Seleccione Edição
Login

O abraço das múmias no pico mais alto do México

Montanhistas encontram cadáveres mumificados de escaladores desaparecidos em 1959

Foto da múmia encontrada no Pico de Orizaba, feita por Israel Ángel Mijangos.
Foto da múmia encontrada no Pico de Orizaba, feita por Israel Ángel Mijangos. EFE

A montanha mais alta do México esconde uma dessas histórias de aventuras que só o alpinismo pode oferecer. Há mais de meio século, sete homens que subiam pela face norte do Pico de Orizaba, a 5.300 metros de altitude, sofreram uma avalanche de neve que sepultou quatro deles. Os cadáveres nunca foram encontrados. Nesta semana, entretanto, montanhistas que atravessaram a área encontraram dois cadáveres mumificados que podem ser daqueles que foram devorados pela natureza. As múmias, segundo a equipe de resgate, estavam entrelaçadas num dos abraços mais longos já conhecidos: 56 anos.

A montanha deu algumas das lições mais edificantes a esportistas que se conhecem, mas também ofereceu as mais mesquinhas. A rivalidade entre escaladores gloriosos adquire contornos legendários. Esse caso não foi exceção, já que dois grupos disputam a autoria da descoberta. Uma expedição da Cidade do México encontrou a primeira múmia no domingo, por acaso. Um dos integrantes escalava uma cratera quando escorregou e caiu. Nesse instante viu uma caveira, que no primeiro momento confundiram com um coco, que se destacava na neve.

Alpinistas da Espanha e da França pedem para participar porque há escaladores desses países que morreram no pico

Os alpinistas anunciaram a descoberta nas redes sociais e avisaram a Cruz Vermelha. A fotografia que fizeram, de uma múmia com um braço aparecendo, tornou-se um viral. A notícia chegou aos ouvidos de Hilario Aguilar, da Associação Mexicana de Alpinistas, que imediatamente quis subir até o lugar. Conforme conta Aguilar por telefone, os colegas não quiseram lhe dar as coordenadas exatas. Mesmo assim, na quinta-feira iniciou a ascensão ao vulcão, situado entre os Estados de Puebla e Veracruz, e topou com o cadáver. Ao desenterrá-lo com muito cuidado nos arredores, descobriu que havia um segundo corpo. Os alpinistas encontraram também um pulôver vermelho, uma jaqueta e uma mochila.

A ideia da Aguilar e das autoridades do povoado mais próximo, o município de Chalchicomula, é resgatar os corpos na semana que vem, embora a operação possa ser adiada pela ameaça de uma frente fria. Os primeiros expedicionários tinham outros planos. Alberto Rangel contou à agência Efe que pretendiam voltar ao topo neste domingo com a intenção de resgatar o corpo. O grupo queria manter o achado em segredo por respeito à vítima e à família. Sua ideia era avisar o Instituto de Antropologia e História do México (INAH), mas a fotografia foi publicada em um grupo de escaladores no Facebook e começou a ser difundida. Rangel afirma que pretendia evitar, “como está acontecendo”, que escaladores despreparados se encarregassem do resgate.

Alguém tem uma fotografia de dois alpinistas vestidos com um pulôver vermelho. Os escaladores olham para a câmera, orgulhosos, inclusive desafiantes, sabedores de que enfrentam algo tão invencível como a natureza. Luis Espinoza guarda essa imagem como um tesouro. Era um dos sete homens que em 2 de novembro de 1959 subiram ao pico de Orizaba sem imaginar que a tragédia estivesse tão próxima. Espinoza recorda, no jornal El Universal, como naquele dia Enrique García, conhecido como El Calavera [O Caveira]; um jovem de 17 anos chamado Juan Espinoza Camargo; Manuel Campos, apelidado de El Indio Verde [O Índio Verde], e Alberto Rodríguez foram sepultados por uma avalanche que os surpreendeu em um dia claro, ensolarado, sem ameaça de tempestade.

Espinoza, hoje com 78 anos, conta que ao sentir a onda de neve que o arrastava lembrou-se da mulher que amava, Chela, com a qual nunca se casaria. Nesse momento a montanha estava lhe dando o beijo da morte. Entretanto, ele sobreviveu. Quatro de seus companheiros não conseguiram. Ao descer, foi dar a notícia ao pai do Calavera. O senhor pensou imediatamente na dor que sua esposa sentiria. “Pobre mãe”. Quase uma vida depois, as múmias de dois dos alpinistas foram encontradas, a menos que os testes de DNA digam o contrário. Faltam mais dois corpos. A montanha ainda guarda seus segredos.

MAIS INFORMAÇÕES