_
_
_
_
Coluna
Artigos de opinião escritos ao estilo de seu autor. Estes textos se devem basear em fatos verificados e devem ser respeitosos para com as pessoas, embora suas ações se possam criticar. Todos os artigos de opinião escritos por indivíduos exteriores à equipe do EL PAÍS devem apresentar, junto com o nome do autor (independentemente do seu maior ou menor reconhecimento), um rodapé indicando o seu cargo, título académico, filiação política (caso exista) e ocupação principal, ou a ocupação relacionada com o tópico em questão

O vale do desespero

Líderes mundiais devem reconhecer que as coisas não vão bem para todo mundo

Paul Krugman
Um homem pede esmolas na porta de um caixa automático em Madri.
Um homem pede esmolas na porta de um caixa automático em Madri.GERARD JULIEN (AFP / GETTY)

Em 2014, a crescente desigualdade nos países desenvolvidos recebeu finalmente a atenção devida quando O Capital no século XXI, de Thomas Piketty, se transformou em um inesperado (e merecido) sucesso de vendas. Os desconfiados habituais insistem em sua lucrativa negação, mas é evidente para todos os demais que a renda e a riqueza estão mais concentradas no extremo superior do que jamais estiveram desde a Belle Époque, e que a tendência não dá mostras de atenuar.

Mas essa história fala do que ocorre dentro dos países, e portanto, é incompleta. A verdade é que é preciso completar a análise ao estilo Piketty com uma visão global, e eu diria que, ao fazê-lo, percebe-se melhor o bom, o mau, e o potencialmente muito ruim do mundo em que vivemos.

Deste modo, permitam-me sugerir-lhes que deem uma olhada em um excelente gráfico do aumento das rendas no mundo elaborado por Branko Milanovic, do Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de Nova York (a qual me incorporarei nesse verão). O que Milanovic mostra é que aumento das rendas desde a queda do Muro de Berlim tem sido uma história de “torres gêmeas”. É certo que as rendas cresceram muito a medida em que as elites do mundo ficavam mais e mais ricas. Mas também ocorreram benefícios enormes para o que podemos denominar de classe média mundial, formada em grande parte pelas cada vez mais numerosas classes médias da China e da Índia.

E digamos claramente: o aumento das rendas nos países emergentes gerou enormes melhorias no bem-estar humano, ao tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza agonizante e dar-lhes uma oportunidade de ter uma vida melhor.

Os rendimentos das classes trabalhadoras dos países desenvolvidos cresceram muito mais devagar e até mesmo diminuíram

E agora, as más notícias. Entre essas duas torres gêmeas (a elite mundial cada vez mais rica e a crescente classe média chinesa) encontra-se o que podemos chamar do vale do desespero. Para as pessoas ao redor do percentual 20 da distribuição de renda mundial, as rendas cresceram, se tanto, a um ritmo lento. E quem é essa gente? Basicamente, as classes trabalhadoras dos países desenvolvidos. E ainda que os dados de Milanovic cheguem somente até 2008, podemos estar certos de que, desde então, esse grupo até mesmo piorou, golpeado pelos efeitos do elevado desemprego, o congelamento dos salários e as políticas de austeridade.

E mais, o esforço dos trabalhadores dos países ricos é, em vários importantes sentidos, a outra face das rendas por cima e por baixo deles. A competitividade das exportações das economias emergentes sem dúvida tem sido um fator para a queda dos salários nos países mais ricos, ainda que não tenha sido a força dominante. Mais importante é que o aumento da renda na parte de cima foi obtido em grande parte espremendo os que estão por baixo reduzindo os salários, cortando os benefícios sociais, esmagando os sindicatos e desviando uma parte cada vez maior dos recursos nacionais para as negociatas financeiras.

Mais informações
Economista Thomas Piketty rejeita a maior condecoração da França
'Sobre a negação da desigualdade', por P. KRUGMAN
Holanda corta serviços sociais e os transfere aos municípios
Retração econômica na América Latina põe em risco ascensão da classe média
Um golpe na ‘Pikettymania’

E, talvez ainda mais importante, os ricos exercem uma influência enormemente desproporcional sobre a política. As prioridades das elites – a preocupação obsessiva pelos déficits orçamentários, com a consequente suposta necessidade de cercear os programas públicos – contribuíram em grande parte para aumentar o vale do desespero.

Desse modo, quem defende os que ficaram para trás nesse mundo de torres gêmeas? Era de se esperar que os partidos convencionais de esquerda adotassem uma atitude populista em nome das classes trabalhadoras de seus países. Mas, pelo contrário, o que vimos – por parte de líderes que vão desde François Hollande na França a Ed Miliband na Grã-Bretanha, e, também, o presidente Obama – é um reles balbucio. (Obama, na verdade, fez muito pelos trabalhadores norte-americanos, mas é costumeiramente impedido na hora de vender suas conquistas).

Eu diria que o problema com esses líderes convencionais é que não se atrevem a desafiar as prioridades das elites, em particular sua obsessão pelos déficits públicos, por medo de serem considerados irresponsáveis. E isso deixa o campo livre aos líderes não-convencionais – alguns deles seriamente alarmantes – que estão dispostos a solucionar a indignação e o desespero das pessoas necessitadas.

Não é a primeira vez que a má gestão de uma crise econômica por parte das elites dá margem a populismos perigosos

Os esquerdistas gregos que podem chegar ao poder no final desse mês são provavelmente os menos perigosos de todos, ainda que suas exigências para o perdão da dívida e que se ponha fim à austeridade possam provocar tensão com Bruxelas. Em outros lugares, entretanto, observamos a ascensão de partidos nacionalistas e contrários aos imigrantes, como a Frente Nacional na França ou o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, na sigla em inglês) na Grã-Bretanha. E existem pessoas ainda piores esperando nos bastidores.

Tudo isso faz pensar em algumas analogias históricas desagradáveis. Recordemos que essa é a segunda vez que experimentamos uma crise financeira global seguida por uma recessão prolongada em todo o mundo. Na época, como agora, qualquer resposta eficaz à crise foi bloqueada pelas elites que exigiam orçamentos equilibrados e moedas estáveis. E o resultado final foi deixar o poder nas mãos de pessoas, por assim dizer, não muito agradáveis.

Não estou insinuando que estamos em vias de repetir ao pé da letra a década de 1930, mas afirmaria que os líderes políticos e de opinião precisam enfrentar o fato de que nosso sistema mundial atual não está funcionando bem para todos. É fantástico para a elite e tem sido muito positivo para os países emergentes, mas o vale do desespero é algo muito real. E vão acontecer coisas ruins se não fizermos algo a respeito.

Paul Krugman, agraciado em 2008 com o prêmio do Banco da Suécia em homenagem a Alfred Nobel, é professor de Economia da Universidade de Princeton.

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo

¿Quieres añadir otro usuario a tu suscripción?

Si continúas leyendo en este dispositivo, no se podrá leer en el otro.

¿Por qué estás viendo esto?

Flecha

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo y solo puedes acceder a EL PAÍS desde un dispositivo a la vez.

Si quieres compartir tu cuenta, cambia tu suscripción a la modalidad Premium, así podrás añadir otro usuario. Cada uno accederá con su propia cuenta de email, lo que os permitirá personalizar vuestra experiencia en EL PAÍS.

En el caso de no saber quién está usando tu cuenta, te recomendamos cambiar tu contraseña aquí.

Si decides continuar compartiendo tu cuenta, este mensaje se mostrará en tu dispositivo y en el de la otra persona que está usando tu cuenta de forma indefinida, afectando a tu experiencia de lectura. Puedes consultar aquí los términos y condiciones de la suscripción digital.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_