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Do sucesso e do fracasso

A mobilização do 'Dia da Catalunha' foi notável, embora isso não sirva para validar um projeto ilegal e divisionista

A manifestação em “V” do 'Dia da Catalunha', a Diada desta quinta-feira, significou um notável sucesso organizativo para seus organizadores independentistas. Os esforços de última hora conseguiram cobrir com tranquilidade o desenho; a capacidade de gestão dos movimentos de massa voltou a mostrar-se impressionante; o clima de convivência terminou incólume; e o ato foi um espetáculo estético. Mas não foi “a maior manifestação da história da Europa”, como pretendiam os organizadores. E o que é mais importante, esta mobilização não dá mais legitimidade a um projeto que só conduz à divisão e à frustração.

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As razões finais deste resultado superam a preparação logística; são políticas. A implicação do Governo da Generalitat na convocatória foi, desta vez, mais surpreendente que em anteriores ocasiões. Adiantou seus atos oficiais em benefício da manifestação; converteu o discurso de seu presidente, Artur Mas, em mensagem preparatória; e conseguiu um asfixiante apoio de seus meios de comunicação à convocatória, celebração e balanço da “V”, o que provocou um insólito protesto sindical interna, que equipara a outrora sólida TV-3 a outros agentes manipuladores como Telemadrid. Assim, os atos de quinta não foram resultado somente da espontaneidade social. Ela existe, mas também é conduzida e organizada a partir do governo autônomo. O que teria acontecido se tivesse sido ignorada como a manifestação unionista de Tarragona?

Mas não é verdade que protestos tão grandes podem ser produto da mera agitação de um Governo. O mal-estar continua, porque dois anos depois, as reivindicações catalãs, sejam estas as de uma consulta, de uma reforma federal ou de um novo pacto fiscal não receberam nenhuma resposta oficial a não ser a negativa ou o silêncio: o contrário de uma alternativa aceitável para todos, especialmente para a minoria majoritária, a daqueles que confiam em uma terceira via autonomista distante do secessionismo e do neocentralismo. Será necessário esperar, então, a retomada do diálogo entre Governos, mas cada dia que passa joga contra uma saída de consenso, como indica também – embora sobre diferentes parâmetros – a dinâmica escocesa.

Precisamente o fato de que tenham passado dois anos sem obter resultado mostra como o sucesso organizativo de convocatórias se ajusta ao fracasso da estratégia secessionista, baseada em mobilizações frontais. Não se colhem frutos; crescem os partidários da “terceira”; não surgem aliados políticos ao processo no conjunto da Espanha; o crescente interesse midiático internacional não é acompanhado por apoios tangíveis; seus líderes não conseguem superar os episódios de desunião, e alguns deles defendem um disparatado desvio ilegal do movimento, mediante a desobediência civil, apelando ao exemplo de Luther King: como se a Catalunha sofresse um apartheid racial.

É impossível encontrar maior incompetência política para administrar o mal-estar real e encaminhá-lo construtivamente.

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