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Gas Natural tenta conquistar as Américas

O grupo cresce no Chile e intensifica sua presença no Brasil, México e Panamá

Sede central de Gas Natural em Barcelona.
Sede central de Gas Natural em Barcelona.

A Gas Natural Fenosa (GNF) volta a conquistar as Américas, com os olhos voltados para o Brasil e o México, e com as cartas postas sobre a mesa no Chile que vão transformá-la em uma das maiores multinacionais do setor de gás e eletricidade naquele continente; além disso, a empresa ampliou seu negócio de gás natural liquefeito (GNL); e em casa não se desorganizou frente aos cortes regulatórios a seus lucros, recorreu ao Supremo Tribunal contra a lei de renováveis, quer comprar os ativos espanhóis da alemã E.ON, reorganiza atividades e acaba de lançar uma fórmula de tarifa simples para seus clientes.

O grupo vai fazer coincidir, além do mais, no começo de novembro, o primeiro aniversário de seu atual Plano Estratégico até 2015, que dá prioridade aos mercados latino-americanos, com o lançamento da maior operação internacional de sua história – que será também a maior de uma utility na América Latina: uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) de ações sobre a Companhia Geral de Eletricidade (CGE), a maior distribuidora de gás e eletricidade do Chile, que pode chegar a 8,3 bilhões de reais em dinheiro se a oferta chegar a 100% de aceitação.

A compra, em todo caso, está blindada porque a espanhola fez um pacto antes da OPA com os maiores acionistas da CGE, que reúnem mais da metade de seu capital, para a venda de seus títulos. O tamanho total desta operação, incluída a dívida consolidada da chilena e a participação minoritária de suas filiais, rondará os 19 bilhões de reais.

GNF, que classifica a operação como “marco estratégico” porque abre uma posição de liderança no importante mercado chileno, vai financiar a compra da CGE com fundos próprios, entre caixa e linhas de crédito não dispostas. Seu diretor-executivo, Rafael Villaseca, disse aos analistas que a aquisição não altera a solidez financeira e acelera a realização de seu plano estratégico.

Tal plano prevê até 2015, entre outros objetivos, manter ou aumentar ligeiramente seu Ebitda ou resultado bruto de exploração (a mais de 16 bilhões de reais) e seu lucro líquido (em torno de 4,8 bilhões); uma melhora na razão da dívida sobre Ebtida de até 2,5 vezes no final do período; investimentos na ordem de 16 bilhões (concentrados sobretudo nos negócios de gás na Europa, na compra e venda de GNL e na expansão orgânica na América Latina), e uma atribuição de dividendos de 62% dos lucros.

A redução da dívida, em todo caso, continua sendo uma prioridade (pretende diminuí-la de 51,2 bilhões em 2012 para 41,6 bilhões em 2015). O plano, por outro lado, quantifica em 960 milhões a aplicação de seus programas de eficiência.

Os analistas que acompanham a companhia coincidem em apontar o acerto estratégico da compra da empresa chilena, que reduzirá a dependência da GNF ao mercado espanhol de 56% para 49% e que elevará a participação da América Latina em seu negócio, passando de 26% para 35%; mas alguns afirmam que o preço oferecido pela espanhola é alto (entre outros, os especialistas da UBS, Barclays e RBC Capital Markets)

A CGE não é o único passo recente de Gas Natural nos mercados exteriores. Há poucas semanas foi criada uma empresa, Global Power Generation, para impulsionar seu negócio internacional e abrir novos mercados; e alguns meses antes havia fechado um acordo com a elétrica Cemig para abordar a criação de um grupo líder na distribuição de gás no Brasil.

Em agosto, no México, a GNF adiantou às autoridades sua disposição de participar na briga por 16 projetos (dois gasodutos, três centrais de ciclo combinado, uma hidrelétrica, três linhas de transmissão, e redes de distribuição elétrica, entre outros), com um orçamento total de 12,3 bilhões de reais.

Em setembro, a GNF anunciou que investirá 1,2 bilhão de reais no Panamá ao longo de quatro anos em redes elétricas e na melhora de serviços e que ofereceu sua colaboração para implantar o gás natural no país.

Em sua outra grande aposta de crescimento, o gás natural liquefeito, que é o grande mercado do século XXI segundo a companhia, a GNF está bem posicionada desde que em 2011 assinou, com a norte-americana Cheniere, seu maior contrato de abastecimento (5 bcm anuais ou 5 bilhões de metros cúbicos, com liberdade de destino, durante 20 anos). E em junho deste ano assinou outro acordo similar com a citada Cheniere por 30 bilhões de reais.

Quanto a suas vendas de GNL, no final de maio assinou um contrato a longo prazo com a chilena Minera Escondida para fornecer gás liquefeito a partir de 2016 para uma central de ciclo combinado. Este contrato reforça o papel da espanhola como operadora de referência, com uma carteira próxima aos 30 bcm. Nos últimos meses foram assinados contratos de fornecimento de GNL na Índia, Coreia do Sul e Japão.

Na Espanha, Gas Natural, segundo adiantou no meio do ano seu diretor-executivo aos analistas, quer acelerar seus investimentos na distribuição de gás depois da última reforma do sistema aprovada pelo Governo, que incentiva a captação de grandes clientes e a chegada a novas cidades.

A reforma, segundo a empresa, dota o setor de “maior estabilidade e o torna mais previsível”. Aspectos que contribuem para que a GNF se sinta “satisfeita” com as mudanças, segundo Villaseca, apesar de ter recebido um impacto negativo de 45 milhões sobre sua renda regulada.

Villaseca sublinhou que sua empresa “está respondendo de forma muito positiva aos ajustes regulatórios” com melhores práticas e contenção de custos. Suas perspectivas na Espanha, em todo caso, são melhores para seu negócio de gás que para o elétrico.

O grupo vai publicar dia 4 de novembro os resultados dos nove primeiros meses. Analistas consultados confiam em que estejam em linha com os da primeira metade do ano. No primeiro semestre, a GNF teve um lucro líquido de 2,9 bilhões de reais, 19,5% mais que no mesmo período de 2013, mas o resultado incluiu a venda de sua filial de telecomunicações (807 milhões) e uma deterioração do imobilizado de 70 milhões. Se estes extraordinários não tivessem sido contabilizados, o lucro líquido ajustado teria se reduzido em 2,7% pelo impacto regulatório na Espanha (423 milhões) e pela depreciação (243 milhões) das moedas latino-americanas.

O grupo tem também pontos em aberto como retorno à atividade da usina de liquefação de Danietta, no Egito, cuja gestão e propriedade divide com a italiana ENI. Ela se acha paralisada pela situação política e a falta de gás. Isso pode mudar com a assinatura, em maio, de um acordo de intenções para adquirir gás israelense (4,5 bcm) e com as conversas abertas com o Governo egípcio para tratar esse gás em Damietta.

Também está pendente a anunciada saída de Repsol de seu capital, no qual tem 30%.

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