Criação de empregos tem freada brusca nos EUA

Em março, foram abertos 126.000 postos. O dado poderia levar o Fed a adiar a alta de juros

Jovens em fila de feira de carreira em engenharia e tecnologia da Universidade de Nova York, no Brooklyn.
Jovens em fila de feira de carreira em engenharia e tecnologia da Universidade de Nova York, no Brooklyn.Michael Nagle (Bloomberg)

A economia dos Estados Unidos deu outro sinal de moderação, ao criar apenas 126.000 postos de trabalho em março. O ritmo de criação de empregos é o mais baixo desde dezembro de 2013, e representa a metade do número registrado nos 12 meses anteriores. A taxa de desemprego se manteve estável em 5,5%. O fraco resultado poderia levar o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) a adiar a alta de juros até pelo menos o final do verão boreal (meados de setembro).

A primeira leitura do dado está muito abaixo das expectativas de Wall Street. O consenso de mercado antecipava a criação de 243.000 empregos em março. Não foi a única má notícia do relatório do Departamento de Comércio. Também foram revisados para baixo os dados dos dois meses anteriores. O número de fevereiro ficou em 264.000 ocupados, comparados às 295.000 vagas anunciadas há um mês; o dado de janeiro foi revisado de 239.000 para 201.000 empregos.

O mercado esperava uma freada, mas não tão brusca como a mostrada nas estatísticas. Nos últimos 12 meses, os EUA eram um máquina de criar empregos, com mais de 200.000 postos criados mensalmente desde março de 2014. Foi o melhor período de criação de empregos em duas décadas, que agora foi interrompido. O dado de março ainda será revisado duas vezes mas, ainda que o número seja maior, seria complicado retomar o nível dos meses anteriores.

A média de criação de empregos nos EUA até agora era de 266.000 por mês, considerando as revisões. A média do primeiro trimestre ficou em 197.000 postos de trabalho, frente aos 324.000 no mesmo período de 2014. O inverno rigoroso poderia explicar a forte freada do ritmo, mas só em parte. O mercado de trabalho também pode estar sentindo o efeito da apreciação do dólar no setor exportador e da desvalorização do petróleo no setor de energia.

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Outro sinal de dúvida sobre a saúde do mercado de trabalho dos EUA é a taxa de participação, que voltou a cair para 62,7%, o menor nível em 37 anos. De fato, esse é um dos fatores que explicariam por que o desemprego está tão baixo. Cerca de 30% dos desempregados são de longo prazo (mais de seis meses sem trabalho) e 6,7 milhões de pessoas são obrigadas a trabalhar meio período, que se somam aos 2,1 milhões que desistiram de procurar emprego de forma ativa.

Renda decepcionante

Mais que uma má notícia, a renda do mercado de trabalho se mostra decepcionante, e já acompanha outros indicadores no lado do consumo, como a produção industrial e moradias, revelando que a economia dos EUA não avança com tanta força como esperado. A sólida criação de empregos vista até agora havia alimentado o debate sobre a primeira alta dos juros nos EUA desde junho de 2006, embora o Fed visse a situação com cautela.

Até a publicação do dado de emprego, se esperava que o aumento das taxas poderia ocorrer entre junho e setembro. A próxima reunião do Fed está marcada para o final do mês mas, sua presidenta, Janet Yellen, já descartou que a alta ocorra nesse encontro. No entanto, no último encontro, o Fed decidiu retirar a palavra “paciente” do comunicado ao mercado, para então definir a estratégia a cada reunião, dependendo dos dados econômicos. O nível de emprego volta a ser o foco.

Wall Street também estima que o encarecimento do dinheiro ocorrerá mais cedo ou mais tarde nos EUA, ao contrário da Europa e do Japão. Mas, nesta sexta-feira, os mercados acionários nos EUA não puderam mostrar a reação aos dados de emprego, devido ao feriado da sexta-feira santa. A única referência podia ser vista em Chicago, onde o mercado de bônus tinha previsão de operar até as 12h (13h em Brasília). O mercado de câmbio futuro indicava uma apreciação do euro.

Agora é preciso ver como esse dado muda o debate e os cálculos. Em suas últimas projeções, o Fed estimou um crescimento de 2,5% para a economia este ano, apenas 0,1 ponto percentual acima do registrado em 2014. Para o desemprego, a previsão é de que a taxa caia para 5,1% ao longo de 2015, e que o pleno emprego seja alcançado em 2016.

Na melhor das hipóteses, poderia haver duas altas de juros de 0,25 ponto percentual este ano nos EUA. A estagnação dos salários e a inflação baixa dariam margem para esperar.

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