compartilha dessa ideia?

R. A qualidade das instituições é decisiva. Quando os governos e as instituições são fortes, veem-se resultados muito diferentes de quando são fracas. Em alguns países, ajudamos a criar unidades dentro dos governos que monitoram a qualidade do trabalho governamental. Eu tenho uma unidade assim em minha organização, o Governo de Tony Blair também tinha… Esse livro apresenta grandes desafios, devemos ajudar os governos a melhorar suas instituições. E acredito que quando os políticos virem que esta é uma forma para que seus partidos sejam reeleitos no Governo, o compromisso será maior.

P. O objetivo do Banco Mundial é acabar com a pobreza extrema em 15 anos. A crise atual vai permitir?

R. É preciso mudar a relação entre crescimento e redução de pobreza para que o crescimento tenha mais impacto. Como? É importante investir em seres humanos, em saúde, educação e em proteção social. Na África, por exemplo, melhorar a produtividade da agricultura é essencial, para isso é preciso investir em energia, transporte… Sou otimista, podemos fazê-lo.

P. A relação entre crescimento e desigualdade também é um assunto nas economias desenvolvidas, não só nas pobres. Não lhe dá a sensação de que quando se avança na redução da pobreza se retrocede na inclusão dos países ricos?

R. O primeiro objetivo é reduzir a pobreza, o segundo é impulsionar a distribuição da riqueza. É a primeira vez que o Banco Mundial define isso como objetivo específico. Pensamos que os sistemas fiscais progressivos são melhores, apesar de não tomarmos nenhuma posição política concreta sobre impostos. Preocupamo-nos, sim, em como fazer as pessoas nos 40% mais baixos dos países em desenvolvimento se beneficiarem mais do crescimento. Mas não devemos enfocar a distribuição em oposição ao crescimento, porque pode ter efeitos negativos.

P. Sempre existiu desigualdade. Por que agora isso preocupa as grandes instituições? Temem-se os efeitos na democracia?

R. Uma parte disto se deve à democratização dos meios de comunicação e acredito que é muito bom. Aumentou a capacidade de comunicação global, até para as pessoas que não têm acesso aos meios de comunicação tradicionais. Antes havia jornais ou redes de televisão, mas agora a comunicação vem de qualquer lugar e muito rápido. Certa vez viajei com o presidente Evo Morales ao norte da Bolívia, a uma comunidade de 3.000 habitantes em um lugar isolado, onde se falava uma língua indígena… E quando chegamos, as pessoas nos fotografavam com seus smartphones. Uma coisa que aprendi é que mesmo nessas zonas remotas, todo mundo sabe como vivem os ricos de seu próprio país e do resto do mundo, por isso a demanda por mais igualdade vai ser maior. Veem que suas vidas não são como as que veem na televisão e querem mais, é natural. O que devemos fazer? Dizer a eles: são essas as coisas em que se podem trabalhar nos próximos anos para reduzir essa brecha, a educação é essencial.

P. Sempre alerta contra a armadilha da renda média.

R. Muitos países conseguem entrar no grupo da renda média, mas não dão o passo seguinte. A Coreia do Sul começou exportando produtos básicos – televisores em preto e branco, depois em cores… – e agora exporta eletrônicos, tomaram medidas para o segundo passo. Mas outros países não fazem isso, especialmente os que chegam à primeira fase da renda média graças às matérias primas. E aqui, insisto, a educação é decisiva, é um dos temas cruciais do Rumo a Lima. São necessárias habilidades diferentes para a próxima fase do crescimento econômico na América Latina. Esses países também devem trabalhar na parte mainstream das matérias primas, no que se faz com elas depois de serem extraídas. É o que pode levá-los à próxima etapa.

P. Que papel pode desempenhar a tecnologia?

R. Quando comecei a trabalhar em Lima em 1994, tínhamos de ficar 30 minutos na fila para usar o telefone, mas na última vez em que estive ali tinham acesso 4G. Com esse tipo de acesso e tablets pode levar os melhores professores do mundo até as salas de aula mais pobres. A igualdade de oportunidades requer melhorar a educação desde a mais tenra idade para chegar a criar indústrias sofisticadas.

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