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Fogo real contra a estrela da informação nos Estados Unidos

Brian Williams deixa temporariamente seu programa após acirramento das críticas por sua notícia falsa sobre o Iraque

NBC investiga também suas reportagens sobre o furacão Katrina, em 2005

Brian Williams, em novembro de 2014, durante discurso em evento de gala em Nova York.
Brian Williams, em novembro de 2014, durante discurso em evento de gala em Nova York. AP

Desta vez, o fogo sobre Brian Williams é real. Os 57 segundos de desculpas públicas do jornalista por ter mentido durante anos sobre um incidente de 2003 na guerra do Iraque bastaram para fulminar 10 anos de credibilidade, durante os quais esteve à frente do programa informativo mais visto da televisão dos Estados Unidos, o Nightly News, da NBC. A pressão para que a emissora demita o âncora, um morto jornalisticamente a julgar pelo tamanho do escândalo, atingiu níveis insustentáveis, a ponto de nem mesmo o anúncio de uma investigação interna sobre a veracidade dos relatos em primeira pessoa do apresentador, de 55 anos, ter acalmado os lobos das mídias sociais. Pressionado pelas críticas, Williams anunciou neste sábado que está deixando temporariamente o programa.

Sob o barulho da indignação de muitos e da zombaria da maioria, está a verdadeira questão do drama de Williams: se o modelo dos homens que apresentam telejornais, baseado durante décadas em uma confiança cega em sua veracidade, resiste em meio a uma luta desenfreada por uma audiência em queda, que busca histórias cada vez mais dramáticas. Tudo isso agitado ainda mais pelo terremoto provocado, também na televisão, pela revolução digital.

O problema começou quando as façanhas militares se tornaram a máquina para ganhar audiência

O espetáculo de grandes apresentadores com colete e capacete em zona de guerra é habitual desde os tempos de Walter Cronkite no Vietnã. É um a forma de aumentar a credibilidade da estrela, simpatizar com os militares e alimentar o patriotismo do público em um país permanentemente em guerra. Williams manteve a tradição de seu antecessor, Tom Brokaw, autor de um panegírico sobre os soldados norte-americanos na Segunda Guerra Mundial. O problema começou quando as façanhas militares se tornaram a máquina para ganhar audiência, e os repórteres tinham que corresponder com histórias cada vez mais quentes e saborosas.

Williams está em um beco sem saída. Sua permanência à frente do principal telejornal dos EUA está condenada tanto se tiver mentido durante anos ao narrar com detalhes um ataque que nunca aconteceu contra o helicóptero em que sobrevoava o deserto do Iraque, quanto se tiver cometido um “erro terrível”, como defendeu perante seus telespectadores, e incorreu no que os neurologistas denominam de falsas lembranças.

Assumir como uma experiência própria fatos impactantes conhecidos através dos meios de comunicação é muito frequente. Hillary Clinton, durante a campanha para a nomeação presidencial de 2008, narrou como 12 anos antes, sendo primeira-dama, teve que correr junto com sua filha na Bósnia para escapar do fogo de atiradores sérvios, algo que nunca aconteceu. Na Espanha, como lembra Javier Cercas em seu livro Anatomia de um Instante, muitos espanhóis ainda acreditam hoje terem visto ao vivo pela televisão a investida de Antonio Tejero contra o Congresso na tentativa fracassada de golpe em 23 de fevereiro de 1981, quando, na verdade, essas imagens foram divulgadas muito depois.

A forma como Williams contou seu incidente poderia endossar essa ideia, já que em seu primeiro relato do caso, em 2003, informou que o helicóptero atacado era um que o precedia. Foi com o passar dos anos, com um tacada final na semana passada durante a retransmissão de uma homenagem a um veterano do Iraque, que o jornalista passou a se incluir entre a tripulação do aparelho atacado. Esse testemunho indignou mais uma vez os militares, que então decidiram rebater a história e denunciá-lo.

O problema para Williams é que esta patologia da mente é incompatível com um apresentador com 9,3 milhões de telespectadores a cada noite e um contrato de 10 milhões de dólares (27 milhões de reais) renovado por outros cinco anos em dezembro. As críticas ao jornalista já atingiram a direção da NBC por sua atitude passiva durante os onze anos de duração da história falsa. Veteranos, analistas e cidadãos indignados pediram em massa nos meios de comunicação tradicionais e nas mídias sociais por sua demissão. O próprio Brokaw, principal âncora da emissora antes de Williams, deixou escapar um comentário lacônico quando questionado sobre o futuro de seu sucessor: “Depende de Brian e dos executivos da NBC News."

“O jornalista mais confiável do nosso tempo”

V. J.

Substituir “o jornalista mais confiável do nosso tempo”, como foi definido por Deborah Turness, presidente da NBC News, não seria uma questão simples. A empresa investiu nos últimos anos milhões de dólares na imagem de Brian Williams, com campanhas voltadas para o que era o grande atrativo dele: a confiança que gerava nos cidadãos.

Antes de sua confissão na quarta-feira, o jornalista era uma das pessoas mais críveis. O índice de celebridades The Marketing Arm o colocava na 23ª posição em seu ranking de pessoas mais confiáveis, ao lado de Denzel Washington e Warren E. Buffet. Entre os grandes consumidores (de 25 a 50 anos), universo fundamental para a rentabilidade publicitária das emissoras de televisão, Williams tinha a confiança de 75%. O desastre para a NBC é que o jornalista não é um qualquer, e sim um dos rostos mais emblemáticos da emissora, junto com Jimmy Fallon, Matt Lauer e Bob Costas.

A história falsa de Williams surge em um momento de máxima competição pela faixa noturna da informação na televisão. O jornalista reúne 9,3 milhões de telespectadores em média a cada noite, ante os 8,7 da ABC e os 7,3 da CBS, de acordo com dados do instituto Nielsen. Sua renúncia ou demissão seria um novo golpe para Turness. Desde sua incorporação, em 2013, já teve que retirar David Gregory do posto de apresentador do programa Meet the Press por seus baixos índices de audiência (Gregory estava há 20 anos no canal). Também teve que enfrentar a saída de Jamie Horowitz do programa Today apenas dois meses após tê-lo contratado.

Como se isso fosse pouco, o escândalo acontece depois de vários fiascos cometidos por profissionais da emissora. O correspondente Bill Neely informou que os suspeitos dos assassinatos no semanário francês Charlie Hebdo estavam mortos ou detidos, o que estava errado. Há uma semana, a NBC informou que o sargento Bowe Bergdahl, cativo no Afeganistão durante cinco anos, seria acusado de deserção. Não aconteceu nada semelhante.

A investigação interna anunciada pela emissora não vai acalmar as águas. Pelo contrário, as tornará ainda mais agitadas. As pesquisas irão abordar não apenas o incidente no Iraque, mas também reportagens e relatos que Williams fez durante e depois de sua cobertura do furacão Katrina, em 2005. Williams assegurou ter vistos corpos boiando no bairro francês em Nova Orleans, disse que contraiu disenteria por beber água contaminada e que foi testemunha de saques, confrontos armados e, até mesmo, de suicídios. Todos esses relatos agora estão em quarentena. Não houve inundações no bairro francês, nem casos de disenteria, nem tanta violência como ele disse, de acordo com depoimentos de testemunhas do desastre em fóruns nas Internet.

Não há piedade para o jornalista. Se os EUA adoram seus heróis, não há país mais cruel com os que se revelam farsantes. As redes colocam em dúvida, inclusive, que ele tenha salvo filhotes de animais quando era bombeiro voluntário, como declarou à revista Esquire. A capa do jornal The New York Post colocou Williams com um enorme nariz de Pinochio, e os humoristas fizeram dele seu alvo predileto.

A respeitada revista militar Star and Stripes pergunta na primeira página se as explicações dadas por Williams sobre o incidente no Iraque são suficientes ou se ele deve renunciar. “É suficiente?”, questiona a manchete principal. Envolver-se negativamente em questões relativas aos militares em uma sociedade de patriotismo exacerbado, que recebe cadáveres de vários cantos do mundo envoltos na bandeira nacional, é a melhor maneira de acabar defenestrado há décadas nos EUA.

Tudo esta contra Williams, inclusive o antes celebrado viés cômico com o qual apresentava o programa noturno na televisão ou o fato de que sua filha Allison faça sucesso na série televisiva Girls. Vale tudo para mandar Williams ao panteão dos derrotados do jornalismo, ocupado por outros antigos nomes de sucesso como Dan Rather, que renunciou em 2005 ao cargo na CBS por uma reportagem adulterada sobre os serviços prestados por George W. Bush na Guarda Nacional.

Desde seu pedido de desculpas, na quarta-feira, Williams não voltou a abordar o assunto. Apesar de seu futuro ser, no momento, uma incógnita, são poucos os que acreditam que ele sobreviverá no cargo. Entre eles se destaca Andy Lewis, comentarista da Fox News. “Brian Williams sairá dessa”, escreveu em sua conta no Twitter. “Se sobreviveu a uma ataque com granadas, pode resistir a isso”.

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