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O tempo tem preço

Se o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, quer um pacto sério e proveitoso com a União Europeia, deverá suavizar seus primeiros gestos e discursos

Alexis Tsipras, premiê da Grécia.
Alexis Tsipras, premiê da Grécia.Kostas Tsironis (Bloomberg)

A primeira semana depois da vitória da esquerda radical na Grécia foi dura para as relações do novo Governo do Syriza e seus colegas da UE. Era inevitável, pois as visões de política econômica não são apenas diferentes, mas em alguns aspectos, radicalmente opostas. Acostumar-se a um sócio tão pouco convencional por parte dos outros 27 e das instituições não é algo simples. E adaptar-se à responsabilidade de governo e ao pragmatismo possibilista para um partido que se baseia na mobilização, menos ainda. Os desencontros não vão se evaporar num passe de mágica. Será preciso muita discussão séria e muito tempo. Mas tampouco o tempo disponível é eterno. Se querem evitar males maiores, o assunto deve estar encaminhado antes do meio do ano, quando se produzem alguns vencimentos que, sem solução, gangrenariam Atenas.

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Na verdade seria desejável maior rapidez para esclarecer as incertezas na estabilidade grega. De entrada porque a arrecadação fiscal está capotando perigosamente desde dezembro, já que muitos descontam uma futura grande lassitude fiscal; e porque os mercados não são imunes a algumas das primeiras medidas renacionalizantes. Também seria conveniente para não alterar o crescimento europeu. Mas é muito duvidoso que isso seja politicamente factível, apesar do esforço de interlocução de alguns, como o presidente do Parlamento Europeu ou do Eurogrupo.

Nas primeiras escaramuças, Alexis Tsipras solicitou esse tempo, exibiu uma firmeza incomum e ofereceu colaboração genérica. Mas depois desta educada apresentação, seu Governo entrou fazendo muito barulho, fixando posições, sim, mas sem abrir espaço para completá-las. Assim, o programa de emergência social anunciado na primeira reunião do Governo, embora possa ser cauteloso no aumento dos gastos (faltam os detalhes, com certeza), não esteve acompanhada de anúncios de reformas para incrementar a competitividade e a eficiência da Administração.

Desta forma, traduziu o incômodo com a troika em um rechaço absoluto a negociar com ela, que poderia ser realizável se Atenas não precisasse prolongar o segundo resgate ou iniciar outro de qualquer jeito e tivesse alguma linha de crédito como precaução; algo muito duvidoso. Seria suicida que essa negativa implicasse no rechaço de todo controle da UE sobre o cumprimento dos planos que sejam pactuados: se for assim, dificilmente a Grécia conseguirá um único euro adicional. E precisa dele. Também as simpatias em relação a Putin por causa das sanções, embora retóricas, inquietam: pelo retorno ao decrépito nacionalismo exterior (pró-russo e antiturco) que parecia abandonado por Atenas, e pela volta à velha tática da tomada de reféns (bloquear algo para conseguir concessões em outro assunto) na negociação dentro da UE.

Se quiser resultados, Tsipras deverá combinar a dureza de seus gestos iniciais com a abertura de janelas para o acordo. Porque, endividado e sem liquidez, dispõe de poucos elementos de pressão além da capacidade de convencer. Certamente a estas horas já sabe que o perdão (parcial) da dívida é uma linha vermelha intransponível para seus sócios (embora não sejam outras medidas mais suaves). Entre outras razões, porque estes também precisam prestar contas a seus cidadãos. O consenso europeu está em jogo.

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