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Brasil vai encolher 1% em 2015, segundo o FMI

A falta de confiança de investidores e o 'caso Petrobras' contribuem para o resultado

Cartaz na sede do FMI em Washington.
Cartaz na sede do FMI em Washington. AFP

A América Latina se aproxima da escuridão e corre o risco de ficar presa nela. Da sempre calculada linguagem do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobressai no seu último relatório de previsões um conceito em relação às economias latino-americanas: “Prognóstico apagado”. Em suas previsões de abril, difundidas nesta terça-feira em Washington, o Fundo prevê que o PIB regional crescerá 0,99% em 2015, depois de uma expansão de 1,3% no ano passado. São quatro décimos menos em relação às estimativas de janeiro, e 1,3 ponto a menos em comparação com as de outubro. Por países, o Brasil e a Venezuela dominam as más notícias. A primeira economia regional e sétima mundial se contrairá 1% este ano devido a apatia das empresas e consumidores, além os desequilíbrios de competitividade em meio à instabilidade desencadeada pelo escândalo de corrupção na empresa pública Petrobras.

A rapidez da deterioração da economia brasileira é alarmante e pode contagiar os demais países da região: o prognóstico de janeiro era que o país cresceria 0,3% em 2015; e o de outubro, 1,4%. O Fundo aplaude os planos de ajuste do Governo de Dilma Rousseff, mas alerta que prejudicarão a demanda no curto prazo. Para 2016 o FMI prevê alta do PIB de 1%, uma redução de meio ponto em relação às previsões de janeiro. “As medidas (de ajuste fiscal) tomadas são adequadas, mas o Brasil tem problemas que vão além do macroeconômico. Tem um problema de corrupção que conhecemos e esperamos que seja solucionado”, afirmou Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI em coletiva de imprensa.

No entanto, a variação negativa da economia do Brasil fica muito longe da apontada para a Venezuela: em seis meses o FMI passou de prever uma queda em sua economia de 1% este ano para uma de 7%. Em paralelo, a inflação manterá sua ascensão imparável: até 96,8%, ou seja, 30 pontos a mais que em 2014. A redução do preço do petróleo golpeia os países exportadores na região, mas a nenhum deles como a Venezuela, cuja economia está estreitamente ligada às vendas petrolíferas e sofre severos desequilíbrios internos.

A América Latina continua perdendo impulso econômico por causa da combinação de queda do preço do petróleo e de outras matérias-primas com um investimento menor. A isso se somam várias turbulências internas e externas que levam o FMI a prever que este será o quinto ano consecutivo de redução do crescimento econômico na América Latina.

O pessimismo se agudizou em seis meses e distancia a região – até poucos anos símbolo do boom dos emergentes – do conjunto de países em desenvolvimento (a previsão é que cresçam 4,3% em 2015) e da média mundial (3,5%). Em 2016, o panorama latino-americano vai melhorar, com um crescimento de 2%, segundo o relatório, mas três décimos abaixo da estimativa de três meses atrás.

A Venezuela encabeça as baixas nas previsões do FMI

O desabamento dos preços da energia, aliado a outros fatores, também afeta as previsões de crescimento do México, Colômbia, Peru e Chile; mas a aterrissagem é mais suave. Este ano, crescerão, respectivamente, 3%, 3,4%, 3,8% e 2,7%, segundo os cálculos da instituição dirigida por Christine Lagarde. Ao mesmo tempo, do lado das melhoras relativas, o destaque é a Argentina: sua economia recuará 0,3% em 2015, enquanto em outubro a estimativa era de -1,5%.

Em uma intuição preocupante, o Fundo alerta que não se nota um “impulso aparente” no curto prazo na atividade da América Latina. Prevê que os preços das matérias-primas se manterão baixos e avisa que as exportações podem retroceder mais se a demanda chinesa recuar além do que o previsto.

A queda do preço da energia beneficia países importadores da América Central e do Caribe, mas o efeito, diz o relatório, pode ficar neutralizado em razão da dependência financeira de muitos deles da ajuda estatal da Venezuela.

Outro risco regional – objeto de constante escrutínio – é o impacto que pode ter a esperada alta das taxas de juros nos Estados Unidos, que poderia provocar fuga de capitais e dificultar o financiamento empresarial. Mas, por sua vez, a consolidação da recuperação da economia mundial pode beneficiar seus maiores parceiros comerciais na região, como o México.

As reduções do preço do petróleo e de outras matérias-primas, além de um menor investimento,

levam o FMI a prever o quinto ano consecutivo de redução do crescimento na América Latina

Essa dualidade evidencia o jogo de equilíbrios latentes com que a América Latina se depara: limitar a freada atual, enquanto tenta manter a tendência de redução da pobreza, registrada nos últimos anos, e sentar as bases para um maior potencial de crescimento.

O FMI argumenta que o uso flexível das taxas de câmbio pode ajudar a amortizar a redução da demanda e defende reformas de fomento da oferta e de melhora da produtividade. Nesse sentido, recomenda a manutenção de políticas fiscais “prudentes” porque, avalia, se forem priorizadas as medidas de estímulo em relação às de melhora da oferta e da competitividade isso poderá abalar a estabilidade macroeconômica alcançada nos últimos anos. O objetivo final: evitar a escuridão.