Opinião
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Grécia põe Europa à prova

Para poder fazer o que é certo, o continente deve deixar de substituir análises por moralização

O ministro de Economia grego, Yanis Varoufakis.
O ministro de Economia grego, Yanis Varoufakis.

Nos cinco anos que se passaram desde o início da crise do euro, a lucidez escasseou consideravelmente. Mas essa falta de clareza tem que acabar imediatamente. Os últimos acontecimentos na Grécia representam um desafio crucial para a Europa: será que o continente é capaz de deixar para trás os mitos e a moralização e enfrentar a realidade de uma maneira que respeite seus valores essenciais? Caso contrário, todo o projeto europeu – a tentativa de consolidar a paz e a democracia através de uma prosperidade compartilhada – sofrerá um golpe terrível, talvez mortal.

Falemos primeiro desses mitos: muita gente parece acreditar que os empréstimos recebidos por Atenas desde o início da crise serviram para financiar a dívida grega.

A realidade, no entanto, é que a imensa maioria do dinheiro emprestado à Grécia foi utilizada simplesmente para pagar os juros e a parte principal de sua dívida. De fato, ao longo dos dois últimos anos, uma quantidade superior ao total enviado à Grécia foi reciclada da seguinte maneira: o Governo grego obtém mais rendimentos do que gasta em coisas que não são juros, e entrega os fundos adicionais a seus credores.

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Ou, para simplificar as coisas um pouco mais, seria possível pensar que a política europeia representa um resgate econômico não apenas para a Grécia, mas também para os bancos dos países credores, e que o Governo grego simplesmente atua como intermediário (enquanto os cidadãos gregos, que viram seu nível de vida despencar, são exigidos ainda mais sacrifícios para que também possam aportar fundos a esse resgate).

Uma maneira de ver as exigências do recém-eleito Governo grego é que este quer que se reduza o valor desse aporte. Ninguém diz que a Grécia gasta mais do que recebe; a única coisa que se discute é a possibilidade de gastar menos em juros e mais em coisas como saúde e benefícios aos indigentes. E ao fazê-lo, a consequência seria uma redução enorme da taxa de desemprego grega, de 25%.

Mas a Grécia não teria obrigação de pagar as dívidas que seu próprio Governo decidiu contrair? É aí que entra em jogo a moralização.

É verdade que a Grécia (ou, para ser mais exato, o Governo de centro-direita que comandou o país entre 2004 e 2009) pegou emprestado de maneira voluntária uma quantia enorme de dinheiro. Mas também é verdade que os bancos da Alemanha e do resto do mundo emprestaram todo esse dinheiro para a Grécia de maneira voluntária. Em condições normais, seria de se esperar que as duas partes responsáveis por esse erro de julgamento pagassem por ele. Mas as entidades credoras privadas foram, em grande medida, resgatadas (apesar do “corte” de suas demandas em 2012). Enquanto isso, espera-se que a Grécia continue pagando.

Bem, a verdade é que ninguém acredita que a Grécia possa pagar tudo o que deve. Portanto por que não admitir essa realidade e reduzir os pagamentos a um nível que não imponha aos cidadãos um sofrimento eterno? Por acaso o objetivo é que a Grécia sirva de exemplo para outros países endividados? Se for assim, como se compatibiliza isso com os valores daquela que, supostamente, é uma comunidade de países democráticos e soberanos?

A pergunta sobre os valores ganha ainda mais força quando se leva em conta o motivo pelo qual os credores da Grécia continuam tendo poder. Caso se tratasse apenas de um problema de financiamento público, a Grécia poderia simplesmente declarar falência; o país não receberia mais empréstimos, mas também deixaria de pagar as dívidas que tem hoje e sua liquidez melhoraria claramente.

O problema da Grécia, no entanto, é a fragilidade de seus bancos, que atualmente (como os bancos de toda a zona do euro) têm acesso ao crédito do Banco Central Europeu. Se esse crédito é fechado, o sistema bancário grego provavelmente viria abaixo em meio ao pânico bancário. Portanto, enquanto continuar com o euro, a Grécia precisa da boa vontade do Banco Central, que por sua vez depende da atitude da Alemanha e de outros países credores.

Mas pensem na maneira como isso influi na negociação da dívida. Será que a Alemanha estaria realmente disposta a dizer a outra democracia da União Europeia: “Pague ou destruiremos seu sistema bancário”?

E pensem no que aconteceria se o novo Governo grego – que, afinal, foi eleito por prometer que vai acabar com a austeridade – não desse seu braço a torcer. É muito provável que esse caminho conduzisse a uma saída forçada da Grécia da zona do euro, com consequências econômicas e políticas que poderiam ser desastrosas para a Europa como um todo.

De um ponto de vista objetivo, resolver essa situação não deveria ser difícil. Ainda que ninguém saiba, o fato é que a Grécia avançou muito na recuperação de sua competitividade; os salários e os custos despencaram, de modo que, neste momento, a austeridade é o principal lastro sustentando a economia. Portanto, o que é preciso fazer é simples: deixar que a Grécia tenha superávits menores, mas positivos, o que mitigaria o sofrimento grego e permitiria ao novo Governo proclamar seu sucesso, o que aplacaria as forças antidemocráticas que aguardam nos bastidores. Enquanto isso, o custo para os contribuintes dos países credores – que nunca vão recuperar o importe total da dívida – seria mínimo.

Entretanto para poder fazer o que é correto seria necessário que outros europeus, mais concretamente os alemães, se esquecessem dos mitos egoístas e deixassem de substituir a análise pela moralização.

Será que conseguirão? É o que veremos em breve.

Paul Krugman é ganhador do prêmio Nobel de Economia e professor de Economia e Relações Internacionais na Universidade de Princeton.

© The New York Times Company, 2015.

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