ECONOMIA NA ZONA DO EURO

Draghi prepara as compras maciças de dívida para princípios de 2015

O banco central rebaixa a previsão de crescimento e inflação da zona do euro

O presidente do Banco central Europeu, Mario Draghi.
O presidente do Banco central Europeu, Mario Draghi.RALPH ORLOWSKI (REUTERS)

Em meio a uma crise o que se deseja é que alguém dê um passo à frente e se encarregue da situação. Ben Bernanke, o já ex-presidente do Federal Reserve, fez isso nos Estados Unidos. Mario Draghi é seu equivalente mais próximo do outro lado do Atlântico: o chefe do Banco Central Europeu anunciou na quinta-feira – à sua maneira – as compras maciças de dívida pública para os primeiros meses de 2015.

A economia da zona do euro está a ponto de chocar-se pela terceira vez contra as rochas da recessão. E os preços aproximam-se perigosamente da zona de deflação. Consciente dos sérios riscos associados a esse panorama, Draghi deu um murro na mesa: ressaltou que está disposto a apertar o botão nuclear das compras de bônus “no início do ano que vem” ainda que sem a anuência do Bundesbank, o banco central alemão.

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Draghi não precisa da Alemanha. “Não somos políticos”, respondeu a jornalistas na entrevista coletiva posterior ao Conselho de Governo, em Frankfurt. “Temos um mandato: a estabilidade de preços. Já em outras ocasiões tomamos decisões importantes sem unanimidade. E não vamos tolerar desvios prolongados da meta de preços [2%], não vamos permitir o endurecimento da política monetária que viria se o Eurobanco não fizesse nada”, se continuasse de braços cruzados vendo os índices de preços continuarem sua caminhada inexorável para o território negativo.

Ante a recusa alemã, recorda que a unanimidade não é necessária

Passo a passo, o BCE vai-se aproximando do quantitative easing (QE), os programas de compras de ativos públicos e privados adotados por EUA, Reino Unido e Japão. Aproxima-se um pouco mais cada vez que comprova que as medidas extraordinárias aprovadas até agora – e foram muitas – não surtem efeito. Estamos diante de um mundo novo: as políticas econômicas não funcionam do mesmo jeito com as taxas de juros a 0%. Consciente disso, Draghi pôs sua equipe para trabalhar há um mês para ter tudo preparado. E nesta quinta-feira anunciou que apertará o gatilho das compras de dívida na reunião de 22 de janeiro ou, no mais tardar, em março. A falta de decisões concretas nessa reunião levou as Bolsas europeias a cair entre 1% e 2%.

Não pode ir mais depressa: o BCE está pendente da decisão do Tribunal da UE sobre o programa anterior de compra de bônus, que chegará em meados de janeiro. A partir de 2015 serão divulgadas as atas das reuniões, e a Alemanha poderá registrar por escrito suas divergências. Draghi, além disso, deve esperar que se comprove que nem os leilões de liquidez nem as atuais compras de ativos privados têm o impacto esperado. Finalmente, a sucessão de péssimos dados econômicos joga a favor do QE. As previsões do próprio Eurobanco vão de mal a pior. A zona do euro crescerá somente 0,8% este ano, e um magro 1,5% em 2015. A inflação será de 0,5% no conjunto do ano e de 0,7% em 2015: e esses cálculos partem de um preço do petróleo de 85 dólares por barril, quando a cotação já está abaixo dessas cifras.

A munição está acabando. Em tempos normais, o BCE combateria essa doença econômica reduzindo as taxas de juros, mas faz tempo que o preço do dinheiro está em 0%. Estes não são tempos normais: o conselho do BCE “é unânime em seu compromisso de usar novos instrumentos não convencionais. Isso implicaria em alterar no início do próximo ano o tamanho, o ritmo e a composição do balanço” do Eurobanco, segundo Draghi.

A bala de prata que resta a Draghi terá uma potência de meio trilhão de euros. O BCE tem um balanço de dois trilhões, e espera elevá-lo para três em um prazo de dois anos com leilões de liquidez e compras de cédulas e títulos. Com isso, o mercado espera que o BCE eleve em 500 bilhões o tamanho do balanço. Restam outros 500 bilhões para o quantitative easing. Com as projeções de inflação no chão, Draghi já nem se importa com o que a Alemanha dirá. O IPC está há mais de um ano com altas inferiores a 1%, quando a meta é de 2%: o BCE não cumpre seu próprio mandato. Daí vem a frase do dia, “não somos políticos”, que Draghi lançou em referência aos desacordos com o muito ortodoxo e tantas vezes equivocado Bundesbank.

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