World Press Photo

Foto sobre a homossexualidade na Rússia leva o ‘World Press Photo’

Fotógrafo Mads Nissen fez a imagem em São Petersburgo Concurso teve a participação de 5.692 fotógrafos de 131 países

Foto de Mads Nissen, ganhadora do World Press Photo de 2014.
Foto de Mads Nissen, ganhadora do World Press Photo de 2014. (reuters)

Jon e Alex, dois homossexuais de 25 anos num momento de intimidade em São Petersburgo (Rússia), são os protagonistas da foto do ano de 2014, na opinião do júri do World Press Photo, o mais prestigioso prêmio fotográfico mundial. O autor é o dinamarquês Mads Nissen (1979), que fez uma foto “esteticamente poderosa, e [que] tem humanidade”, nas palavras de Michele McNally, presidenta do júri e diretora de fotografia do The New York Times. Publicada pelo jornal Politiken (Dinamarca), a imagem é o resultado do trabalho de Nissen sobre a homofobia na Rússia, país que aprovou em 2013 uma lei proibindo “a apologia de relações sexuais que não sejam as tradicionais”. O fotógrafo receberá 10.000 euros (cerca de 32.500 reais) e uma câmara reflex digital com um jogo de lentes.

Nissen passou dois anos na Rússia documentando os problemas que os homossexuais enfrentam. Visitou clubes e foi testemunha da violência com que eram reprimidos pelas forças de segurança em plena rua. Graduado em jornalismo gráfico, o dinamarquês trabalhou também dois anos em Xangai observando as repercussões sociais e humanas do crescimento econômico chinês. Suas fotos apareceram em veículos como Times, Newsweek, Der Spiegel e Stern.

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Num ano como 2014, marcado pela epidemia de ebola, a luta na Ucrânia e a tragédia do voo MH17, entre outras crises internacionais, o retrato ganhador foi escolhido “porque não é preciso ir à guerra para ganhar o World Press Photo”, segundo o fotógrafo canadense Donald Weber, integrante do júri. “Também há maneiras sutis de abordar assuntos complexos, e a homofobia é um problema grave na Rússia”, acrescentou. Outra jurada, Alessia Glaviano, afirmou: “Os terroristas utilizam imagens fortes para fins de propaganda. Temos de responder com algo mais sutil, mais intenso e refletido”.

O holandês Lars Boering, novo diretor do concurso, espera transformá-lo em um “centro de pensamento do jornalismo gráfico, e por isso escolhemos uma foto sobre o amor: é uma declaração de intenções”. Falando ao jornal NRC Handelsblad, ele já tinha dito que não pretende que a organização “se torne ativista, mas sim que participe dos debates”. “O World Press Photo foi por muito tempo uma organização neutra, algo que já não se encaixa nestes tempos.”

Para a edição de 2014, foram inscritas 97.912 imagens de 5.692 fotógrafos, procedentes de 131 países. Em 2013, as regras de seleção foram alteradas para evitar retoques nas fotografias. O ganhador de 2012, o sueco Paul Hansen, foi acusado de montar várias fotos até conseguir o efeito desejado: comover o espectador ao mostrar um grupo de adultos desesperados, carregando cadáveres de crianças, na Faixa de Gaza. A investigação feita pelo próprio júri identificou apenas “retoques de cor”, mas descartou fraude.

Superado o golpe, a competição decidiu ampliar sua oferta em 2014, abrindo-se aos chamados projetos de longa duração, que consistem em coleções de 24 a 30 fotos tiradas ao longo de três anos ou mais. Pelo menos quatro deveriam ter sido registradas ou publicadas no ano passado, segundo o regulamento. O poder de atração dessa proposta foi enorme, porque ela reconhece um trabalho completo. Ao todo, apresentaram-se nessa categoria 510 relatos fotográficos compostos por 14.583 imagens. A vencedora foi Darcy Padilla (San Francisco, Califórnia) por sua galeria sobre “a complexa história familiar de Julie Baird, em que há pobreza, AIDS, drogadição, mudanças de domicílio, diferentes cônjuges, nascimentos, mortes, perdas e reencontros”. Padilla foi além das condições mínimas do regulamento, já que acompanhou desde 1993 as desventuras de Julie Baird, que teve cinco de seus seis filhos levados para abrigos infanto-juvenis. O projeto foi encomendado a ela pela Agência Vu, criada na França em 1986 e hoje com cerca de 100 autores de 24 nacionalidades.

O vencedor de cada uma das categorias, incluída a de longa duração, receberá 1.500 euros. O World Press Photo é uma organização independente e sem fins lucrativos, fundada em 1955 em Amsterdã. Além dos prêmios anuais, apoia o fotojornalismo internacional por intermédio de aulas ministradas por sua Academia. Patrocinado pela marca Canon, o prêmio recebe também recursos da loteria holandesa.

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