Operação Lava Jato

‘Caso Petrobras’ invade o carnaval

Ex-diretor da Petrobras ‘proibiu’ máscaras com seu rosto, mas se tornou um símbolo

Máscaras dos rostos de Dilma e Graça Foster.
Máscaras dos rostos de Dilma e Graça Foster. Ricardo Moraes (Reuters)

É possível impedir que uma pessoa se disfarce de outra no carnaval? Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da Petrobras, acha que sim. De sua cela na prisão em Curitiba, que compartilha com os principais empresários processados na Operação Lava Jato, encarregou seus advogados na semana passada de alertar a fábrica mais antiga do Brasil de que entrariam com um processo contra ela se a série de máscaras alusivas ao rosto de Cerveró chegasse ao mercado. A ameaça do diretor da Petrobras, acusado de receber 20 milhões de dólares em propinas e conhecido também por uma desfiguração facial, conseguiu intimidar os donos da Condal (em São Gonçalo, Rio de Janeiro): “nunca” em 56 anos de trajetória algo assim tinha acontecido.

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A espanhola Olga Valles, proprietária, não parece contente com a decisão, mas quis evitar problemas: “Todos os dias recebo e-mails de pessoas que lamentam o ocorrido e me dão ideias”, afirma, risonha, na oficina da fábrica, que produz e pinta à mão, artesanalmente, entre 200.000 e 250.000 máscaras por ano.

Os assessores de Cerveró telefonaram um dia “amigavelmente” para Valles para avisar que ela seria processada por danos morais se colocasse as máscaras à venda. Depois de pensar bastante e consultar um advogado, decidiu parar a produção. O que aconteceria se tivesse seguido adiante? O advogado constitucionalista Rodrigo Mascarenhas admite que é um caso “difícil, no limite” e lembra que a discussão se parece muito com a dos paparazzi na Europa: “se há fins lucrativos, ou seja, se os fins não são puramente informativos ou artísticos, as pessoas têm o direito de evitar que sua imagem seja usada sem autorização ou que seja utilizada para algum fim constitucionalmente relevante”.

Um assessor do Governo do Rio de Janeiro, surpreendido pela notícia, reconhece também a complexidade do caso, mas reforça que Cerveró já não é diretor da petroleira estatal (um personagem público), não foi julgado ainda e, além disso, como recorda Mascarenhas, “apresenta outro elemento juridicamente relevante: um defeito físico, o que lhe dá mais argumentos”.

Cerveró em acareação na Câmara, em dezembro de 2014.
Cerveró em acareação na Câmara, em dezembro de 2014.Laycer Tomaz (Câmara dos Deputados)

A sátira política impregna o carnaval brasileiro (o mais famoso do mundo) desde o princípio: não no espetáculo do Sambódromo, transmitido para todo o planeta, mas nas centenas de blocos que reúnem dezenas de milhares de pessoas disfarçadas nas ruas. “Produzimos máscaras de políticos desde a queda da ditadura militar”, conta Valles. “Todos os anos estamos atentos para predizer os personagens mais populares”. No carnaval de 2014, por exemplo, eles venderam 15.000 máscaras do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa. “Na Europa as máscaras são usadas sobretudo para criticar”, continua, “mas no Brasil são usadas mais como elogio, por admiração”.

A Petrobras é a novidade de 2015: os funcionários estão finalizando uma primeira série de 600 máscaras de Graça Foster, que renunciou ao cargo de presidente da estatal (retratada com um gesto compungido). Foster não apresentou reclamações. “As máscaras são uma manifestação lúdica. Cerveró não tem senso de humor”, destaca a viúva do fundador da fábrica, o escultor espanhol Armando Valles (falecido em 2007).

Mas conter a ironia popular é muito complicado e Cerveró parece, com o passar dos dias, se transformar em um símbolo carnavalesco da corrupção que domina a atualidade nacional. Máscaras dele estão sendo reproduzidas pela Internet (prontas para serem impressas). No Facebook foram criados pelo menos cinco eventos relativos às ameaças de seus advogados, que também oferecem seu rosto imprimível. A revista ÉPOCA, na verdade, distribuiu na capa de seu último número máscaras do ex-diretor para recortar. Um dos advogados do ex-dirigente da petroleira, Edson Ribeiro, afirmou à editora Globo que Cerveró “tem direito de imagem e há danos morais. Se alguém fizer [máscaras], vou localizar”.

Uma pessoa que simplesmente se disfarçar do cliente dele com uma máscara não teria nada a temer, concordam todos os consultados, por se tratar de uma manifestação cultural. O que diferencia é visar lucro. Se a Condal fabricasse as máscaras e as distribuísse gratuitamente, ou se uma associação encomendasse 500 máscaras para um evento cultural, teriam boas chances de ganhar um eventual processo, mas isso representaria um esforço e um gasto dificilmente assimiláveis (“20.000 a 30.000 reais”, precisa Albert, filho de Olga), quando a empresa luta para se manter em um mercado cada vez mais invadido por produtos chineses cujos custos trabalhistas, se comparados com os do Brasil, os colocam em uma situação “de verdadeira concorrência desleal”.

Entre as ideias que chegaram recentemente à fábrica por e-mail ou telefone está, por exemplo, fazer uma máscara Petrobras dividida ao meio com os rostos de Foster e Cerveró. Também não dará as caras. No entanto, haja ou não muitas máscaras suas na rua, Cerveró não estará ausente dos irreverentes ‘blocos’ de carnaval. Ele despertou involuntariamente o interesse popular enquanto, ainda por cima, se viu obrigado a receber assistência médica por uma crise de hipertensão e solicitou atenção psiquiátrica por depressão aguda. Um bloco que percorrerá o bairro central e animado da Lapa, O Lima É Tio Meu, entoará um samba dedicado ao crime organizado da Petrobras, uma de suas estrofes relembra ao ex-executivo da empresa que foi durante décadas o orgulho nacional: “Lindo, lindo, lindo / É o Cerveró / Por favor seja bem-vindo / A casa é sua: o xilindró”.

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