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Um milhão de euros para salvar um paciente de ebola fora da África

Médicos que salvaram a vida de um colega da Uganda na Alemanha discutem o dilema ético de empregar tantos recursos para curar apenas um paciente

Ébola
O missionário espanhol Manuel Garcia Viejo ao ser levado para a Espanha, antes de morrer em setembro de 2014 em decorrência do ebola. EFE

Mais de um milhão de euros (3,2 milhões de reais), o trabalho de 88 pessoas fazendo hora extra e quatro camas usadas para cuidados intensivos foi o custo necessário para salvar a vida de um médico da Uganda, infectado pelo vírus ebola, e tratado na Alemanha. Até agora haviam sido feitos vários cálculos e projeções a partir de números aproximados para gastos diários por paciente, mas os médicos que salvaram a vida do colega no Hospital Universitário de Frankfurt acabam de divulgar a fatura: 1.062.789,30 euros. Cerca de 25.000 euros por dia durante o tratamento e observação do paciente.

O tratamento de um paciente de ebola na Europa custa cerca de 25.000 euros por dia

O pediatra ugandês era colaborador em Serra Leoa da Organização Mundial da Saúde (OMS), e seu estado de saúde se tornou muito delicado depois de ter sido contagiado enquanto trabalhava. A pedido da OMS, o médico foi enviado cinco dias depois em um avião da Força Aérea dos EUA para a Alemanha, onde recebeu tratamento entre 2 de outubro até 19 de fevereiro, quando recebeu alta. Foram mais de 40 dias nos quais sofreu várias complicações por insuficiência respiratória, problemas nos rins e no aparelho digestivo, que exigiram tratamentos sofisticados e todo o conhecimento da equipe médica. Entre os recursos aplicados, uma terapia experimental com um medicamento, o FXo6, usado para tratar sequelas de infarto.

Agora, essa equipe médica publicou na revista The Lancet o preço necessário para salvar a vida do pediatra ugandês em um artigo intitulado “O Tratamento de um Médico Infectado por Ebola, a Ética Acima dos Custos?”. No artigo, a equipe detalha os 300.000 euros empregados em gastos com funcionários (26 médicos, 57 enfermeiros e cinco assistentes), 25.000 euros (80.000 reais) com medicamentos, 110.000 euros com descontaminação, quase 400.000 euros para isolar a unidade de terapia intensiva e usar quatro camas, e 100.000 euros em despesas com infraestrutura, entre outros epígrafes.

Os custos — diretos e indiretos — dessa fatura de um milhão de euros apenas incluem o período entre o momento em que o paciente entrou no centro médico e o dia em que saiu, quase sete semanas depois. Ao receber o doente, o hospital calculava que o custo ficaria em 250.000 euros. A conta foi paga pela seguradora contratada pela Emergency, a ONG italiana para a qual trabalhava em Serra Leoa. As repatriações de outros infectados por ebola aos Estados Unidos resultaram em quantias semelhantes, em torno de 1.000 dólares (2.860 reais) por hora, um pouco mais do que os custos de hospitalização na Europa.

Mas, além dos números, surgem novamente as questões éticas e o debate sobre a idoneidade de repatriar os infectados. Kai Zacharowski, responsável pela unidade de terapia intensiva do hospital e autor do artigo, respondeu enfaticamente por e-mail que o paciente não teria sido salvo na África; está vivo porque foi tratado na Alemanha. “Não podemos salvar todo mundo, mas temos que ser cuidadosos com os recursos. Embora tenhamos gastado muito dinheiro, nos permitiu aprender tanto que não tem preço, pois nos ajudará no tratamento de outros pacientes no futuro”, afirma Zacharowski, que publicou os detalhes clínicos do caso em dezembro.

Há muitos especialistas que questionam o custo-benefício das repatriações

Gonzalo Fanjul, pesquisador

O dinheiro investido para salvar os infectados pelo vírus ebola fora da África contrasta com os recursos gastos nos países de origem do surto (Libéria, Guiné e Serra Leoa). E saber o preço exato sem dúvida contribui para que o debate ocorra com mais informação. A administração de Madri, que arcou com os gastos do tratamento que salvou a enfermeira Teresa Romero (que ficou 26 dias internada), não divulgou os dados. Consultado pelo EL PAÍS, o departamento de Saúde de Madri mencionou o pedido de confidencialidade feito por Romero para justificar o fato de não revelar o dado. “Acreditamos que o público deva saber isso, por que não fornecer os dados?”, pergunta Zacharowski ao saber que a Espanha não havia divulgado a informação.

“Há muitos especialistas que questionam o custo-benefício das repatriações”, destaca Gonzalo Fanjul, que coordenou há alguns meses um estudo sobre o investimento espanhol no combate ao ebola, tanto no país quanto na África, para o Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal). Naquele momento, a Espanha havia se comprometido a destinar 9,5 milhões de euros para o programa na África, mas só havia liberado 1,6 milhão. Apenas a adaptação do Hospital Gómez Ulla custou 2,5 milhões de euros dos 14 milhões previstos pelo Governo para combater o ebola na Espanha. Segundo cálculos de Fanjul, com a ajuda dos especialistas do Hospital Clínic, os gastos para o tratamento dos três espanhóis infectados, e os com suspeita de contágio que ficaram em quarentena, teriam alcançado 3,2 milhões de euros.

Atualmente, o montante alocado pelo Executivo do primeiro-ministro Mariano Rajoy para o auxílio no combate ao ebola nos países de origem caiu para 8 milhões de euros, 0,6% do total do fundo internacional. A Alemanha, por sua vez, é o segundo maior doador, com mais de 141 milhões de euros, e os pacientes tratados no país eram médicos estrangeiros resgatados da trincheira: dois senegaleses, dos quais um morreu, e um ugandês. “A resposta lógica é que o surto seja combatido no terreno, não em casa. Com a atenção adequada, as possibilidades de sobrevivência não acabam ali”, argumenta Fanjul. Até agora, mais de 24.000 pessoas foram infectadas pelo surto, segundo a OMS.

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