REUNIÃO INTERNACIONAL NO MÉXICO

América Latina busca um novo modelo de crescimento econômico

A necessidade de outro padrão de crescimento monopoliza a atenção dos líderes da região

Rajoy e Peña Nieto posam para foto com líderes em Veracruz.
Rajoy e Peña Nieto posam para foto com líderes em Veracruz.D. Crespo (EFE)

A América Latina está em busca de um novo modelo. Terminada a época da bonança e dos crescimentos regionais da ordem de 5%, o continente voltou seu olhar para o futuro e foi tomado pela dúvida. E agora? Essa é a pergunta que, como uma flecha, cruza os corredores e as reuniões da Cúpula Ibero-Americana, que está sendo realizada na cidade de Veracruz, no México. Nenhuma resposta conseguiu unanimidade, apesar de no horizonte das discussões surgir uma fórmula dupla: reformas estruturais profundas e uma forte promoção da qualidade da educação. É a receita de Veracruz.

“Temos que entrar em uma segunda geração de políticas públicas para retomar o crescimento. Estamos diante de um fim de ciclo no cenário internacional e a única maneira de enfrentá-lo é com uma revolução da produtividade e uma explosão da inovação”, afirmou a secretária-geral ibero-americana, Rebeca Grynspan.

Diante da brusca desaceleração e do fim iminente do financiamento barato via dólar, os líderes latino-americanos acompanham com atenção a evolução da Espanha e do México, dois países que adotaram reformas profundas e, em alguns casos, devastadoras. Mas apesar de elogiados pelos organismos internacionais, em especial pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), nenhum deles pode ainda exibir o troféu de vitória. No caso mexicano, a agenda econômica concluiu a fase legislativa, mas sem obter a reação esperada: o crescimento do PIB continua abaixo da média dos últimos 20 anos, e até 2015 não deve superar a barreira psicológica dos 3%. E a Espanha ainda apresenta o triste recorde de 23,64% de desemprego, mesmo com Rajoy ostentando com orgulho o maior crescimento da zona do euro (1,7% em 2015, segundo o FMI, ou 2% ou mais, segundo o Governo).

Não se trata de um quadro tranquilizador. Mas aos olhos dos países que assistiram ao fim do boom das matérias-primas e ao renascimento do espectro das tensões sociais, a busca por políticas fortes se tornou urgente. O risco de desprendimento das novas correntes internacionais de prosperidade é cada dia mais alto. “Não soubemos aproveitar a riqueza acumulada nestes anos, não se investiu onde era preciso: em educação, em infraestrutura e em inovação. E existe o perigo de perdermos outra vez a oportunidade. Precisamos nos abrir para o mundo”, afirmou o presidente da Costa Rica, o historiador Luis Guillermo Solís. Para ele, o caminho a ser seguido é claro: “Precisamos apostar nas transferências de tecnologia, acabar com a monogamia mercantil e nos atrelar à economia global”.

Essa necessidade de abertura econômica coincide com um fortalecimento das opiniões públicas, cada vez mais exigentes e informadas. Na visão dos especialistas, a transparência se tornou uma necessidade. Não apenas para conter a corrupção, que suga 7% do PIB latino-americano, como também para fazer decolar seu potencial econômico. Para Grynspan, trata-se de um objetivo que só pode ser atingido com um programa de políticas urgente que tenha em sua base uma aposta forte em educação, de melhora de qualidade.

“As mudanças estão ocorrendo em uma velocidade sem precedentes. Estamos assistindo a uma revolução com as tecnologias digitais. Não são os recursos naturais que vão decidir o futuro ibero-americano, mas sim o capital humano”, afirmou a presidenta do Banco Santander, Ana Patricia Botín, também presente em Veracruz. A entidade vai investir 945 milhões de dólares em quatro anos em um programa de apoio a projetos universitários na região. O avanço da educação, no entanto, bate de frente com uma barreira muito bem firmada na América Latina: a desigualdade. Apenas 9% dos alunos procedentes dos 20% da população mais pobre têm acesso à universidade, em comparação aos 50% vindos dos 20% mais abastados. “É uma enorme diferença que mostra que a desigualdade se transmite por várias gerações”, disse o secretário-geral da OCDE, José Angel Gurría.

Mas a receita de Veracruz para acabar com essa praga não agrada a todos. Uma imensa lacuna está se abrindo no continente. As ausências na Cúpula Ibero-Americana (até a segunda-feira, não visitariam o encontro o Brasil, a Argentina, a Venezuela, a Bolívia e a Nicarágua) marcam o perímetro desse buraco. O Brasil, com uma configuração econômica muito personalizada, tem estado absorto em seu próprio labirinto. A Argentina anda cambaleando, devorada pela recessão. E a crise da Venezuela se acelera na mesma proporção em que suas propostas de resolução afastam irremediavelmente o país do eixo mais liberal, do qual uma das representações mais significativas é a Aliança do Pacífico, formada por México, Colômbia, Chile e Peru (36% do PIB latino-americano). Esse bloco, que eliminou tarifas sobre 92% dos produtos, está demonstrando uma inusitada vitalidade, a ponto de já planejar sua expansão comercial aos países asiáticos. Diferentes grupos caminham em direções opostas.

Esse distanciamento dos eixos latino-americanos anuncia uma época de atritos. Ninguém duvida da impossibilidade de homogeneidade na condução econômica de uma região com 605 milhões de habitantes (10% do PIB mundial), mas os mandatários sabem do poder curativo das sinergias. “O crescimento da economia e os intercâmbios comerciais entre os países ibero-americanos são condições indispensáveis para conquistar maiores cotas de bem-estar e uma melhor distribuição de riqueza, e para lutar contra a maldição do desemprego”, afirmou o Rei da Espanha, em Veracruz. Ou, nas palavras da secretária-geral ibero-americana: “Se você quer ir rapidamente, vá sozinho; mas se quer ir longe, vá acompanhado”.