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Mesmos erros de SP empurram Rio e Minas Gerais para a crise

Apesar do período de estiagem que atinge o Sudeste, governantes não investiram em medidas básicas como reparos na rede para reduzir as perdas e tratamento de esgoto

Reservatório seco de água em Igarata, no Estado de São Paulo.
Reservatório seco de água em Igarata, no Estado de São Paulo. REUTERS

Enquanto São Paulo enfrenta a pior crise hídrica de sua história, os olhares se voltam para os vizinhos Minas Gerais e Rio de Janeiro. O governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), chegou a dizer que se trata de um problema “regional” provocado pela falta de chuvas. Se por um lado é correto afirmar que todos os Estados do Sudeste sofrem desde 2013 com uma forte estiagem, especialistas dizem que nenhum deles se preparou para lidar com um cenário como este.

O tratamento do esgoto e a redução das perdas no sistema de água, medidas estruturais apontadas como fundamentais para a preservação dos recursos hídricos do país, não foram implementadas corretamente pelos governos de nenhum dos três Estados. Se a ‘bomba’ explodiu antes em São Paulo, afirmam os especialista, foi em grande parte devido à grande densidade populacional do Estado – SP tem 44 milhões de habitantes, mais do que as populações de MG e RJ somadas.

“Está chovendo pouco Sudeste, estamos enfrentando um regime severo de falta de chuva”, diz Marcos Freitas, professor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-diretor da Agência Nacional de Águas. “Mas Rio, São Paulo e Minas Gerais têm problemas de poluição de rios e um nível baixíssimo de tratamento de esgoto. O Tietê e o Pinheiros, no trecho em que cortam a capital paulista, por exemplo, são mortos. Soma-se a isso um nível altíssimo de perdas de água no sistema e a falta de campanhas de conscientização da população sobre o uso racional do recurso, e o resultado é a crise atual”.

O descaso com o tratamento do esgoto, segundo Freitas, obriga os governos a "jogar água fora". É o caso do rio Guandu, que abastece 9 dos 12,1 milhões de habitantes da Grande Rio de Janeiro: “Nós desperdiçamos água suficiente para abastecer o Estado inteiro apenas para diluir a poluição do rio dos Poços , que desagua no Guandu e está altamente contaminado. É preciso bombear água do Paraíba do Sul para que a estação de tratamento dê conta de filtrar tudo”, diz.

De acordo com dados da ONG Trata Brasil, a capital paulista trata 52% do esgoto, enquanto que em Belo Horizonte a taxa está em 64%, e na capital fluminense 50%.

A transposição e canalização do Poços, que economizaria milhões de litros cúbicos de água por ano e é apontada como primordial para a sustentabilidade do sistema carioca de abastecimento, ainda está no papel, apesar do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, (PMDB), ter afirmado em janeiro que a situação do Estado é “um pouco melhor” do que os demais da Região Sudeste por ter investido em obras de infraestrutura hídrica nos últimos anos. O peemedebista descartou a adoção de um rodízio ou de racionamento “no primeiro semestre do ano”.

Dois dos quatro reservatórios que abastecem o Rio de Janeiro já atingiram o volume morto. O volume de água dos reservatórios do rio Paraíba do Sul - que abastece o Guandu -  caiu para 3% no final de 2014. De acordo com uma estimativa do Coppe, caso não chova mais até o final do período chuvoso, em abril, o Rio terá água por mais 250 dias.

O nível das perdas de água no sistema – que em MG está na casa de 40%, e em São Paulo e Rio de Janeiro na casa dos 30% - também contribuem para a exaustão dos recursos hídricos. “Existe uma falta de interesse em realizar obras nas tubulações subterrâneas, onde estão vazamentos, porque são obras que não dão retorno político para os governos. E dá mais lucro para a empresa entregar água na casa das pessoas do que resolver as perdas. E por suas vez, as agências reguladoras não têm autonomia suficiente para enfrentar os Estados nestas questões”, diz Freitas. De acordo com ele, as perdas poderiam ser reduzidas em 10% se houvesse interesse político.

'Susto' de SP

A gravidade da crise hídrica paulista ‘assustou’ outros governadores, que tomaram medidas para evitar o pior. É o caso de Minas Gerais. “O risco [de MG adotar racionamento e rodízio] é menor, em grande parte devido às lições tiradas do caso paulista. Algumas atitudes que deveriam ter sido tomadas em SP foram tomadas antecipadamente no Estado desde o início deste ano, como uma campanha forte pela redução do consumo e a realização de obras que devem amortecer um pouco o problema. Mas de qualquer forma, eu acredito que a nossa crise dura mais uns 3 ou 4 anos”, diz Carlos Barreira Martines, coordenador do Centro de Pesquisas Hidráulicas e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais.

O governador do Estado, Fernando Pimentel (PT), anunciou uma série de obras, a principal delas a criação de um novo sistema para abastecer a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), alimentado pela bacia da região de Taquaraçu e Jaboticatubas, onde estão os rios da Serra do Cipó. A iniciativa ainda depende de financiamento federal.

O nível dos reservatórios que abastecem a RMBH despencou desde janeiro de 2014. Em fevereiro o Serra Azul, o segundo maior deles, tinha apenas 6,4% de sua capacidade. A vazão do rio das Velhas – responsável por abastecer 45% da região -, em janeiro, estava em 8,85 m³/s, sendo que a média histórica no mês é dez vezes maior: 80 m³/s.

A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), anunciou em janeiro que o abastecimento de água no Estado enfrenta ‘elevado nível de criticidade’, e criou uma campanha para que a população e as indústrias reduzam o consumo em 30%. Segundo a empresa, a possibilidade de que haja racionamento e rodízio não foi descartada, mas as medidas não devem ser implementadas em um horizonte próximo.

“De toda a água usada pelos brasileiros, 80% retorna para o ambiente como esgoto. Os restantes 20% são usados para a lavagem de pátios, regas de jardim e atividades semelhantes. Com o tratamento adequado de esgotos poderíamos nos aproximar de um ciclo fechado, onde a água consumida volta novamente para o sistema, ao invés de ser descartada”, explica Marcelo Libanho, professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais.

A Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae)  informou que reduziu suas perdas de cerca de 50% para 30,8%, e que “desde 2007 está renovando toda a rede de distribuição, substituindo tubulações antigas e mais propensas a vazamentos”. As perguntas sobre tratamento de esgotos não foram respondidas.

Já a Copasa afirmou que as perdas dos sistemas gerenciados por ela passaram de 34,06%, em 2013, para 34,38%, em 2014, mas que na RMBH este valor atinge 40%. A empresa afirmou ter investido 548 milhões de reais em sistemas de esgoto, o que inclui a implantação de 26 Estações de Tratamento.

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), informou que pretende investir entre 2014 e 2018,12,8 bilhões de reais, sendo 10,3 milhões na parte de esgoto.

 

 

 

 

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