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“Não faz sentido ter que dar tanta explicação”

Avessa à polêmica, Gala León quer recolocar equipe da Espanha no Grupo Mundial de tênis

Gala León, na terça-feira em Sevilla. Ampliar foto
Gala León, na terça-feira em Sevilla. AFP

Gala León (Madri, 40 anos) passou em poucos dias de ex-tenista desconhecida pelo grande público ao centro de todas as atenções, depois de se transformar na primeira mulher a ser nomeada capitã da equipe espanhola da Copa Davis. Avessa à polêmica que sua nomeação provocou, na qual se mesclam o questionamento de sua capacidade técnica, o escrutínio de sua experiência profissional e o machismo, ela defende com paixão seu projeto, que é o de reposicionar a Espanha no Grupo Mundial depois da primeira queda desde 1995.

Pergunta. A seleção caiu e já não atrai muitos de seus melhores tenistas. Qual será seu primeiro passo como capitã?

Resposta. É evidente que é preciso haver um primeiro contato com os jogadores, que será no torneio de Valência (em outubro). Não sei se conseguirei ir a a Paris-Bercy e aos torneios do Grand Slam. É necessário seguir a rotina, a própria inércia, do que é um capitão da Copa Davis, e falar com eles para saber os verdadeiros problemas pelos quais não puderam jogar. Se é por lesões, isso é óbvio. Se é por outra coisa, vamos ver se podemos chegar a um acordo: primeiro eles têm de me explicar suas posições. Tudo são rumores. Há pessoas das quais se comenta que é por serem mais velhas, outros pelo calendário, outros, sim, pelo dinheiro, outros porque a eliminatória é dura... Primeiro temos de nos sentar e ver que posição os jogadores adotam, para trabalhar e chegar a um consenso com eles, de modo que não seja tão difícil para eles disputar a Davis.

P. Vários técnicos e tenistas manifestaram surpresa pela sua nomeação. Duvidam de você por questões técnicas ou por ser mulher?

Sou qualificada para o cargo. Não é verdade que os jogadores não me conheçam

R. Essa é uma pergunta que eles mesmos teriam de se fazer. Se me puseram neste cargo é porque sou qualificada. Que os jogadores não me conheçam ou que não vá aos torneios, não é verdade. Se eu não encontro com eles no circuito, enquanto eles estão viajando por um lado e por outro, como ocorreu comigo nestes três últimos anos, é claro que vão dizer que não fui aos torneios, mas vou à Caja Mágica (onde se disputa o Masters de Madri), sempre a Valência, vejo torneios, fui aos grandes, ao Indian Wells e Miami... Não é verdade que eu não tenha visto nenhuma partida de tênis. Fui comentarista de tênis masculino na televisão. Ter que dar tanta explicação não faz sentido. Tenho convivido com eles. Quase todos os treinadores desses jogadores são ex-jogadores com os quais mantenho uma relação cordial e com quem nunca tive nenhum problema. Todo o resto é tirar as coisas do contexto.

P. Horas antes de nomeá-la, a Federação ofereceu a renovação a Carlos Moyà, seu antecessor. Quando este não a aceitou e sua chegada foi oficializada, surgiram as reações contrárias e José Luis Escañuela, o presidente, mostrou-se convencido de sua decisão, mas deixou aberta a possibilidade de que não fosse em frente. Não parece um começo fácil.

R. Quem disse que a vida é fácil?

P. Como Gala León jogava?

R. Tinha muita força, era muito inteligente na quadra, sem um golpe definitivo. Mais que tudo, era a forma de ver o tênis. Se ao contrário não me sobressaía por estar excelente nesse dia, pela força, como as Williams, enfrentava à altura todas as jogadoras, sempre encontrava uma maneira para que minha bola as incomodasse mais.

P. O que aprendeu como treinadora?

R. Que você pode ter muitíssima facilidade para ver a jogada, mas há gente que não, que precisa trabalhar mais, por isso é preciso ser mais calmo, paciente, dar-lhe espaço. Isso é o que mais aprendi desde que passei as ser treinadora. Eu via tudo fácil e me perguntava: “Como pode ser que não jogue [a bola] aqui ou lá, como lhe disse? É preciso deixar que o jogador se forme na velocidade que precisa.

P. Não é a mesma coisa transmitir essas instruções a Silvia Soler e a Fernando Verdasco, que tem um peso muito maior no tênis internacional e expressou que acredita que seu posto deveria ser ocupado por um homem “sempre que possível”.

R. Deveria ser mais fácil. Eles veem muito mais rápido. Mas quando alguém não quer, não quer. Você não pode obrigar ninguém.

P. Se estivesse sentada diante de Rafael Nadal, o que diria a ele?

R. Rafa é a marca da Espanha, o Rafa simboliza todo o país, o Rafa é o melhor jogador de todos os tempos. Temos que motivá-lo a jogar pela Espanha. Ele sempre esteve disposto, mas as lesões lhe deixaram de fora de algumas eliminatórias. Disse que está à disposição do capitão.

P. A competição perdeu a atratividade para os jogadores. Qual é sua mensagem?

R. Fazê-los entender que a Copa Davis é importantíssima, que jogando saem reforçados e mais reconhecidos, que defender as cores e a camisa da Espanha é o máximo. Feliciano López e Fernando Verdasco, que são grandes jogadores, foram exaltados pela Davis. Perdeu-se essa visão e é preciso recuperá-la. Minha intenção não é sobreviver este ano, mas que a Davis recupere essa paixão e a história que carrega. Não tenho nenhuma arma especial. Quero expor aos jogadores, com diálogo, meu ponto de vista.

P. O que emociona e o que assusta do desafio enfrentado?

R. Me emociona conseguir recuperar o maior número de jogadores disponíveis para a Davis. É o maior desafio, ter o maior grupo possível de jogadores, porque alguns se sentem mais confortáveis em uma superfície do que em outra, e assim poderíamos jogar com essa variável. O que me assusta? Não sou mágica. Não tenho uma varinha mágica para mudar as coisas de um dia para outro. Os jogadores são profissionais e esse profissionalismo terão que ir demonstrando com a equipe.

P. Pretende aplicar a Lei do Esporte, que obriga os atletas a jogarem pela seleção, ou aplicará sanções para os tenistas que não joguem com a Espanha depois de terem recebido bolsas do governo em seus anos de formação?

R. Deveria ser natural e recíproco que quando te ajudam devolva essa ajuda. No Centro de Alto Rendimento (CAR) estão sendo tomadas medidas para que, quando um jogador tenha bolsa, assine um contrato com cláusulas para que jogue a Davis ou a Copa da Federação enquanto estiver no CAR.

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